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Online desde: 05/01/2000       
Última atualização: 11/05/08       

Interview
 
Interview: Neil Gaiman

O autor que resgatou o
Sonho nos quadrinhos

Neil Gaiman, o roteirista britânico que conduziu o personagem Sandman do limbo ao estrelato, transformando-o completamente, esteve no Brasil em maio, a convite da Conrad Editora. O Universo HQ esteve com ele numa ENTREVISTA EXCLUSIVA, na qual o autor falou sobre suas obras, seus projetos, ídolos, artistas com quem gostaria de trabalhar e muito mais! De quebra, aproveitou para "detonar" Todd McFarlane

Por Equipe UHQ

Neil Gaiman
Neil Gaiman, o roteirista que transformou Sandman num enorme sucesso
22 de maio de 2001. Uma terça-feira cinzenta em São Paulo. Depois de semanas de muita ansiedade, os editores do Universo HQ estão prestes a partir para o hotel onde Neil Gaiman (clique aqui para saber mais sobre o autor) está hospedado, para uma entrevista exclusiva com o autor. No entanto, pouco antes de saírem, recebem a notícia que isso não seria possível, por problemas de agenda com outros órgãos de imprensa!

E agora? O que fazer? Desistir e deixar nossos leitores na mão? Negativo! Chegamos ao hotel pouco antes do almoço que aconteceria e, como não tínhamos outra opção, não tivemos dúvida: entrevistamos Neil Gaiman no seu quarto, graças à compreensão e ao apoio do pessoal da Conrad Editora (valeu, Cassius!). Um esforço que, você vai ver, valeu a pena!

Nesse bate-papo, Neil Richard Gaiman (pouca gente conhece seu nome completo) falou de sua relação com Sandman, seus métodos de trabalho, a pesquisa que fazia para escrever os roteiros etc. Também contou detalhes sobre o filme da Morte e disse que faz questão de manter distância de uma possível versão de Lorde Morpheus para as telonas (você vai entender a razão já, já).

Gaiman revelou ainda o que há de verdade sobre o seu contato com Joe Quesada e, conseqüentemente, com a Marvel. Sobre a confusão que envolve os direitos de Miracleman e Angela (a caçadora de Spawns que ele criou para a revista do Soldado do Inferno), o roteirista "rasgou o verbo" para definir o que pensa sobre Todd McFarlane.

Ele falou ainda sobre seus artistas prediletos, seu próximo livro (American Gods) e até falou de sua expectativa para Dark Knight Strikes Again, a continuação da obra-prima Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller.

Ao fim de nossa conversa com Neil Gaiman, apenas ratificamos algo que já sabíamos: o quanto ele é atencioso com seu público. Bem, mas isso você também vai saber agora, curtindo a entrevista!

Universo HQ: O você lia quando criança?

The Lion, The Witch and The Wardrobe
Quando criança, Gaiman ficou fascinado pelo livro The Lion, The Witch and The Wardrobe.
Neil Gaiman: O primeiro livro que lembro de ter lido, que pode não ter sido o primeiro na verdade, era sobre pequenas e solitárias sereias que nadavam por aí. Lembro também de vários quadrinhos ingleses estranhos com animais engraçados e que, por razões que esqueci, adoravam geléias de frutas. Havia geléia em todos os lugares no final da história. Bem, mas eu tinha 3 ou 4 anos.

O primeiro livro que lembro realmente ter adorado, como um autor, era um que vi quando tinha 6 anos. Descobri a série de livros Narnia, de C. S. Lewis. Sua história The Lion, The Witch and the Wardrobe, foi muito mal adaptada para a televisão em 1955 ou 1956, mas assisti a um episódio, fui para casa e pedi para meu pai comprar The Lion, The Witch and the Wardrobe. Então, no meu sétimo aniversário, em 1967, ganhei toda a coleção, com os sete livros. Eu os li várias vezes. Essa é a primeira coisa que lembro ter lido e ficado viciado quando criança.


UHQ: Seu primeiro trabalho publicado foi Violent Cases?

Gaiman: Em quadrinhos, sim! Foi Violent Cases.

UHQ: Você tem materiais anteriores a Violent Cases como escritor?

Gaiman: Sim, sim. Eu tenho Ghastly Beyond Belief, que é um livro que fiz com um escritor chamado Kim Newman, sobre citações dos piores livros e filmes de ficção científica e terror. Há também uma biografia de um grupo de Rock and Roll sobre o qual eu não falo. Ok, ok... era uma biografia sobre Duran Duran. Me pagaram 2000 libras. Você sabe, eu tinha fome, precisava comer. (risos)

Eles disseram: "Você quer escrever sobre Barry Manilow, Def Lepard ou Duran Duran?". E eu escolhi Duran Duran, porque eles tinham feito menos coisas. Então, deduzi que seria um livro menor para escrever! (risos)


The Sandman
Sandman, o Mestre dos Sonhos
UHQ: Sandman é hoje um "mito" dos quadrinhos. Como você se sente como seu criador?

Gaiman: É difícil colocar isso em palavras. Uma vez, perguntaram ao George Harrison sobre os Beatles. Ele disse apenas: "Veja, você tem que lembrar que sou uma das únicas quatro pessoas em todo o mundo que não tem idéia do que os Beatles fizeram ou do que acontecia com eles, porque nunca ligávamos o rádio para ver se tinha um novo disco do grupo, nunca procurávamos saber o que estavam fazendo, qual era a capa do novo álbum. Éramos as únicas quatro pessoas da década de 1960 para quem os Beatles não existiam".

De muitas maneiras, sou a única pessoa de todo o mundo dos quadrinhos para quem Sandman não existia. Todos os outros, queriam saber o que estava acontecendo, o que estava planejando, o que viria a seguir. Enquanto eu me preocupava com coisa do tipo "Ok... meu Deus, eles colocaram o balão no quadrinho errado" ou "Onde está a capa?".

Sandman #50
Capa de Sandman #50
Assim, nunca aconteceu de eu me sentar durante a criação de Sandman e dizer: "Veja, estou criando um mito para o fim do Século Vinte". Ao invés disso, eu falava: "Meu Deus, tenho quatro edições para essa história, e apenas três para chegar em Sandman #49, porque o número 50 é aquele que Craig Russell já está desenhando. Como vou terminar Vidas Breves? O que terei que omitir?".

Era uma preocupação diária com a mecânica da coisa. Acho que American Gods, meu novo romance, possui características mitológicas, assim como Sandman. Se Sandman foi uma mitologia para o fim do século 20, American Gods tenta criar uma para o século 21. Olhando com a perspectiva de já ter terminado o livro, na hora em que o estava fazendo, tudo que queria saber era para onde o personagem ia a seguir, e como terminar uma frase e saber o que aconteceria a partir dali.


UHQ: Em 1988, quando Karen Berger o convidou para assumir um personagem da DC, Sandman não era a primeira opção. Quais eram seus preferidos e o que pretendia fazer com eles? Uma reformulação tão radical como a realizada em Sandman?

Gaiman: Inicialmente, eu estava apenas procurando uma maneira de fazer bem os personagens da DC. Ela me perguntou quem eu gostaria de escrever, e eu disse que minha escolha número um seria o Vingador Fantasma. Eu adoro a idéia do personagem. Alguém que não tem sua própria história, mas que entra nas histórias de outras pessoas. De muitas maneiras, emocionalmente, algumas coisas que eu teria feito no Vingador Fantasma acabaram sendo usadas em Sandman.

UHQ: Você ainda quer fazer algo com ele? Ou perdeu o interesse?

Gaiman: É difícil. Não é que eu perdi o interesse. Há um script que nunca foi usado de Sandman #24. Nas primeiras cinco páginas dessa edição, eu escrevi originalmente uma versão onde Sandman está voando de volta do inferno e acaba encontrando o Vingador Fantasma. Eles ficam lá, parados, e têm uma conversa sobre o que está para acontecer, dizendo coisas misteriosas que só têm algum significado para eles mesmos. Não funcionou muito bem, porque Sandman e o Vingador Fantasma são muito parecidos. Quando tinha uma página e meia disso, eu pensei como aquilo estava bobo, e cortei tudo.

Assim, suponho que, ao longo desses anos, provavelmente já tenha feito em Sandman tudo que queria ter feito com o Vingador Fantasma.

Acho engraçado olhar para trás e ver as razões que a DC me deu para eu não fazer o Vingador Fantasma. A razão dada foi que ele "não era heróico o suficiente". (risos de incredulidade)

Eles disseram que não poderíamos fazer uma revista mensal com o Vingador Fantasma, pois ele não era "herói o suficiente". Aí, me pediram para escolher outro.


UHQ: Isso não era estranho?

Gaiman: Naquela época, em 1987, 1988, fazia bastante sentido. Então, eu sugeri Etrigan, e eles disseram não, pois Matt Wagner estava o fazendo. Deixa eu ver quem mais sugeri... o Arqueiro Verde. Mas eles deram uma resposta negativa novamente, porque Mike Grell estava trabalhando com o personagem.

Os Perpétuos
Os Perpétuos: Sonho, Delírio, Morte, Desejo, Destruição, Destino e Desespero
UHQ: Quando você começou a escrever Sandman, já tinha toda a família dos Perpétuos ou você os criou à medida que ia fazendo o título?

Gaiman: Acho que pelo menos três deles são citados em Sandman #1. Se não me engano são Desejo, Destino e Morte.

UHQ: E os outros são citados no número 9.

Gaiman: Sim, na edição # 9 todos são citados.

UHQ: Com exceção de Destruição.

Gaiman: Isso, exceto Destruição. E eu acho que Delírio não é citada pelo nome, ela não teve seu nome citado até a edição 21. Mas eu não sabia quem eram todos.

UHQ: Você foi desenvolvendo os conceitos enquanto escrevia?

Gaiman: Isso foi interessante, pois fui conhecendo os personagens com o tempo. Pensava que Delírio seria bem agressiva e brava e, ao invés disso, ela mudou para um tipo mais imprevisível quando finalmente apareceu.

UHQ: Em Sandman, por várias vezes, você lançou informações aos leitores, que só seriam explicadas dezenas de edições à frente. Você tinha tudo em mente, desde o inicio?

Gaiman: Sim. Existem coisas na edição # 71 que não fazem sentido até o número 75, por exemplo. Essa é a diversão em fazer uma série mensal. Criar coisas que só acontecerão com o passar do tempo.

UHQ: Mas não se vê muitos escritores fazendo isso.

Gaiman: Pois é, mas eu não sei porque não fazem isso, pois é como Joe Straczynski fazia com Babylon 5. Ele diz: "Aqui estou eu escrevendo essa série de TV que terá duração de cinco anos. Vou fazer uma história, e coisas acontecerão aqui, e terão sentido ali". Atualmente, ainda se vê seriados, com uma equipe diferente, um novo grupo de roteiristas a cada temporada. Eles jogam tudo que aconteceu na última temporada no lixo e passam por cima do que aconteceu anteriormente.

Existem tantos seriados por aí onde você gostaria que eles soubessem o que estavam fazendo durante todo o tempo.


Neil Gaiman
Neil Gaiman, descontraído, durante a entrevista com o Universo HQ
UHQ: Você fazia muitas pesquisas para Sandman. Isso era um problema, por se tratar de uma série mensal, por causa dos prazos?

Gaiman: O que acontecia é que eu alternava histórias que precisavam de muitas pesquisas com outras que não exigiam. A maioria das minhas pesquisas era sobre fatos históricos, porque fiquei um pouco obcecado em dar os detalhes corretos. Assim, nas histórias sobre a Revolução Francesa e sobre o Imperador Norton (nota do UHQ: Sandman # 29 e 31, respectivamente) era o tipo de coisa que eu queria ter certeza que meus detalhes estavam corretos. Isso valeu também para Homens de Boa Fortuna (nota do UHQ: Sandman # 14) e, você sabe, as histórias com Shakespeare.

Os estudiosos e professores de Shakespeare estão ensinando essas histórias em universidades agora. E uma das razões para isso, é justamente porque os detalhes estavam corretos.

UHQ: Além das inúmeras referências literárias, Sandman tinha também muitas outras visuais. Elas eram propostas por você ou pelos desenhistas?

Gaiman: A maioria delas estavam no script. Ocasionalmente, Mike Dringenberg adicionava alguma coisa, mas a maioria estava no script.

UHQ: A revista Sandman gerou diversas mini-séries além de outros títulos, com personagens criados na série. Você acompanhou algum desses títulos? Gostou do que leu?

Gaiman: Hoje em dia, eu as leio por prazer. Quando me mandaram Lúcifer, eu li porque era divertido. Eu gosto de algumas coisas que foram feitas. O resto, fico feliz em não ser mais consultado. Especialmente, porque ser consultor é uma tarefa muito ingrata. Eles te consultam e dizem: "O que você acha disso?"; e eu respondo: "Eu não faria isso assim". E a resposta é: "Bem, mas vamos fazer desta maneira mesmo".

Sandman - Os Caçadores de Sonhos
Edição nacional de Sandman - Os Caçadores de Sonhos (The Dream Hunters), da Conrad.
UHQ: Certa vez, você disse que gostava muito das edições brasileiras de Sandman (nota do UHQ: publicadas pela Editora Globo) O que achou da edição nacional de Sandman - The Dream Hunters, da Conrad Editora?

Gaiman: Nossa, incrível! Absolutamente incrível! A arte do Amano está linda! Lembro que eu queria um dos desenhos dele feitos para esse álbum para mim, para colocar no meu quarto. Então, ele me deu, e disse que havia um que gostava muito. Foi justamente o que ganhei! (risos)

Ele nos dava várias e várias ilustrações, e dizia para escolhermos quais queríamos para usar em Dream Hunters. Ele chegava com todos aqueles desenhos lindos, mas era difícil escolher um. Daí, eu respondia que queria todos! Ele ficava surpreso, e dizia que a sua editora no Japão nunca tinha feito isso. Eu não dava opinião sobre como deveriam ser os desenhos, ele lia o texto e fazia como achava melhor. Amano fazia tudo muito rápido. Num dia não tinha nada, no outro já tinha terminado um capítulo inteiro.

Definitivamente, gostaria de trabalhar com ele novamente. Ele é brilhante!


UHQ: O que pode ser dito sobre The Endless, a antologia sobre Sandman e seus irmãos?

Gaiman: Eu não sei. Não começarei a escrevê-la até terminar a turnê. Só sei que queremos ter um grupo muito, muito bom de artistas. É um projeto que prometi para a Karen (Berger), a minha editora, que tem sido muito paciente. Ela está esperando por isso há, pelo menos, dois anos. É possível que eu saia da turnê de American Gods e, de repente, as coisas começam a crescer com o script do filme da Morte e ela tenha que esperar mais uns seis meses. Espero que sua paciência continue. Neste meio tempo, conversaremos com vários grandes artistas, pessoas de todo o mundo.

continua

 


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