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Online desde: 05/01/2000       
Última atualização: 21/11/09       

Entrevista
 

Miracleman, escrito por Neil Gaiman
Miracleman #20, escrito por Neil Gaiman
UHQ: Existem muitos rumores dizendo que você teria oferecido a edição # 25 de Miracleman para Joe Quesada publicar pela Marvel. Poderia esclarecer algo sobre isso?

Gaiman: Eu e Joe finalmente conseguimos conversar. O esquisito é que nós soubemos mais sobre o que estava acontecendo através do que estava sendo publicado pela imprensa mantida por fãs. O boato surgiu antes mesmo de conversarmos. O curioso nesse tipo de imprensa, é que sempre estão à frente do que está realmente acontecendo no mundo real.

Essa idéia sobre Miracleman já havia me ocorrido, mas não tenho certeza se Joe havia pensado nisso até de começar a rolar na imprensa. Então, conversamos uns dois minutos antes de ele ir para a Inglaterra e eu vir ao Brasil. E dissemos: "Vamos ver o que podemos fazer".

Quando eu voltar do Brasil e ele voltar da Inglaterra...


UHQ: Existem alguns rumores dizendo que ele foi visto na Inglaterra com você! (risos)

Gaiman: Legal! Adoraria estar lá. É isso que quero dizer sobre Internet. Existe um certo nível de verdade, porque está lá, escrito. São coisas que, se fossem ditas por um bêbado num bar, ou por um garoto gordo que vive em frente a uma comic shop, as pessoas não acreditariam. Mas na internet...

Não sei se é assim no Brasil, mas nos Estados Unidos toda comic shop tem um garoto gordo. Eles não trabalham lá, mas sempre ficam andando em frente à loja e dizem (Neil Gaiman começa a fazer a imitação do garoto):

— "Jo Duffy? Claro! Ele é um grande sujeito. Eu conheço o Jo".
— "Mas Jo é uma mulher!"
— "Ei, o que você está dizendo? Eu conheço Jo Duffy. Ele é um bom sujeito!"

Neil Gaiman
Sempre de bom humor, Neil Gaiman fez imitações durante a entrevista
Esses caras sentam por lá e dizem (a imitação recomeça):

— "Sabe a verdadeira razão de Alan Moore não trabalhar mais para a Marvel? Não tem nada a ver com aquilo que dizem. O motivo é que, você sabe, o presidente da Marvel naquela época estava dormindo com a irmã do Alan Moore".
— "Mas o Alan Moore não tem uma irmã..."
— "Olha, é verdade, cara! Eu ouvi do Jo Duffy, cara! Ele é um bom sujeito!"

Você sempre encontra um idiota que fala alto na frente de uma loja de quadrinhos. Nem sempre são gordos. Mas muitos deles são. Eles ficam por lá e falam alto, como se soubessem tudo, todos os segredos.

Hoje em dia, esses sujeitos estão na Internet também. Você vê apenas as letras, e não sabe quem são. Mas são apenas esses balofos que ficam na frente de comic shops, achando que sabem tudo.


UHQ: Falando em Miracleman, como anda realmente a situação sobre seus direitos autorais? Podemos ter a esperança de ter Miracleman reeditado?

Spawn #9
Capa de Spawn #9, com a primeira aparição de Angela. A edição foi escrita por Neil Gaiman, que criou a personagem, e é um dos motivos da confusão com Todd McFarlane
Gaiman: Está tudo muito confuso. É muito estranho. Todd McFarlane obviamente não é alguém em quem se possa confiar. Todd McFarlane é uma pessoa que promete uma coisa e, assim que se torna conveniente para ele, faz outra. Acho que, olhando para trás, se pudesse viver tudo de novo, faria praticamente tudo igual ao que fiz, mas quando Todd me telefonasse e dissesse: "Ei, vamos movimentar as coisas pelos direitos autorais. Será tudo seu. Vai ser muito legal. Escreva uma edição do Spawn para mim, você pode fazer o que quiser".

Eu responderia: "VAI SE FODER, Todd!", e desligaria o telefone.

Isso tudo é muito triste! Agora, temos esse mundo, onde... McFarlane... as pessoas pensam nele como "o Todd, dos direitos dos criadores". A empresa de Todd McFarlane é a única que não paga royalties aos seus criadores. Os escritores e artistas de Spawn e outras publicações não recebem royalties. Eles dizem o seguinte: "Nós não pagamos royalties. É assim que os outros fazem. Mas você é nosso amigo, gostamos de você e tudo mais. Todd te mandará um cheque. Será um bom dinheiro, melhor do que royalties. Ok?" O que é legal, desde que Todd decida realmente te mandar o cheque. Então, um dia, ele resolve não mandar mais o cheque.

Eu prefiro ter os royalties. Acho que é por isso que os artistas têm lutado, pelos direitos autorais. É disso que se trata. E, nesses dias, existem pessoas como Todd McFarlane, que ganhou poder falando sobre os direitos direitos autorais, e arrasta tudo para trás, como era na década de 1930. E pessoas como Larry Marder (nota do UHQ: diretor executivo da
Image), que estavam lá, no encontro dos criadores, em Northampton, assinando a carta que estabelecia os direitos dos criadores, agora está lá com o McFarlane.

Acho tudo isso triste. Verdadeiramente triste.

UHQ: O que você achou do uso do nome do alter-ego de Miracleman em um personagem de uma história do título Hellspawn?

Gaiman: Eu apenas ouvi falar sobre isso. Acho fascinante...

UHQ: No bom ou no mau sentido?

Neil Gaiman e seu novo livro: American Gods
Neil Gaiman e seu novo livro, American Gods
Gaiman: Não tenho certeza se isso pode ser fascinante no bom sentido (risos).

É apenas mais um exemplo de como Todd quebra uma promessa. Eu ainda tenho as declarações dele por escrito. Ele me deu Miracleman! Ele me mandou todos os filmes de Miracleman e disse: "Bom, pode usar isso". Agora, de repente, ele decidiu: "Você sabe que há dinheiro nisso... Foda-se minha promessa. Se Gaiman quer problemas, ele pode me processar. Olha, eu valho uns 100 milhões de dólares. Eu comprei uma bola de baseball de 3 milhões de dólares".

American Gods
Capa de American Gods
Isso é esquisito. Andei falando com advogados sobre isso, e me disseram: "Você está certo. Você possui todo o material e pode vencer o caso. Ele apelará. Mas, se você ganhar, pode até falir, pois pode gastar facilmente um milhão de dólares nesse caso. McFarlane também pode gastar o mesmo valor. No entanto, no final, Todd não dará a mínima. Ele tem muitos milhões de dólares, enquanto você pode ter que trabalhar pelo resto de sua vida para pagar o caso que venceu."


UHQ: American Gods está sendo aguardado com grande ansiedade pelos fãs. Qual a sua expectativa sobre essa obra?

Gaiman: American Gods foi o primeiro romance em que eu senti que fiz algo tão bom quanto Sandman. Esse foi o primeiro livro que realmente me sentei para escrever sozinho, e fiz isso desde o começo.

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