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Online desde: 05/01/2000 |
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UHQ: Em sua última visita ao Brasil, em 1999, o Sr. afirmou ser mais bem-vindo aqui que nos Estados Unidos. Qual sua opinião sobre os quadrinhos no Brasil?
Como americano, eu gostaria de saber algo sobre o Brasil. Eu queria que os artistas brasileiros me falassem algo sobre a favela. Eu não sabia sobre favelas até vir para cá. É algo muito importante. Por que ninguém escreveu sobre isso? Eles estão com vergonha? Eu não sei... Com certeza, deve haver um cartunista brasileiro que saiba o suficiente sobre elas para me contar. Então, os artistas brasileiros são o equivalente a qualquer um, em qualquer país do mundo. O problema é que eles não têm nada nos dizer, a não ser: "Estamos conversando entre nós".
Eisner: Eu gostei muito. A edição ficou muito bonita. UHQ: O Sr. gostou do resultado final do documentário Will Eisner - Profissão Cartunista (nota do UHQ: realizado pela Produtora Scriptorium e a STV - TV Senac)? Eisner: Eu adorei este documentário. Marisa (Furtado) e Paulo (Serran) (nota do UHQ: os responsáveis pela Scriptorium) fizeram um trabalho belíssimo. Para mim, foi muito importante receber uma homenagem tão significativa. UHQ: Muitos artistas foram inspirados por seus trabalhos. Quando entrevistamos Neil Gaiman, ele nos disse que é um grande fã seu. Além disso, o Sr. empresta seu nome para o maior prêmio de quadrinhos no mundo (nota do UHQ: O Eisner Award). Qual a sensação de ser uma "lenda viva" dos quadrinhos, uma referência para os artistas atuais?
UHQ: Como foi a experiência de adaptar obras clássicas, como Don Quixote, A Princesa e o Sapo e Moby Dick (nota do UHQ: publicados no Brasil pela Cia. das Letras)? Eisner: Isso foi uma coisa muito interessante, quase acidental. A televisão pública dos Estados Unidos me convidou para ajudá-los a desenvolver programas que ajudassem na alfabetização. Isso foi há uns oito anos.
Infelizmente, havia dinheiro suficiente para fazer um piloto, mas não para uma série inteira. Tínhamos, então, seis histórias desenvolvidas na forma de storyboard. Sempre quis fazer adaptações de grandes clássicos. Mas eu queria acrescentar algo, fazer um comentário. Em Don Quixote, por exemplo, eu pretendia fazer uma história filosófica e, ao mesmo tempo, manter o conceito original. Então, no final Don Quixote está morrendo e Miguel de Cervantes vem até ele como escritor e diz: "Eu escrevi sobre você e vou te tornar um cavaleiro. Vou te sagrar cavaleiro", e assim o faz. Somos todos Don Quixotes nesse ramo. Então, é uma história sobre mim. UHQ: Qual a sua opinião sobre os quadrinhos japoneses que têm invadido o mercado ultimamente?
O trabalho que vi no Japão é lindamente executado. Gen Pés Descalços é uma história bela e forte. Não surpreende que o mangá tenha tanto sucesso no Japão, porque eles estão escrevendo num idioma nacional. A língua japonesa é ideográfica. Por isso, não é surpreendente que eles achem a arte seqüencial tão atrativa. UHQ: O que o Sr. acha dos quadrinhos na Internet? Eisner: A internet não é nada mais do que um veículo de transmissão. Quadrinhos na Internet logo se tornarão filmes animados. A forma impressa irá continuar. UHQ: O Sr. nunca pensou em emprestar seu talento para o cinema? Eisner: Não me interesso pelo cinema. Estou mais interessado pelo teatro, do que pelo cinema. É um meio completamente diferente para mim. Não tenho desejo de trabalhar com cinema, prefiro a forma impressa, porque, em primeiro lugar, é tudo meu. Eu não tenho que me preocupar se o câmera é bom, porque eu sou o câmera. Não tenho que me preocupar com o cinegrafista, por que eu sou o cinegrafista. Eu sou o diretor, eu sou o ator. Quando a Warner Bros. fez um filme do Spirit, disseram que, se eu não aceitasse o contrato, eles não fariam o filme. Eu disse: "Tudo bem. Posso passar o resto de minha vida sem um filme. Não preciso disso." E eles finalmente fizeram o filme, mas não realizaram um bom trabalho. Foi um fracasso! UHQ: Se fosse ser realizado um filme do Spirit hoje em dia, que ator o Sr. gostaria de ver interpretando o personagem? Eisner: Não sei. Originalmente, eu pensei em James Gardner, o ator que interpretava Maverick (nota do UHQ: um seriado televisivo da década de 70, que teve um remake no cinema nos anos 1990, no qual o personagem principal foi vivido por Mel Gibson e, como forma de homenagear o antigo ator, Gardner interpretou o seu pai). Quando criei o Spirit, usei o estereótipo do que os americanos consideravam heróico. Uma mandíbula forte, nariz curto, olhos azuis e um corpo grande. Nós lidamos com estereótipos nessa indústria. UHQ: O Sr. sempre trabalhou com seus próprios roteiros. Se tivesse que trabalhar com o roteiro de um outro autor, quem seria? Eisner: Eu não faria. A única forma de eu fazer algo assim são com clássicos, como (Miguel de) Cervantes ou (Herman) Melville (nota do UHQ: o autor de Moby Dick). Com adaptações. Não poderia trabalhar com um autor, pois não conseguiria trabalhar com o script de outra pessoa. Ele me mataria, eu destruiria seu trabalho. (Risos) UHQ: Como é sua rotina de trabalho atualmente? quantas horas por dia o Sr. dedica aos quadrinhos? Eisner: Eu trabalho na mesma velocidade e da mesma forma que sempre trabalhei: das 8h30min às 17h. Produzo uma página por dia. Lápis, arte-final e letras. Escrever, no entanto, é um processo separado. A forma como eu trabalho é a seguinte: primeiro, eu visualizo a história, começo tendo o fim na minha cabeça. Ou se há um incidente sobre o qual quero fazer uma história. Faço o final primeiro, sento e escrevo.
UHQ: Não é desgastante trabalhar com uma carga emocional tão grande? Eisner: Sim e não. É um trabalho duro, porque não posso fazer o que é mais fácil primeiro. Eu faço os desenhos e apago, até conseguir o que quero. Sou como um diretor lidando com um ator num palco. É cansativo, porque tudo que faço exige que eu pense muito primeiro. Boa parte desse pensamento é executado durante o estágio de "boneco". Faço primeiro um "boneco" do trabalho a lápis, que uso para vender o livro às editoras. Mando cópias para umas seis companhias diferentes, no Brasil, na França e nos Estados Unidos. É legível, mas os personagens são rascunhos. Não faço um lápis muito definido por duas razões. Primeiro porque é perda de tempo; e segundo, porque gosto de manter a ação e, se trabalho com um lápis mais solto, sou obrigado a fazer o meu desenho com o pincel. É a minha forma de trabalhar.
Eisner: Sou um pesquisador desleixado. Distraio-me com facilidade. Se vou à biblioteca para pesquisar sobre um carro, começo a olhar uns livros e, de repente, já são 5h e não encontrei o carro, mas li um livro sobre corridas. Além disso, eu tenho uma boa memória visual e trabalho com impressionismo. Se você for um dia a Nova York, depois de ler meu livro sobre a cidade, vai reconhecer lugares, embora eu não os faça em detalhes. Você sabe que há degraus na frente de um prédio, mas não sabe quantos. Não me dou ao trabalho de contá-los. Apenas digo que há degraus em frente ao prédio. UHQ: Em nome dos leitores do Universo HQ, obrigado pela atenção e pela paciência. Eisner: Obrigado a vocês. Foi uma ótima entrevista. * A equipe do Universo HQ agradece a força dada por Laílson Cavalcanti para a realização desta entrevista.
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