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Online desde: 05/01/2000 |
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UHQ: Quais são suas maiorias influências nos quadrinhos?
Do outro lado, estão os divinos. Eles não sofrem. Você vê o Moebius desenhar... É com uma facilidade incrível. Poder apreciar os trabalhos do Moebius, Pratt, Bilal, Schuitten - todos que estavam inovando os quadrinhos europeus - foi importante para ver por onde eu podia achar meu caminho. Mas não tive uma influência direta. Eu já vivia do que pintava e desenhava... Ah, o Muñoz (nota do UHQ: o argentino Jose Muñoz). Aprendi muito com ele, toda a linguagem, todas as capacidades expressivas. Tinham influências no nível literário. O jeito de contar histórias, como os autores sul-americanos, os escritores de romance. Depois, tinha gente que eu admirava profundamente nos quadrinhos, mas que não foram influências diretas, mas de quem aprendi a linguagem. UHQ: Em que países seus trabalhos já foram publicados? É muito gratificante ter fãs espalhados em vários pontos do planeta? Qual o país onde você tem mais fãs?
Eu respeito muito o mundo dos fãs, mas não me sinto cômodo com o assédio (risos). De algum jeito, compreendo. Quando você quer jogar um jogo, tem que aceitar suas regras. No mundo dos quadrinhos estão os festivais, as promoções, as entrevistas etc. Eu faço, e acho que não faço mal (risos). Não me sinto cômodo, mas aceito! UHQ: O seu traço sofreu uma mudança significativa desde os seus primeiros trabalhos. Em Fragmentos da Enciclopédia Délfica, por exemplo, você fazia um desenho mais "acadêmico"; e hoje prefere "deformar" um pouco mais seus personagens. Por que isso aconteceu? Como ocorreu este processo de mudança?
UHQ: Os álbuns Fragmentos da Enciclopédia Délfica e Stratos trazem trabalhos do início de sua carreira e ambos são em preto e branco. Depois, você passou a produzir mais trabalhos coloridos. Por quê? Qual estilo você prefere? Miguelanxo: O colorido é uma possibilidade expressiva a mais. Então, renunciar à cor é renunciar a uma parte da expressividade que se pode ter. Mas, certamente, o desenho, o desenho puro, é em preto e branco. Eu acho que a Enciclopédia Délfica poderia ter sido colorida. Mas o Stratos não! UHQ: Na série de álbuns Quotidiano Delirante, você ridiculariza os seres humanos através de um humor "ferino". Por que decidiu seguir esta linha?
Aí, comecei a fazer aquilo que tinha mais perto de mim, com meus amigos! UHQ: Já que você falou de Mundo Cão (publicada no Brasil pela Editora Abril, na série graphic novel, em 1991), nesta história o personagem principal sofre com o excesso de cocôs de cachorro pelas ruas. Aquilo foi uma experiência verídica? Miguelanxo: Sim, sim! A história dos cães aconteceu comigo mesmo! Eu não cheguei a ser atacado, mas foi quase! Eu caminhava pela rua na Espanha, e ficavam uns seis ou oito cães com seus donos. Eles ficavam conversando, enquanto os cachorros faziam as porcarias no chão.
UHQ: A versatilidade é algo marcante no seu trabalho. No álbum Tangências (todo sobre complicados relacionamentos amorosos) é impossível não se identificar com algumas daquelas histórias de romances proibidos. De onde veio a inspiração para aquela obra? Miguelanxo: Eu passava algum tempo vendo tudo que acontecia à minha volta, com meus amigos, as pessoas mais próximas. Todas elas dessa "classe social"... escritores, artistas, personalidades da TV. Era a década de 1980, o tempo da pós-modernidade, e a gente falava das importâncias das coisas. E entre todas as coisas que falavam, existia uma tendência imensa ao fracasso. Vendo todas essas histórias, eles sacrificavam a vida sentimental, ao procurar o sucesso profissional. Não são histórias de amor, são histórias de desamor. Por isso o nome Tangências. Eles se encontram, mas acabam se separando novamente. UHQ: Em Traço de Giz (uma obra magnífica sobre uma ilha perdida no meio do oceano, que, na verdade, está perdida no tempo), se o leitor não estiver atento desde o início, com certeza, não entenderá o final da história. Isso chegou a acontecer? Esta foi uma das mais criativas viagens no tempo já vistas nos quadrinhos. Parabéns!
Tem gente que chega pra mim e diz que gostou muito de Traço de Giz, mas que não entendeu muito bem, achou um pouco esquisito. Uma vez, eu estava dando autógrafos em um festival, e uma mulher que estava há duas horas na fila chegou até mim e começou a falar que leu umas 10 vezes Traço de Giz, e que achava ter finalmente entendido. Finalmente, ela tira um caderno do bolso, onde fez várias anotações! Fez tabelas cronológicas de como as coisas poderiam ter acontecido! Tinha rabiscos etc. Ela me explicou a história toda e aí eu falei que ela entendeu bem (risos)! |
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