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Online desde: 05/01/2000       
Última atualização: 21/11/09       

Entrevista
 

UHQ: Como anda o projeto do filme da Morte? Você vai realmente dirigir o filme?

Gaiman: Sim, é verdade. Se acontecer, é verdade.

Neil Gaiman
Neil Gaiman poderá vir a ser o diretor, além de roteirista, do filme baseado na personagem Morte.
UHQ: O projeto já recebeu "luz verde"?

Gaiman: No momento, a "luz" está amarela, mas nós estamos seguindo em frente. Eu entreguei um primeiro script para a Warner e para uma companhia produtora. A Warner leu e adorou; a produtora, leu e odiou. Então, eles demitiram a produtora e estão contratando uma outra companhia, que é bem legal.

Muitas, muitas coisas podem dar errado entre o estágio em que estamos e as filmagens. Por exemplo, eu poderia escrever um script muito bom ou um apenas bom o suficiente. Se o roteiro começar a rodar por Hollywood e alguém como Robert Zemeckis ler, ele pode ligar para a Warner e dizer: "Sabe que eu gostaria muito de dirigir esse filme sobre a Morte?".

De repente, posso me encontrar em um escritório de Hollywood com alguém dizendo "O seu contrato diz que se você não dirigir o filme, teremos que te pagar toda essa grana só pelo script" (nota do UHQ: o contrato com Gaiman é para escrever e dirigir o filme). Isso porque eu estou fazendo pelo preço básico da associação dos escritores, que é muito mais baixo do que cobraria para escrever um filme. Hoje, eu cobraria uns 750 mil dólares por um script, mas estou fazendo por algo entre 25 e 50 mil.

Eles ainda poderiam dizer: "Ei, nós temos boas notícias para você. Aqui está o seu cheque, mas outra pessoa dirigirá o filme". Essas coisas podem acontecer. Isso é Hollywood, o que significa que pode acabar não acontecendo nada. No momento, acho que as estatísticas são de algo em torno de 18 a 30 scripts para cada filme em desenvolvimento. Assim, as chances desses filmes serem produzidos são de 20 para 1.


UHQ: É sabido que o projeto do filme do Sandman anda tão mal que você não quer se envolver com isso. O que exatamente está acontecendo?

Gaiman: Eu nunca quis fazer parte disso. Eu acho que é muito bom não fazer parte disso. Eles começaram com um script de Elliot Rossio, que eu achei bom. Então, eles foram para o script do Roger Avary (nota do UHQ: antigo parceiro de Quentin Tarantino), que eu também gostei.

UHQ: Não era Peter Guber que estava envolvido, quando acabou ficando ruim?

Gaiman: Não. Era Jon Peters (nota do UHQ: um dos produtores, junto com Peter Guber, do filme Batman, de 1989). Ele decidiu fazer o script parecer mais com as coisas que gosta de produzir. Você sabe, lutas e essas coisas. Há pouco tempo me enviaram alguns rascunhos, muito parecidos com aquele ruim. É sempre a mesma coisa. Agora, eles querem um interesse romântico para o Sandman.

Eles querem que o Coríntio seja o vilão. Ele seria como o Sandman, só que mais poderoso. Querem que eles lutem e que o Coríntio ameace seqüestrar a namorada do Sandman. Isso é muito estúpido!


Capa de Neverwhere
Neverwhere, projeto de Neil Gaiman para a rede de TV inglesa BBC.
UHQ: O que aconteceu com Neverwhere (nota do UHQ: uma série que o autor escreveu para a TV inglesa)? Por que não deu certo?

Gaiman: Não deu certo em que sentido? O filme ou...?

UHQ: A série de TV. Não passou aqui no Brasil.

Gaiman: Ah, não passou em vários lugares. A razão é que a BBC filmou em vídeo. Eu ainda não entendi porque eles fizeram isso, mas quando começamos eles nos disseram: "A única regra é que deverá ser filmado em vídeo". Isso deixou o resultado final ruim. Nós filmamos tudo em locações, mas ficou parecendo que estávamos nos cenários do Dr. Who (nota do UHQ: Dr. Who é um famoso personagem de ficção científica inglês, bastante antigo, que teve várias séries na TV, por muitos anos).

Com isso, acho que apenas umas três estações de TV no mundo poderiam comprar a série. A maioria das estações de TV olhava e não queria, justamente porque era em vídeo. Parecia com Dr. Who.

Eu não sei por que a BBC fez isso, numa época em que seriados como Arquivo X são feitos em filme. Teria somado mais uns 50 mil dólares ao custo de cada episódio, eu acho. Mas também significaria que teriam uma venda maior pelo mundo, e obteriam muito mais retorno. A HBO disse: "Nós adoraríamos exibir isso, mas como é em vídeo, não vamos passar".


UHQ: Vamos voltar aos quadrinhos... Certa vez, você já disse que adoraria escrever Batman. Por quê?

Gaiman: Eu adoraria fazer uma história com o Batman, porque ele é tão complexo, um personagem tão flexível. O mais legal sobre Batman é que ele está aí há 60 anos. Nesse tempo, existem cem mil, duzentas mil, trezentas mil histórias ruins com ele, e apenas cem, duzentas ou trezentas boas.

Eu adoro o personagem. Ficaria muito, muito feliz em fazer um projeto com ele. Quase fiz um com Simon Bisley. Assinei contrato com a DC Comics anos atrás, mas nunca chegou a acontecer.


UHQ: Qual sua expectativa para Batman: The Dark Knight Strikes Again?

Gaiman: Eu espero que seja tão boa quanto Frank (Miller) me disse, numa noite em um navio, há um ano. Ele começou a me contar. Ficamos acordados até umas quatro da manhã com ele dizendo o que fará. Eu lhe dei uma idéia, vamos ver se ele vai usá-la.

Cena de Preacher especial
Cena de Preacher Especial - Cassidy: Sangue & Whiskey, lançado no Brasil pela já extinta TEQ/Fractal, onde supostamente aparece Neil Gaiman
UHQ: Em uma edição especial de Cassidy, o vampiro amigo de Jesse Custer, em Preacher, um personagem foi desenhado à sua imagem...

Gaiman: Fiquei puto com isso. Liguei para o Steve Dillon e disse "Steve, amigo, isso era para ser eu? Está tirando um sarro de mim?". E ele disse: "Não, não se parece com você. Eu te conheço há bastante tempo e, se quisesse te desenhar, se pareceria com você". Então, eu pensei... "Hummmm... até que não se parece comigo".

Quero dizer, Steve me conhece há muitos anos e, se quisesse, não faria apenas alguém com óculos escuros e cabelos negros. Ele desenharia alguém que se parecesse mesmo comigo.


UHQ: E como é o seu relacionamento do Garth Ennis?

Gaiman: É bom.

UHQ: Duas perguntas em uma. Qual revista você tem lido recentemente? Quais escritores e desenhistas você admira?

Gaiman: O que estou lendo? A última coisa que li e adorei, pouco antes de sair de casa, foi o livro How to be an Artist, de Eddie Campbell. Todos deveriam ler isso. Não é apenas uma revista muito boa, mas também uma maneira de se entender os quadrinhos. Ver como é a coisa de verdade. Acho Eddie Campbell um gênio.

Sobre quem eu admiro, se Jack Kirby era o Rei dos quadrinhos; e ele era "os músculos", então Will Eisner ainda é o "coração".

Dave Sim, apesar de às vezes eu não ter idéia do porquê de ele estar fazendo o que faz, ainda é um cartunista incrível. Se você vir a última edição com todas aquelas ovelhas... Você viu o último número de Cerebus?


UHQ: Vimos muitas edições, mas essa última ainda não!

Gaiman: O mais recente tem o Cerebus trabalhando em uma fazenda de ovelhas. Ele carrega a ovelha pelos lugares, e as expressões no rosto da ovelha são pura mágica.

Também acho Jeff Smith um gênio. Adoro o trabalho de Charles Vess, e ainda gosto dos Hernandez.

UHQ: O que acha do Mike Mignola?

Gaiman: Ele é um artista muito bom, mas eu nunca o vi da mesma maneira como escritor.

UHQ: Não gosta de Hellboy?

Gaiman: Eu gosto de Hellboy, mas não me chama tanta atenção... Sabe, eu acabo olhando os desenhos, ao invés de "Meu Deus, que belo argumento". Quer dizer, o argumento é sólido, mas ele não é um Alan Moore, não é um Warren Ellis.

UHQ: Na sua opinião, qual a solução para a atual crise no mercado de quadrinhos?

Samir Naliato e Neil Gaiman
Samir Naliato e Neil Gaiman, durante a coletiva de imprensa, no Rio de Janeiro
Gaiman: Opa, essa é fácil! (risos)

Minha única solução para a crise nos quadrinhos é: vou escrever uma boa história, que seres humanos - e não colecionadores - irão ler e gostar. É como eu faço. Isso funcionou para mim por sete anos. Quando eu fiz Sandman #75, as edições estavam esgotando nas lojas, mais que Batman e Super-Homem. Tínhamos 100 mil leitores. Nós conseguimos isso, numa época em que as revistas mais vendidas atingiam a marca de um milhão, porque eram vendidas de "baciada" para crianças ingênuas.

Quando o mercado quebrou, continuamos com 100 mil leitores. Você realmente podia ver, mês após mês, a revista subindo na lista de mais vendidas, com as mesmas vendas. Nunca vendemos com capa diferentes, nunca vendemos com a promessa de seios a mostra. Nós vendemos porque era bom, porque as pessoas queriam ler. A última edição de Sandman foi vendida há cinco anos. Hoje em dia, vendemos tantas graphic novels dele quanto há cinco anos. As edições vendem tanto em livrarias quanto em comic shops. Todo ano, mais de 100 mil graphic novels são vendidas. A revista não é mais publicada e as pessoas ainda a compram, porque é uma boa leitura.

Como eu solucionaria isso? Eu tentaria ter uma diversidade de boas revistas para todas as pessoas. Acho que é muito bom a DC estar fazendo essas revistas com os desenhos animados do Cartoon Network para as crianças. Você tem que ensinar às crianças como ler quadrinhos. De outra maneira, os leitores não surgirão de lugar algum.

Mas acho que devemos dar às pessoas razões para elas continuarem a ler. Não importa quantas vezes o Dr. Octopus morrerá, ele sempre estará de volta. Nada mudará nos quadrinhos de super-heróis. Isso é legal quando se tem 13 anos, e não é preciso que as coisas mudem. Tudo o que você quer é aquele poder da fantasia. Se você estivesse preso no trânsito de São Paulo, diria: "Se eu fosse o Flash, eu já teria chegado!". Isso é tudo o que se quer quando se tem 13 anos. Mas, a partir do momento que se tem 17,18 anos, você passa a querer algo mais. O ponto principal nos quadrinhos é a diversidade.


UHQ: Se você estivesse assistindo a entrega do Harvey Awards na primeira fila e Frank Miller, durante o seu discurso, o chamasse para ajudar a rasgar a Wizard, o que faria?

Gaiman: Nossa! Bem, eu acho que a revista Wizard fez um mal terrível aos quadrinhos. Principalmente porque trabalhamos em algo que é, ou poderia ser, uma forma de arte. Aí, você tem um veículo como a Wizard, que está tentando vender quadrinhos como um item de colecionador com mulheres peitudas na capa para pessoas estúpidas. E você tem vontade de dizer: se ao menos vocês calassem a boca...

UHQ: Por que a Inglaterra não tem um mercado de quadrinhos forte, uma vez que possui grandes talentos que são exportados e desenvolvem produtos para editoras americanas?

A Balada de Halo Jones
A Balada de Halo Jones
Gaiman: Eu não sei. Mas talvez seja até bom, porque se isso tivesse acontecido, não estaríamos trabalhando nos Estados Unidos. Quando eu analiso, vejo que as melhores coisas produzidas nos últimos 30 anos saíram pela 2000 AD. E as piores também! A 2000 AD fez coisas como A Balada de Halo Jones, livro três, foi o pináculo. Nunca mais fizeram nada tão bom quanto isso. Mas as razões para o mercado não ser forte... Honestamente, não sei lhe dizer. Gostaria de poder te dar uma resposta. Acho que parte disso é porque os ingleses não gostam, não confiam e realmente não acreditam em super-heróis. Assim, sempre que escrevemos esses personagens, fazemos de uma perspectiva de uma pessoa que não acredita naquilo.

UHQ: Parece que vocês têm um problema semelhante ao que estamos enfrentando no Brasil.

Capa do encadernado americano de Sandman - Estação das Brumas
Capa da edição encadernada americana de Sandman - Season of the Mists (Estação das Brumas)
Gaiman: Acho que é verdade. A tradição inglesa nos quadrinhos é de revistas baratas semanais. Essa é a tradição. É por isso que a 2000 AD ainda funciona. Fazer com que os ingleses comprem coisas diferentes disso é difícil. Sei que a Titan Books vende 250 mil cópias de uma graphic novel de Sandman (nota do UHQ: as encadernações) na Inglaterra. Isso é muita coisa, e não inclui nada daquilo que vem da DC. Então, obviamente os ingleses estão comprando graphic novels.

Quero dizer, enquanto eu estava escrevendo Sandman, nunca me preocupei quando as pessoas diziam: "Por que não está escrevendo uma revista inglesa?". Dizia que estava, sim! Eu estava escrevendo uma revista na Inglaterra, para uma editora multinacional, a Time-Warner, que existe em todos os lugares. O título era impresso no Canadá e voltava para a Inglaterra. Por que isso é mais importante ou menos válido do que fazê-lo em Northampton, ou no escritório de alguém no East End londrino e ver isso ser impresso na Escócia? Os leitores ainda existem, e ainda estão lendo. Éisso que importa para mim.

UHQ: Qual o seu artista europeu favorito?

Gaiman: O meu favorito, entre todos os artistas europeus, é Moebius. Ele pode fazer mais coisas com menos recursos do que qualquer outro artista que eu conheça.

UHQ: Tem planos de trabalhar com ele?

Gaiman: Eu adoraria. Trabalharia com ele amanhã, se eu pudesse.

UHQ: E sobre sua intenção de trabalhar com o italiano Milo Manara?

Gaiman: Isso foi apenas um exemplo que eu dei durante a coletiva de imprensa, no Rio de Janeiro. Estávamos falando sobre artistas europeus e de outros lugares do mundo que poderiam fazer histórias para The Endless. Quando me perguntaram que tipo de histórias vou escrever, disse que não sabia; e que, no momento, estamos tentando encontrar um artista perfeito para as histórias.

Para mim, o artista perfeito para Desejo seria Milo Manara. Quem mais poderia ser? A melhor coisa sobre ele, é que todos podem ficar vestidos por 20 páginas e ainda assim será a coisa mais sexy que já se leu.

Cena de Princess Mononoke
Cena de Princess Mononoke, desenho animado de longa metragem de Hayao Miyazaki, que foi um grande sucesso no Japão, adaptado para a lingua inglesa por Neil Gaiman.
Assim, Manara seria minha primeira escolha para Desejo. Mas acho que as chances não são muito boas, porque toda vez que eu falo com o seu agente, Rafa, na Espanha, ele diz que Manara faz o que quer. Então, não tenho a menor idéia. Mas seria a minha primeira escolha.


UHQ: Você tem laços fortes com o oriente, como mostram Sandman: Caçadores de Sonhos e a adaptação do desenho animado Princess Mononoke, para citar dois. O que acha do mangá?

Gaiman: Gosto de alguns deles, não como um todo. Mas acho que eles fazem o oposto do que eu quero fazer. A maioria deles tenta reproduzir uma experiência quase cinemática, com a velocidade da leitura. Quando você vê alguém lendo mangá, vapt, vapt, vapt, há uma velocidade na leitura que se opõe ao que eu faço. Eu crio algo que te faz ficar lendo cada página por dez minutos, e então virar para a próxima.

UHQ: Mas você se diverte com eles?

Gaiman: Depende do artista. Há artistas de mangás tão preguiçosos quanto alguns de super-heróis. O traço estilizado de mangá é como traço estilizado de super-heróis. Seus olhos grandes e a ausência de narizes são tão estúpidos quanto os imensos músculos e as bocas que Rob Liefeld desenha, com 40 dentes. Yoshitaka Amano, Katsuhiro Otomo e Hayao Miyazaki, sim, são grandes artistas.

UHQ: Qual sua opinião sobre os quadrinhos na Internet?

Gaiman: Eu acho que quadrinhos na Internet começarão a funcionar bem quando as pessoas não tiverem que ler uma mensagem na tela dizendo "página um carregando, isso levará algum tempo, é melhor você preparar um café". No dia que não tivermos mais essas mensagens, daí sim teremos quadrinhos na Internet.

Quadrinhos são feitos para você sentar e ler. Não algo que se faz quando tem duas horas sobrando e não se tem nada mais pra fazer, e a pessoa vai para um computador e começar a fazer um download.


UHQ: É a sua segunda visita ao Brasil. Quais são suas impressões sobre os fãs locais?

Gaiman: Eu adoro o Brasil! Vocês são mais animados em tudo (risos). Futebol, quadrinhos... Recebi um telefonema, e me disseram "Sr. Gaiman, é do Brasil, e nós te amamos. Queremos fazer o Dia Neil Gaiman, e trazê-lo para o Rio de Janeiro, São Paulo e outros lugares. Teremos uma cerimônia e muito mais". Eu escutei aquilo e achei ótimo! Perguntei quando seria, e me responderam: "Terça- feira"!

Eu disse que não poderia. Aqui, todos dizem:
—"Ei, vamos fazer isso?"
— "Claro! Quando?"
— "Amanhã!"

Acho isso ótimo!


Equipe UHQ e Neil Gaiman
Sérgio Codespoti, Neil Gaiman, Marcelo Naranjo e Sidney Gusman
UHQ: Neil Gaiman, em nome dos leitores do Universo HQ, muito obrigado.

Gaiman: Muito obrigado a vocês! Foi bom revê-los!

* Na revista Herói.com.br # 23, que sairá em junho, você poderá conferir uma reportagem especial de Cassius Medauar, contando a "chata" experiência de ter acompanhado Neil Gaiman durante os cinco dias que ele esteve no Brasil. Vale a pena conferir!

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Desenho e autógrafo de Neil Gaiman para o Universo HQ
 


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