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Online desde: 05/01/2000       
Última atualização: 07/11/09       

Entrevista
 

UHQ: Quais são suas maiorias influências nos quadrinhos?

Miguelanxo Prado
Miguelanxo Prado em ação
Miguelanxo: Eu cheguei muito tarde aos quadrinhos. O Moebius é um caso a parte. Eu sempre digo que há duas raças de desenhistas: os divinos e os heróis. Nós, que lutamos ali, com o papel, com o desenho, em um trabalho quase titânico e, finalmente, somos capazes de fazer uma tremenda obra, somos os heróis (nota do UHQ: definitivamente, Miguelanxo Prado é muito modesto, pois nós - e milhares de leitores do planeta - o colocamos no time dos divinos).

Do outro lado, estão os divinos. Eles não sofrem. Você vê o Moebius desenhar... É com uma facilidade incrível.

Poder apreciar os trabalhos do Moebius, Pratt, Bilal, Schuitten - todos que estavam inovando os quadrinhos europeus - foi importante para ver por onde eu podia achar meu caminho. Mas não tive uma influência direta. Eu já vivia do que pintava e desenhava... Ah, o Muñoz (nota do UHQ: o argentino Jose Muñoz). Aprendi muito com ele, toda a linguagem, todas as capacidades expressivas.

Tinham influências no nível literário. O jeito de contar histórias, como os autores sul-americanos, os escritores de romance. Depois, tinha gente que eu admirava profundamente nos quadrinhos, mas que não foram influências diretas, mas de quem aprendi a linguagem.


UHQ: Em que países seus trabalhos já foram publicados? É muito gratificante ter fãs espalhados em vários pontos do planeta? Qual o país onde você tem mais fãs?

Edição finlandesa de Traço de Giz
Edição finlandesa de Traço de Giz
Miguelanxo: Uns 14 ou 15 países. Países como Turquia e Coréia, que eu nem sabia que tinham quadrinhos. Também a Finlândia, toda a Europa, os Estados Unidos, América Latina - com distribuição das editoras espanholas - e no Brasil, com a Editora Meribérica.

Eu respeito muito o mundo dos fãs, mas não me sinto cômodo com o assédio (risos). De algum jeito, compreendo. Quando você quer jogar um jogo, tem que aceitar suas regras. No mundo dos quadrinhos estão os festivais, as promoções, as entrevistas etc.

Eu faço, e acho que não faço mal (risos). Não me sinto cômodo, mas aceito!


UHQ: O seu traço sofreu uma mudança significativa desde os seus primeiros trabalhos. Em Fragmentos da Enciclopédia Délfica, por exemplo, você fazia um desenho mais "acadêmico"; e hoje prefere "deformar" um pouco mais seus personagens. Por que isso aconteceu? Como ocorreu este processo de mudança?

Edição alemã de Fragmentos da Enciclopédia Délfica
Edição alemã de Fragmentos da Enciclopédia Délfica
Miguelanxo: Isso não é uma conseqüência, não é uma evolução. Para mim, cada livro é muito diferente do outro. Então, tento adaptar o estilo visual à história que estou contando. Se conto algo como Mundo Cão, que é um pouco surrealista, não posso desenhar academicamente. Se conto uma história poética, não posso desenhar do mesmo jeito que faço com naves no espaço. Admiro as pessoas que têm um estilo próprio, mas eu preciso mudar e me adaptar.

UHQ: Os álbuns Fragmentos da Enciclopédia Délfica e Stratos trazem trabalhos do início de sua carreira e ambos são em preto e branco. Depois, você passou a produzir mais trabalhos coloridos. Por quê? Qual estilo você prefere?

Miguelanxo: O colorido é uma possibilidade expressiva a mais. Então, renunciar à cor é renunciar a uma parte da expressividade que se pode ter. Mas, certamente, o desenho, o desenho puro, é em preto e branco.

Eu acho que a Enciclopédia Délfica poderia ter sido colorida. Mas o Stratos não!


UHQ: Na série de álbuns Quotidiano Delirante, você ridiculariza os seres humanos através de um humor "ferino". Por que decidiu seguir esta linha?

Quotidiano Delirante, tomo 1
Quotidiano Delirante, Tomo 1
Miguelanxo: Eu não decidi. Quando fiz Mundo Cão, pensei que estava fazendo uma coisa séria. Então, recebi um telefonema de um editor na Espanha falando que tinha gostado da história, que tinha um humor fino e ironia, e me disse que eu devia fazer algo mais nesse estilo.

Aí, comecei a fazer aquilo que tinha mais perto de mim, com meus amigos!


UHQ: Já que você falou de Mundo Cão (publicada no Brasil pela Editora Abril, na série graphic novel, em 1991), nesta história o personagem principal sofre com o excesso de cocôs de cachorro pelas ruas. Aquilo foi uma experiência verídica?

Miguelanxo: Sim, sim! A história dos cães aconteceu comigo mesmo! Eu não cheguei a ser atacado, mas foi quase! Eu caminhava pela rua na Espanha, e ficavam uns seis ou oito cães com seus donos. Eles ficavam conversando, enquanto os cachorros faziam as porcarias no chão.

Mundo Cão
Mundo Cão,
publicado pela Editora Abril em 1991
Eu cheguei e tentei falar com eles, mas um cara começou a brigar comigo, dizendo que pagava seus impostos, e o cão, quando viu isso, começou a rosnar! Aí, fui me afastando (risos)! O final que propus também é possível.


UHQ: A versatilidade é algo marcante no seu trabalho. No álbum Tangências (todo sobre complicados relacionamentos amorosos) é impossível não se identificar com algumas daquelas histórias de romances proibidos. De onde veio a inspiração para aquela obra?

Miguelanxo: Eu passava algum tempo vendo tudo que acontecia à minha volta, com meus amigos, as pessoas mais próximas. Todas elas dessa "classe social"... escritores, artistas, personalidades da TV. Era a década de 1980, o tempo da pós-modernidade, e a gente falava das importâncias das coisas. E entre todas as coisas que falavam, existia uma tendência imensa ao fracasso.

Vendo todas essas histórias, eles sacrificavam a vida sentimental, ao procurar o sucesso profissional. Não são histórias de amor, são histórias de desamor. Por isso o nome Tangências. Eles se encontram, mas acabam se separando novamente.


UHQ: Em Traço de Giz (uma obra magnífica sobre uma ilha perdida no meio do oceano, que, na verdade, está perdida no tempo), se o leitor não estiver atento desde o início, com certeza, não entenderá o final da história. Isso chegou a acontecer? Esta foi uma das mais criativas viagens no tempo já vistas nos quadrinhos. Parabéns!

Traço de Giz
Traço de Giz
Miguelanxo: Eu acho que o leitor sempre pode entender uma história. Pode ser a maneira errada de entender, mas ela tem princípio e o final. Pode achar um pouco estranha, mas entendeu algo, à sua própria maneira. Se for a mesma que quisemos passar, ótimo. Há outras hipóteses que você pode reparar para entender de uma maneira diferente.

Tem gente que chega pra mim e diz que gostou muito de Traço de Giz, mas que não entendeu muito bem, achou um pouco esquisito. Uma vez, eu estava dando autógrafos em um festival, e uma mulher que estava há duas horas na fila chegou até mim e começou a falar que leu umas 10 vezes Traço de Giz, e que achava ter finalmente entendido.

Finalmente, ela tira um caderno do bolso, onde fez várias anotações! Fez tabelas cronológicas de como as coisas poderiam ter acontecido! Tinha rabiscos etc. Ela me explicou a história toda e aí eu falei que ela entendeu bem (risos)!


 


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