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Online desde: 05/01/2000       
Última atualização: 17/02/12       

Entrevista
 

UHQ: Existem planos de publicar seus álbuns em outros países?

Lourenço: O próximo passo vai ser a Espanha. A Devir está preparando o lançamento para esse ano ou o próximo.

UHQ: Por que você saiu do projeto Machado de Assis em quadrinhos (Nota do UHQ: uma revista que adaptaria para as HQs 4 contos do escritor, mas que ainda não saiu por falta de patrocínio)?

Lourenço Mutarelli
Lourenço Mutarelli criando uma
ilustração exclusiva para o Universo HQ
Lourenço: Na verdade, há dois anos, eu apresentei um projeto idêntico para o Itaú Cultural: quadrinizar alguns contos do Machado de Assis. Eu até especifiquei quais, mas não foi aprovado e voltou. Depois, surgiu esse cara (o jornalista Marcelo de Andrade) me procurando. Era interessante, mas achei um desafio monstruoso, porque fazer quadrinhos, pelo menos para mim, não é só ilustrar um texto. Você precisa transformar, traduzir de uma linguagem para outra. Não é só pegar o texto e jogar no balão. Ia ser um desafio grande, do jeito que eu gosto. Mas aconteceram algumas divergências, coisas que não batem com minha índole e meus princípios, e eu preferi sair.

UHQ: Em O Dobro de Cinco e O Rei do Ponto, há várias referências visuais à cidade de São Paulo. Você faz muita pesquisa para os seus trabalho? Como você executa esse trabalho? Leva muito tempo?

Lourenço: Eu vejo, vou ao local e desenho. Às vezes, leva um dia inteiro. Só fico muito chateado, com algumas coisas que acontecem. Outro dia, eu queria desenhar a estação de trem, na região do Brás, e me mandaram embora. Disseram que eu não podia tirar fotos. Aí, falei: "mas não estou fotografando, estou desenhando". Vieram seguranças e ameaçaram me tirar o desenho. Eu teria que pedir autorização, me deram um telefone, pra onde liguei umas seiscentas vezes e ninguém atende. O número existe, mas devem ter guardado o telefone dentro duma gaveta.

Queria muito desenhar o Brás. Mas não permitem, nem no metrô, nem na parte ferroviária. A Estação da Luz, também tentei e não deixaram. Isso me deixa muito revoltado. Ai, a saída é desenhar lugares semelhantes, mas não é o que eu queria.


UHQ: Você não usa fotografias?

Lourenço: Às vezes. Outras vezes misturo. Mas eu gosto mesmo é de desenhar o objeto, o cenário. Talvez eu tenha adquirido isso na faculdade, desenho de observação. Como no caso do trator, de O Dobro de Cinco, por exemplo. Aqui na esquina de casa tinha um trator muito legal, que sempre me chamava atenção. Um dia, pedi pra desenhá-lo. Eles estavam de mudança, mas depois que viram o primeiro esboço que eu fiz, deixaram! Fiquei umas seis horas em pé, apoiado numa prancheta de madeira, só "rabiscando".

UHQ: Depois de O Rei do Ponto, os leitores estão aflitos para saber como terminará a saga de Diomedes (nota do UHQ: um detetive particular que é o principal personagem da história). Você pode nos adiantar algo sobre o desfecho da trama (A Soma de Tudo)? Que diabos ele irá fazer em Portugal? :o)

Lourenço: Isso foi a coisa mais absurda, porque eu tinha que fechar dois álbuns e apareceu a viagem, em outubro de 2000. Não podia perder essa oportunidade! Chegando lá, Lisboa tem algumas palavras chaves, duas muito fortes: magia e saudade. E tem mais algumas como maçonaria, sociedades secretas... Pensei: "Dá pra amarrar"!

A idéia de concluir a trilogia numa aventura em Portugal pintou lá. Quando eu viajei, faltavam as ultimas dez páginas do Rei do Ponto pra entregar. Eu voltei, concluí o trabalho e comecei a escrever. Eu acho que está legal. O único problema é que percebi que daria pra fazer um quarto volume, mas eu não vou fazer isso. Vou fechar nesse álbum!

A Soma de Tudo - página EXCLUSIVA - clique para ampliar
Página INÉDITA do álbum A Soma de Tudo, EXCLUSIVA do UHQ
Mas já resolvi que vou continuar com o Diomedes. Pretendo fazer álbuns com aventuras independentes da trilogia, algo meio Tintin, mesmo. Contar algumas aventuras. Está cada vez mais fácil trabalhar com o Diomedes. Ele é quase como... não um amigo, pois eu não teria um amigo como ele; mas um cara que eu conheço bem. Eu pretendo esgotar um pouco mais o Diomedes. Não quero me desligar dele tão cedo.

Sobre os mistérios dos outros álbuns, o que eu posso falar? Bom, sobre o Enigmo, é resolvido e não é (risos), entende? O Diomedes acha que concluiu o caso, mas ele não é muito bom pra solucionar as coisas. Então, eu vou deixar uma pista pro leitor, vai ter duas soluções, duas possibilidades. O caso do assassino que usa veneno de rato, isso vai aparecer como um tapa, tão rápido que o leitor vai pensar "mas era isso?".


UHQ: Aliás, por que títulos tão emblemáticos? Você disse que eles dizem mais do que aparentam. Isso será revelado no terceiro álbum?

Lourenço: O significado de cada título é revelado nos próprios álbuns. O Rei do Ponto é um nome estúpido, banal; O Dobro de Cinco, claro que é dez, mas ambos significam algo, ligado ou ao mundo místico, mesmo. A Soma de Tudo é uma das últimas palavras usadas no próximo livro.Vai ser explicado nele mesmo.

Nos romances policiais que eu lia quando era adolescente, sempre tinha algo do tipo "A loira fatal", ou "O caso da lata vazia", uns nomes meio chulés, né? O que eu acho muito legal são esses livros "O mistério de não sei o que lá". Nos álbuns independentes da trilogia, os nomes vão ser nessa linha, "O caso de...:", "O mistério de...".

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