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Online desde: 05/01/2000 |
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UHQ: Devido ao seu traço detalhado, você nunca conseguiu manter uma produção regular de seus trabalhos. Quanto tempo, em média, você leva para fazer uma página?
Lourenço: Na verdade, hoje estou percebendo que não é que o odeio, mas tenho uma profunda dificuldade de lidar com ele, de ocupar bem esse espaço. O Rei do Ponto foi o primeiro trabalho em que consegui me relacionar um pouco melhor com o branco. Acho que, na música, ele seria o silêncio, a pausa. UHQ: Seu trabalho é mais voltado ao preto e branco. Você curte fazer histórias coloridas? Lourenço: Eu fiz várias! As que eu fiz pra Cybercomix, muita gente pensa que é por computador. Tem coisas que as pessoas não sabem, como o fato de eu ter trabalhado dois anos no Mauricio de Sousa, pintando cenários de animação. Então, eu tenho uma agilidade com tinta. Só não curto muito, porque é muito fácil pra mim. Como não existe branco, você simplifica tudo com um chapado, com uma texturinha... Facilita muito, e eu não gosto disso. Nesse momento de nosso bate-papo, agradabilíssimo, Lourenço nos mostrou um trabalho que produziu para a Cybercomix, mas que não foi utilizado, no qual revela toda sua versatilidade. São histórias do Pato Camaleão, assinadas por Zigmundo Mussarela (uma "entidade" que ele "recebe por trás"), de um teor agressivo e sarcástico. Nessas pranchas, ele reproduz à perfeição os traços de várias feras das HQs, como Chester Gould (Dick Tracy), Hal Foster (Príncipe Valente), Julio Salinas (Cisco Kid), Hugo Pratt (Corto Maltese), Art Spiegelman (Maus), Charles Schulz (Snoopy), Hergé (Tintin), Alberto Breccia (Mort Cinder), e dos brasileiros Angeli, Fernando Gonzalez, Marcatti e Jô de Oliveira. Ou seja, ele desenha em estilos completamente diversos; em preto e branco e colorido; com desenhos limpos e rebuscados. Como o próprio Lourenço diz, os roteiros não devem ser levados a sério, mas o resultado final do visual das páginas é espantoso, apesar dos personagens principais de cada artista terem recebido bicos de pato! Agora, de volta à entrevista! UHQ: Fale um pouco sobre Transubstanciação (nota do UHQ: seu primeiro trabalho "de autor", publicado em 1991, pela Dealer Editora). Onde você publicou antes do lançamento dessa obra? Lourenço: Eu comecei a trabalhar nele para lançar pela editora do Marcatti, a Pro-C. Iam ser mil exemplares. Por isso, fiz a historia que queria, não me prendi a nada. Nessa época, surgiu o Carlos, da Editora Dealer, que se interessou e lançou. Depois, ele sumiu, tentei achá-lo um tempo atrás, mas não consegui. Antes, eu tinha publicado em fanzines, na Animal e muita coisa na Tralha e na Porrada! UHQ: Na época, o Transubstanciação vendeu muito bem, não é? Lourenço: Verdade! Transubstanciação vendeu 13 mil exemplares em um mês. Nunca mais eu vendi isso, nem juntando todos os álbuns. Teve muita repercussão quando saiu, vendeu pra caramba! Depois, recebi até prêmio, na Bienal do Rio. UHQ: Por causa de seu traço deformado, você recebeu muitas negativas, no início da carreira? Lourenço: Depois que saiu Transubstanciação é que eu descobri isso. Vinham os repórteres e perguntavam por que o traço era deformado, eu ficava meio ofendido, porque, na época, era hiper-realista. Eu tinha uma distorção visual, sei lá. Eu via as coisas daquele jeito. Hoje, eu percebo que existe uma deformidade, mas antes eu não enxergava isso. Não era proposital! É que eu não desenhava muito bem (risos) ou, talvez, eu visse as coisas de uma forma um pouco diferente.
Lourenço: Foi demais! Fizeram uma exposição, onde cada artista um tinha uma sala. Quando entrei na minha, tive que sair! Não fui macho, até perdi o fôlego! Tirei até fotos! Eles ampliaram meus desenhos maiores do que eu, na parede, com retroprojetor. Quis até conhecer as pessoas que fizeram aquilo. Uma página que eu tenho, toda manuscrita, que eu levei um tempão pra fazer, eles fizeram do tamanho de uma parede! Me trataram como se eu fosse um príncipe. Universo HQ: E os leitores lá curtiram seu trabalho? Lourenço: A grande maioria não conhecia meu trabalho. Alguns jornalistas já tinham me visto na Animal. Ganhei quatro estrelas na avaliação de um jornal... Eu estava com medo, porque eles são extremamente críticos, mas está vendendo. Não como o Angeli, que publica tiras e tem até um desenho animado veiculado por lá, mas está indo. É um mercado incrível, as pessoas têm acesso aos quadrinhos com facilidade, principalmente, os álbuns europeus. |
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