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Online desde: 05/01/2000 |
![]() O mestre das crônicas urbanas Aos 43 anos, o espanhol Miguelanxo Prado é hoje um dos maiores autores dos quadrinhos europeus, graças a histórias onde "brinca", como poucos, com a condição de "ser" humano
Por Samir Naliato e Sidney Gusman
Nascido Miguel Angel Prado, em 5 de dezembro de 1958, reside na mesma cidade em que veio ao mundo: La Coruña, na Galícia, onde, no futebol, hoje reina o brasileiro Djalminha. Para felicidade dos amantes dos bons quadrinhos, abandonou a faculdade de arquitetura, após cursar quatro anos. Ainda bem, pois essa desistência possibilitou a criação de obras maravilhosas, como Fragmentos da Enciclopédia Délfica, Stratos, Crônicas Incongruentes, Quotidiano Delirante (3 tomos), Mundo Cão, Tangências, Traço de Giz e outras.
Sua incrível capacidade criativa lhe valeu muitos prêmios. Manancial da Noite, estrelado pelo detetive Manuel Montano, ganhou o troféu Alph'art de melhor álbum estrangeiro no Festival de Angoulême, em 1991. Traço de Giz, talvez a sua maior obra, recebeu diversas distinções internacionais, entre as quais o Alph'art de melhor álbum estrangeiro do Salão de Angoulême, em 1994 e, no mesmo ano, o Prémio Especial do Júri do Festival de Sierre. Prado ainda ganhou prêmios em outros salões especializados, como Porto, Treviso e Barcelona. Em 1997, com o álbum Tangências, foi indicado para o Eisner Award, na categoria de melhor pintor.
Universo HQ: O você lia quando criança? Miguelanxo Prado: Não lia quadrinhos especificamente. Eu tinha revistas de quadrinhos, como quase todas as crianças, mas não havia uma relação muito especial. As crianças que gostam de quadrinhos têm personagens favoritos, se fantasiam como eles, tentam imitá-los etc. Eu não. Eu tinha e lia, mas não existia essa relação. Descobri realmente os quadrinhos com 20 ou 21 anos. Eu já estudava na escola de arquitetura. Foi uma descoberta muito tardia.
Miguelanxo: Eu tenho uma formação auto-didática. Meu pai sempre foi um amante da plástica, da pintura, do desenho... Ele gostava de desenhar aos domingos, quando tinha um pouco de tempo. Isso não era muito habitual na Espanha da década de 1960. A situação não era boa e nossa família era de classe média - o que, naquela época, significava muito baixa! Mesmo assim, era comum irmos a exposições e coisas do tipo. Eu cresci nesse mundo, acompanhava meu pai em inaugurações e aberturas de exposições. Quando podia, comprava livros de arte. Me apaixonei por isso. Para mim, desenhar e pintar era uma coisa muito natural. Mas jamais pensei que se poderia viver disso. Não imaginava que alguma pessoa em todo o mundo vivesse disso. Para mim, desenhar era como ir à praia: você vai, toma banho de sol e de mar, mas ninguém cobra por isso! (Risos)
Os quadrinhos eram uma atividade quase marginal dentro do que eu fazia. Comecei a fazer algumas ilustrações, e descobri os quadrinhos através de um colega belga, que me mostrou algumas revistas do Moebius, (Enki) Bilal, Hugo Pratt etc. Para mim, foi a possibilidade de misturar as minhas duas paixões: escrever e desenhar! UHQ: Como foi seu início de carreira? Onde publicou seus primeiros trabalhos? Em que ano isso aconteceu?
Eu não tinha idéia de como entrar em contato com o mundo das publicações. Então, peguei as três histórias e coloquei em uma pasta. Soube que as revistas eram editadas em Barcelona. Aí, peguei um trem e fui pra lá, onde comecei a procurar as editoras. Na primeira que achei, mostrei meu trabalho. Daquelas três histórias, a Toutain Editora comprou duas. Uma (nota do UHQ: intitulada Mar de Tinieblas), editaram imediatamente, publicando em uma revista chamada Creepy, que mostrava histórias americanas da Warren. A outra que comprou, não chegaram a editar. UHQ: Está inédita até hoje?
Depois, fiz propostas para fazer algumas histórias para números especiais da revista, como de fim de ano. Essas coisas! Fiz duas nesse esquema. Daí, fiz a proposta de uma história longa, uma série. Foi assim que saiu Fragmentos da Enciclopédia Délfica (nota do UHQ: esta história saiu primeiro em capítulos, de 1982 a 1984, na revista Cómix Internacional. O álbum foi lançado em 1984)! UHQ: De que forma a existência de revistas como El Víbora, Cimoc e Cairo contribuiu para o surgimento de grandes nomes dos quadrinhos espanhóis?
Mas essas revistas foram fundamentais para todos de minha geração. Foi onde conseguimos espaço para publicar. Foi onde aprendemos a contar histórias em quadrinhos. Lá que víamos tudo, erros e acertos! |
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