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Online desde: 05/01/2000 |
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UHQ: Como chamava seu primeiro fanzine?
Lourenço: Infelizmente, acompanho pouca coisa atual. Naquela época, acho que lia tudo. Uma coisa que, para mim, era muito especial era Tintin. Eu consegui fazer uma coleção, depois ganhei outra completa. Não tenho mais nenhuma das duas! Até tinha um deles, o Charutos do Faraó, que eu não li, porque eu queria um dia ter a sensação de ler algo inédito do personagem. Como nunca mais ia sair nada, eu guardava aquela pra ler. Tintin é uma coisa meio sagrada! Quando o conheci, era muito garoto; e sempre que leio, volto naquela mesma freqüência. É um mundo totalmente ficcional, uma coisa legal, algo que me desliga totalmente de coisas ruins e difíceis. Talvez o melhor momento da minha infância tenha sido ler o Tintin. UHQ: Era a HQ que você mais curtia? Lourenço: Não sei se era o que eu mais curtia, mas é o que tinha uma relação mais profunda comigo. Eu gostava de muita coisa. Nunca fui muito ligado é nesse universo de heróis, por razões próprias, muito pessoais. Eu sempre achei uma coisa muito paternal... O cara tem um problema e o pai ajuda. Meu pai nunca ia me ajudar; ele tava sempre do lado dos outros! Então, não me atraía muito. Nessa época, eu gostava de ler Druillet, Torpedo e qualquer coisa do Muñoz e Sampayo. UHQ: Você sempre teve um estilo muito particular de desenhar. Algum artista o influenciou? Quais são seus ídolos nos quadrinhos? Lourenço: Tenho muitos ídolos, mas nenhum que eu falasse "vou fazer igual a ele". Eu me influenciava por Tintin, Crumb, pelo underground americano, Muñoz - a arte-final que mais admiro. Sempre que vou começar uma história, eu folheio um álbum do Príncipe Valente, do Hal Foster. Não pra tentar copiar qualquer coisa, mas pra não esquecer do profundo respeito que preciso ter com os quadrinhos. A elegância que aquilo tem, e o respeito com que é feito... Eu tento nunca me desviar disso. No começo de minha carreira, eu não conseguia fazer meu traço. É por isso eu fico meio incomodado em ganhar prêmio de melhor desenhista, porque eu não desenho como quero; eu desenho como consigo. É verdade! Eu não defini: "meu estilo vai ser esse!". Não! Eu só consigo desenhar desse jeito. É uma coisa que nem sei se gosto muito, mas é o único jeito que sei fazer. UHQ: Como foi o mal-entendido com Will Eisner? É verdade que você se desfez de todos os materiais dele? Lourenço: É verdade. Eu amava o Will Eisner. Ele era o cara que fez a primeira historia que me tocou de uma forma sentimental, a do Gerhard Shnobble (nota do UHQ: um clássico dos quadrinhos, sobre um homem que podia voar, numa aventura do Spirit). Se bem que, depois eu descobri que ela foi escrita pelo Jules Pfeiffer, sem créditos, mas não importa. O Will Eisner pra mim era um mito, um monstro, que sempre foi vanguarda, sem querer ser. Durante muito tempo, ele foi um cara que me norteou. Aí, teve a 3ª Bienal de Quadrinhos, em Belo Horizonte, onde ele falou que o papel ia acabar. No meu álbum Seqüelas, que é meio ruim (nota do UHQ: nós discordamos em gênero, número e grau do entrevistado!), eu começo com uma brincadeira "Jingle Bell, Jingle Bell" porque eu estava muito irritado com essa história de tecnologia, todo mundo falando que o papel ia acabar. Eu não sei se quero viver num mundo sem papel. Talvez eu até me adapte, brinco um pouco com o photoshop. Mas acho que se o Will Eisner, uma lenda viva, um talento indescritível, resiste a largar o papel; ele vai ter uma chance maior de sobreviver. Era uma palestra que tinha, sei lá, umas quinhentas, mil pessoas, num lugar muito grande. Estava até o prefeito, e já te já intimidava, porque o microfone era lá na frente; você tinha que atravessar a multidão pra fazer a pergunta. Então, ele mostrou pra gente o que seria a saída dos quadrinhos, o tal do Moby Dick, não em quadrinhos, mas uma coisa em vídeo, que lembrava aqueles desenhos da Marvel, do Hulk, mas não chegava nem naquilo! O desenho era parado. O cara falava "sinto cheiro de encrenca", e aparecia um narizinho e fungava. Metade das pessoas dormiu, o restante não achava posição nas cadeiras. Eu achei que não era quadrinhos, não era cinema, não era videogame, não era nada! Então, eu levantei pra fazer uma pergunta. Ainda falei, "com todo respeito que sinto pelo mestre, o senhor não achava que deveria resistir mais a essa tendência de tecnologia, em vez de largar os quadrinhos que fazia tão bem?". Ele respondeu de forma estúpida: "Você é muito pequeno! Não tente resistir, ou vai ser atropelado".
UHQ: Quais os artistas brasileiros que você admira? Lourenço: Tem muitos. Acho que o Brasil tem muita gente boa, em diferentes estilos. Uma pessoa que está meio esquecida, principalmente em São Paulo, que eu admiro demais é o (Flávio) Colin. Além de ser uma figura simples, é um cara talentoso demais. As pessoas não percebem o potencial dele. Também gosto muito do Jô de Oliveira. Ai tem várias gerações e tipos. O Ota tem alguns trabalhos que eu acho muito engraçados, e outras coisas ruins... O Laerte é um cara que eu admirava bastante no começo. Tinha histórias incríveis, tipo A insustentável leveza do ser, mas parece que, depois, ele foi pegando o caminho do mais fácil, foi deixando de fazer aquilo que eu pretendo nunca deixar: respeitar os quadrinhos. Eu gostava do Mosquil, que nem é brasileiro (Nota do UHQ: um desenhista argentino que publicou na extinta revista Porrada! Special, da Editora Vidente, na década de 90). Aquele cara era uma efervescência. Ele voltou pra cidade dele e nunca mais falei com ele. O Luis Gê é maravilhoso, o próprio Angeli é bom, o Adão vem crescendo... Tem muita gente, mesmo. |
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