Universo HQ   Quadrinhos Cinema email uhq@universohq.com boletim UHQ Loja   Universo HQ

Online desde: 05/01/2000       
Última atualização: 28/05/12       

Entrevista
 

UHQ: Seus dois últimos trabalhos demonstram uma incrível maturidade, com destaque para o roteiro, muito bem construído e amarrado. Fale um pouco sobre esse seu processo de amadurecimento.

Lourenço: Aí tem umas coisas que tenho pensado muito. A primeira é a seguinte, quando falei pro Douglas (Quinta Reis, um dos sócios da Devir), que queria fazer um álbum de quadrinhos, eu estava fazendo ilustrações de RPG, que eu nem gosto muito, mas era meu ganha-pão e eu devo agradecer por isso. Ele disse para eu fazer como hobby, de finais de semana, que depois eles editavam. Por isso, pensei em fazer uma história que eu estivesse com vontade de ler. Eu estava sentindo falta nos quadrinhos de uma seqüência de ação, de alguma trama meio romance policial. Resolvi fazer algo mais ou menos assim.

Marcelo Naranjo, Lourenço Mutarelli e Sidney Gusman Da esquerda para a direita:
Marcelo Naranjo, Lourenço Mutarelli e Sidney Gusman
Outra coisa fundamental, é que comecei a respeitar o que eu chamo de métrica dos quadrinhos, a divisão de número de quadros por página tem muito pouca variação, e isso é fundamental pra leitura. Eu não estava dando atenção a esse aspecto, que ajuda muito a narrar a história, a fazer a pessoa "entrar" na história. Na trilogia, eu trabalhei dentro dessa métrica.

Teve um lance engraçado, em Curitiba, quando eu fui lançar o livro. Um cara estava muito incomodado de comprar um álbum meu, pois era fã de super-herói e nunca tinha gostado do meu trabalho. Ele ganhou O Dobro de Cinco e, com muita dificuldade, admitiu pra mim que curtiu. Depois, foi comprar O Rei do Ponto e, só de folhear, gostou mais ainda. Aí, me perguntou: "Você está ficando comercial? É por isso que estou gostando do seu trabalho?".


Eu respondi que não estava ficando "comercial", até porque havia acabado recusar um convite para quadrinizar a vida de uma determinada pessoa, que me renderia uma boa grana. Mas o que percebi, sem querer, é que, antes, minhas histórias tinham dificuldade pra conseguir entrar no mercado, porque era difícil classificar o que é aquilo, principalmente em quadrinhos. Não é humor, não é erótico, não é terror, não é aventura, não é infantil...

Acredito que, quando eu fiz um romance policial, ficou mais fácil me julgar. Se eu sei ou não sei escrever uma história, porque estou escrevendo um gênero que já existe. Talvez seja mais ou menos por aí, porque, apesar do que todos dizem dos meus outros trabalhos, eu também não gosto muito. Alguns até me envergonham, mas creio que, de um jeito ou de outro, eu sempre contei uma história.


As pessoas achavam que era pura e meramente biografia, mas não era. É que o personagem falava em primeira pessoa. Eu nunca tive um pai que tinha quatro braços, trabalhando no circo, nunca matei ele, nem nada. Mas as pessoas acham que aquilo era a verdade pura, talvez porque o personagem era tão autentico, que parecia que era minha vida, sei lá...

UHQ: Suas obras são permeadas de citações literárias e visuais. Você lê muito? Quais suas fontes de referência?

Lourenço: Eu leio. Não como gostaria, porque, às vezes, quando estou lendo, me sinto culpado por não estar produzindo. Mas, pelo menos, uns quatro ou cinco livros por ano, fora o quanto eu pesquiso. Eu leio livros de psicologia e psiquiatria, para me ajudar a estruturar personagens e entender mais ou menos os mecanismos humanos. Leio muito o dicionário de símbolos, uma coisa incrível.

Eu tenho uma coisa legal. Se eu pegar um livro, sei lá, "Dona Benta", e estiver escrevendo uma história sobre alguma coisa, vou achar alguma referência. Eu tenho uma sintonia incrível! Se pegar uma bula de remédio, um negócio de igreja evangélica, sempre acho um elemento. Eu tenho uma coisa meia paranóica, de gostar muito de ler enciclopédia, pegar um termo qualquer, ver com que se relaciona e vou indo. Talvez pelo cansaço de ler, chega uma hora em que me da a impressão de que tudo deriva de um mesmo assunto, que tudo está amarrado.


Uma vez, comprei um livro do Anatole France, O Manequim de Vime, numa banquinha, por R$ 1,00. Aí, descobri que o autor tem esse nome porque a família dele tem origem na Anatólia, que é onde ficava o ponto, a região do Rei do Ponto. No fim do livro, ele fala sobre a irmã de Mitridates, que tinha uma arcada dentária dupla, tipo um tubarão; conta como Mitridates morreu etc. Foi uma coincidência! Peguei algo pra ler caí no assunto de meus álbuns. Isso acontece bastante comigo.

UHQ: Você é um dos autores nacionais mais premiados dos últimos tempos, conseguindo uma quase unanimidade de público e crítica. Isso aumenta a "cobrança" a cada nova história produzida?

Lourenço: Quando eu estou trabalhando, não penso nos leitores, não penso em prêmio, não penso em nada. Eu me ligo naquilo e trabalho. A minha cobrança com o meu trabalho é muito forte, sou bastante duro e exigente comigo. Os prêmios não me dizem muito, sinceramente. Tem um ou outro mais importante, como o da 1ª Bienal de Quadrinhos e o HQ Mix que eu ganhei como roteirista, que eu ganhei por roteiro, por Seqüelas (nota do UHQ: Lourenço não gosta muito do seu texto nesse álbum). Os de desenho, às vezes, acho meio injusto. É bom ser premiado, mas eu não tenho muita vaidade.

UHQ: Numa entrevista recente, você mesmo diz achar seus trabalhos do início da década de 90 muito "pesados e agressivos". Isso estava diretamente ligado com o seu sofrimento com a psicose maníaco-depressiva (nota do UHQ: doença mais conhecida como Síndrome do Pânico)?

Lourenço: Tinha muito a ver. Não só com isso, mas uma série de problemas que eu tinha, a dificuldade que eu estava vivendo, que tinha passado a vida inteira. Era meramente terapêutico, um jeito de drenar. Desgraçados é um livro que eu me envergonho, eu não queria reeditar, acho ofensivo. É minha fase heavy metal, uma coisa meio juvenil, que o pessoal vai e grita, tira as calças, tentando sei lá o que...

Página de abertura do álbum A Soma de Tudo - clique para ampliar
Página de abertura (INÉDITA) do álbum A Soma de Tudo, EXCLUSIVIDADE do Universo HQ
UHQ: Como os quadrinhos te ajudaram a combater essa doença, Lourenço?

Lourenço: Ajudaram muito. Os quadrinhos salvaram minha vida! Eu tinha dificuldade de me relacionar, de me expressar. O quadrinho fez com que eu me relacionasse, me casasse, com que eu tivesse um filho. O quadrinho foi fundamental!

UHQ: Nos seus trabalhos você costuma inserir pessoas do seu convívio como personagens. Além de Lucimar, sua esposa, que foi tema de um de seus álbuns, quem mais já apareceu?

Lourenço: O Glauco (Mattoso, escritor), o Gambero, o Zoião... Geralmente, os vilões são baseados em pessoas que gosto muito e posso brincar com isso. Teve uma época que todo personagem que eu desenhava tinha a minha cara. Colocava uma barbinha e pronto. Aí, comecei a pegar pessoas próximas, fazer uma caricatura da alma, do lado negro de cada amigo.

UHQ: E essas experiências pessoais te ajudaram na elaboração de roteiros?

Lourenço: Sim, porque você começa a pensar atenção na postura, como aquela pessoa é diferente. Quando eu era bem moleque, eu lia Snoopy, do (Charles) Schulz,. Você pode observar, não tem um balão errado. O Linus é sempre o Linus; cada um é cada um. Eles têm uma personalidade bem estruturada e definida. Eu também tento fazer isso, não criar estereótipos, fazer com que os personagens oscilem um pouco. Acho que prestar atenção nessas diferenças entre as pessoas, ajuda a construir um roteiro melhor.

volta | continua

 


|| QUADRINHOS | CINEMA | E-MAIL | BOLETIM | LOJA | PUBLICIDADE ||

© 2001, Universo HQ