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Online desde: 05/01/2000 |
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Colin: Todo quadrinista brasileiro já nasce decepcionado. Não pude publicar mais em lugar nenhum. Adorava e adoraria fazer isso. Gastei muito dinheiro em livros, documentação, mapa, guia etc. Mas, infelizmente, não paga a esquine, e eu tenho família para sustentar. UHQ: Podemos notar, no decorrer de seus trabalhos, uma grande mudança nos traços, chegando ao seu incrível estilo pessoal, quase caricato, na década de 70. Como foi essa mudança? Colin: Olha, eu primeiro fui procurando um traço pessoal, algo que me identificasse. Mas um traço onde eu me sentisse à vontade, porque não adianta fazer algo que é pretensamente pessoal, mas você não se sinta confortável. Então, eu tinha que fazer alguma coisa que me agradasse, estética e artisticamente. Fui e sou um adepto da simplicidade. Acho que a coisa tem que ser simples. UHQ: O Ivo Milazzo também comentou isso conosco. Ele disse que faz várias coisas em um traço o que outros fariam em 3 ou 4. Colin: Exatamente! É o meu caso. Eu não rabisco muitas coisas. Uso muito contraste, mas procuro sintetizar, fazer a coisa simples. Talvez seja por isso que dizem que eu sou moderno, eu estilizo, às vezes meio caricato. Por exemplo, eu acho que se você for desenhar um bandidão, ele tem que ter no traço, na figura, alguma coisa truculenta, que o leitor olhe e diga 'Esse aí é o bandido; e não o mocinho'. Mas a simplicidade é muito difícil, porque é muito mais fácil colocar do que tirar. Agora, eu digo o seguinte, a base tem que ter estudo, tem que ser acadêmica. Meu esboço é quase acadêmico, a estilização é feita depois. Você não pode partir direto para o cartum, e eu vejo muito disso, principalmente, em fanzines. Mas o cartunista sabe que tem que ter essa base de anatomia. Estilizar direto é muito difícil e o desenho não fica completo. UHQ: Qual é a recompensa em ter uma grande parte da vida dedicada aos quadrinhos, no Brasil? Colin: Se for falar em termos de ser conhecido e ter conseguido um certo renome, tudo bem. Agora, financeiramente, é um desastre. Uma catástrofe. Pior que terremoto em El Salvador. É vergonhoso, humilhante. UHQ: Em algum momento de sua carreira, foi possível viver apenas dos quadrinhos? Quando você enveredou pra ramo da publicidade? Fale-nos um pouco de suas outras atividades. Colin: Eu não vivo apenas de quadrinhos, eu vivo, em grande parte, dos quadrinhos, mas quero mudar, porque não dá mais para agüentar. Eu sempre que posso ilustro um livro, e faço um freelancer para a área de publicidade. Fui mais para essa lado em 1964 ou 65. Houve um concurso na McCann Erickson, do pneu Atlas. O tema era "Deixe o macaco em paz". Eles queriam um macaco, o animal, e eu consegui fazer como eles queriam. Fiz toda a campanha, ganhei dinheiro. Não tinha vaga pra entrar na agência, mas fiquei conhecido por lá, pelo diretor de arte, o Oscar Gosso, um argentino. Aí, aconteceu que um desenhista chinês resolveu sair, para ir pro Canadá, onde morava sua mãe, e abriu uma brecha. Eu trabalhava na TV Rio, e nunca tinha visto um storyboard, nem sabia o que era. Conheci lá, na hora. Mas como eu fazia quadrinhos; e storyboard tem muito a ver com HQs, não foi muito difícil. Além disso, faço quadros, de vez em quando, e já fiz até exposição. Quero me dedicar mais a isso, porque talvez fazer "quadrão" dê mais lucros do que fazer quadrinhos (risos). Eu pinto com acrílico, sobre telas. Faço também esculturas de madeira, que é uma paixão que eu tenho.
Colin: Já ganhei três HQ Mix, um em 1990 (Grande Mestre dos Quadrinhos), e outros em 1994 (Desenhista Nacional) e 1997 (como homenageado). Recebi também dois prêmios Angelo Agostini, sendo que o segundo foi esse ano, pelo meu trabalho em "Fawcett". Ganhei um troféu do XII Salão Carioca de Humor, como homenageado, e um prêmio da Gibiteca de Curitiba. Tem ainda outros, do Salão Internacional de Piracicaba; Press 1986, pelo conjunto da obra; e do Museu da Imagem e do Som. Houve também uma homenagem da Laura Alvim. UHQ: De tantas e tantas histórias que ilustrou, qual sua favorita? Por quê? Colin: A favorita seria "O Caraíba". Chegou a sair na Itália, mas não deu certo por aqui. Ele não nasceu com uma boa estrela, e resolvi não fazer mais. UHQ: Qual sua opinião sobre os quadrinhos de super-heróis? Colin: Olha, quadrinho pra mim é uma coisa fantástica. Com certeza é um dos maiores veículos de comunicação. É imagem e texto sucinto, que você diverte e instrui. No Brasil, um país de semi-analfabetos e analfabetos, o quadrinho tem uma importância muito grande, mas é pouco usado. UHQ: Até porque existe muito preconceito, considerado sub-arte... Colin: Isso, exatamente! Sub-arte, coisa de criança, de maluco. Já aconteceu de me perguntarem o que faço da vida, e quando digo que desenho quadrinhos, me olharem como se eu fosse um retardado, um débil mental. Mas é o que eu faço, e gosto! Aqui, isso tem uma importância muito grande, porque pode ser usado didaticamente e de várias outras maneiras. Mas, tirando isso, se deveria mostrar o Brasil para o brasileiro. Existia uma série na TV chamada "Carga Pesada". Eles eram caminhoneiros que percorriam todo o País. A Rio Gráfica tentou fazer em quadrinhos, mas cancelaram. Uma pena, porque era uma beleza. Mostrava todo o País, seus costumes, comidas, paisagens... O brasileiro não conhece o Brasil e não sabe NADA de Brasil também. Se for atrás de novela de Rede Globo, então, tá roubado... Mas isso é ideologia, um sonho, uma utopia... Mas, de médico, poeta e louco, todo mundo tem um pouco. Como não sou médico, sou poeta e louco (risos). Super-herói não dá! Artista brasileiro consegue publicar, com alguns rapazes de talento desenhando pros EUA, mas, muitas vezes, fazem anonimamente. No molde americano, como eles querem. Mas eu acho uma questão de mentalidade. O americano adora isso. É de sua cultura, porque o americano é o super-herói. Para eles, são os donos do mundo, os xerifes do planeta. Dominam tudo e são os mais bonitos, inteligentes e poderosos. Então, super-herói vem a calhar. Eles se vêem num Super-Homem, Batman, Homem-Aranha, sei lá... Capitão América! Olha só o nome: Capitão América! Mas nós não somos nada disso! Então, é uma forçação de barra. Em compensação, somos mais inteligentes e temos mais noção de ridículo do que eles (risos).
Colin: Sim, meu estilo é assim porque eu queria fugir do padrão americano. Muitas pessoas já me falaram que eu me daria bem na Europa, mas como não fui... Eu não leio quadrinhos. Raramente leio algo. De vez em quando, uma tirinha do jornal O Globo, com o Hagar. Eu gosto de quadrinhos quando eles têm um conteúdo. Recebi um álbum do André Toral. Ele é um grande desenhista, com um estilo totalmente diferente do meu. O álbum é muito bom, muito bem documentado, sobre a Guerra do Paraguai. Deu um enfoque muito legal. Isso eu gosto de ler! UHQ: Você soube do projeto do jornalista Marcelo de Andrade de adaptar obras de Machado de Assis para quadrinhos? Colin: Eu já ouvi falar nisso! Aliás, me ligaram outro dia perguntando se eu tinha ficado chateado por não terem me convidado. Eu disse que chateado não, mas lamento não participar, porque eu sempre gostei de fazer temas brasileiros. É coisa nossa! Quando se trata de tema nosso, eu gosto de participar, me sinto gratificado. UHQ: Quais são seus artistas favoritos nos quadrinhos? Colin: Eu confesso que dos estrangeiros conheço poucos, e dos brasileiros também, porque não leio tanto assim. Mas conheço alguns rapazes, como o Watson Portela; Klévisson Viana, que está começando, e é muito bom; o velho Shima, companheiro e mestre; Mozart Couto, que agora parece estar se voltando mais para mangá, mas houve uma época que o desenho dele era primoroso, acadêmico. Ah, tem também o Mutarelli. UHQ: Você chegou a participar de um movimento em prol da nacionalização dos quadrinhos, na década de 70. Como foi isso? Por que não deu resultado? Colin: Não deu resultado, porque não podíamos competir com a Abril e a Globo. Era uma dificuldade encontrar as revistas. Depois, começou o problema político no Rio Grande, além das dificuldades de patrocínio e distribuição.
Colin: Não sei se estou como vinho, mas vou desenhar até onde o meu sentimento, talento e minha mente disserem 'Faz!'. O dia que eu começar a ficar muito repetitivo, sentir que chegou minha hora, penduro meus pincéis e vou vender pipoca na esquina. Faço meus desenhos da maneira que eu sinto. Às vezes, agrada! Olha, não se faz nada sem alma. Ou coloca a alma, ou não faz. UHQ: O que você acha da nova geração de desenhistas brasileiros? E da "velha guarda", quem você não pode deixar de citar? Colin: Da velha guarda, estão todos meios parados, com exceção do Shimamoto. Ele lançou agora "Volúpia", que é uma beleza. Dos outros, eu não tenho visto mais nada... pararam ou ficaram ricos, em outras atividades mais lucrativas. UHQ: O que acha do fenômeno da segmentação dos quadrinhos, com tiragens menores e vendas em lugares especializados ou livrarias? Colin: Olha, eu não sei explicar muito bem. Isso é um problema editorial. Eu vejo o seguinte: as bancas começaram a encher, de repente. Isso satura e confunde o leitor. Pouca opção é ruim; e muita, atrapalha. Ninguém tem verba para comprar tudo, e as revistas ficaram umas muito parecidas com as outras. Já em formato de livro, é mais seletivo. Não tem uma tiragem fantástica, mas é regular e possui um público cativo, assim como o europeu faz com Asterix e Tintin. UHQ: Com essa "transformação" que o mercado nacional está experimentando, quadrinhos nacionais têm aparecido com boa freqüência. Você vê chances de uma retomada da produção brasileira de HQs? O que seria necessário para isso acontecer? Colin: Eu sempre que escrevo e me correspondo com André Diniz, Sibeck e todos que começaram fazendo fanzines. Dou a maior força e sempre desejo que, um dia, eles consigam furar esse bloqueio dos copyrights, publicando coisas deles. Para a minha satisfação, eles estão fazendo temas nossos. Isso é importante! Torço de coração que consigam comover os editores a abrir as portas para os quadrinhos. Não sei se estarei vivo até lá, mas... Vivem falando que não existe mercado pra quadrinhos brasileiros. Existe, poxa! Com todo respeito, mas se fizerem HQS nacionais de boa qualidade, vai vender! Agora, é Pokémon, mangá... pegam aquelas coisas tudo prontas, com cobertura da televisão, são distribuídos no mundo inteiro e entram aqui com preço miserável. Aí não dá pra competir. UHQ: Um recado para quem pretende trabalhar como desenhista de quadrinhos? Colin: É difícil (risos). Procure sempre aprimorar o traço, porque um verdadeiro artista nunca está pronto. Tem que estar aprendendo sempre, evoluíndo sempre. No dia que achar que está pronto, começa a morrer. E que usem os temas nacionais! Há algum tempo recebi um fanzine de Fortaleza. Os desenhos deles eram estilo mangá. Com tanto tema nordestino, e não estou falando necessariamente em cangaceiros. Existem várias outras figuras, até da cidade. O Brasil tem um litoral imenso, e não existe história sobre isso. Faz coisas do nosso povo! O brasileiro é um contador de "causos". Pega isso e faz em quandrinhos. Deixa Pokémon pra japonês. Tinha uma revista chamada "Capitão Rapadura". Aquilo era um barato, eu me deliciava! Tudo bem brasileiro. Mas os editores não vêem isso. E leiam bastante. Há desenhistas que são bons, mas não têm cultura. Você percebe que falta algo no traço deles. Isso enriquece o trabalho. UHQ: Obrigado, Colin. Foi uma honra para o Universo HQ entrevistá-lo! Colin: Eu é que agradeço! Foi um prazer pra mim, e espero não ter dito muita besteira (risos). ![]() Desenho EXCLUSIVO de Flavio Colin para o Universo HQ |
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