![]() |
![]() |
|
![]() |
| Notícias HQ | Cinema | Colunas | Matérias | Entrevistas | Reviews | Checklist | Charges 11/05/08 |
![]() |
Alguns logos criados
pela Comicraft: ![]()
![]()
![]() ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
|
![]() Richard Starkings, o homem das letras nos quadrinhos Fundador da empresa Comicraft - a maior dos Estados Unidos e pioneira na prestação de serviços de letreiramento por computador -, ele é, antes de tudo, um apaixonado por quadrinhos; e suas letras já deram vozes a muitos personagens, como Homem-Aranha, Capitão América, Batman, Quarteto Fantástico, Wolverine, Super-Homem, X-Men, Battle Chasers e Spawn
Por Cristiano Seixas
Suas letras já deram vozes a muitos personagens, entre eles Homem-Aranha, Capitão América, Batman, Quarteto Fantástico, Wolverine, Super-Homem, X-Men, Battle Chasers e Spawn. Mas sua paixão aos quadrinhos vai além de letreirar. Ainda no início da carreira, criou a tira Hedge Backwards e, ano passado, lançou um projeto próprio pela Comicraft, o detetive hipopótamo Hip Flask, comemorando os 10 anos do estúdio. E é sobre tudo isso e muito mais que Starkings fala nesta entrevista. Uma ótima oportunidade para os leitores verem como acontece uma etapa importante da criação de uma HQ, e que, muitas vezes, passa despercebida. Confira agora uma entrevista exclusiva com Richard Starkings, concedida a Cristiano Seixas (diretor do Bigjack Studio e da Casa dos Quadrinhos Escola de Artes Visuais), durante a San Diego Comic-Con Internation, a maior convenção de quadrinhos dos Estados Unidos, e que o Universo HQ traz até você.
Richard Starkings: Nunca fui a nenhuma escola desse tipo, e não me considero necessariamente um designer de fontes e tipos. Rótulos como 'criador de tipos', 'letrista' ou mesmo 'designer gráfico' acabam restringindo. Meu cartão de visitas está escrito 'Presidente e Primeiro Tigre' ou então 'Regente Supremo & Ditador Vitalício', descrições que peguei da tira do Calvin e Haroldo. Uma grande amiga minha, Winifred Morice, gosta de se referir como "Entusiasta" e eu invariavelmente me descrevo da mesma forma. Sou um entusiasta quando se refere a letras e tipos gráficos, e espero passar isso no meu trabalho. Fui criado numa casa onde jogos como Scrabble eram acontecimentos diários. Quando minha mãe chegava do trabalho, ela relaxava jogando palavras-cruzadas. Nos longos vôos que fazíamos para o Mediterrâneo, nas férias, eu e minha irmã éramos encorajados a criar o maior número possível de palavras dentro de uma outra como... "Mediterranean" e você chegava a diversas opções (rain, train, terrain, drain, main, mean, date, rate, chega!). Meus irmãos mais velhos gostavam de mexer com matemática e o mundo das letras me levava para longe dos números, com os quais não podia competir. Nunca me dei muito bem com meus professores, pois eles tinham a expectativa de que eu seguisse os passos dos meus irmãos. Na adolescência só respeitava minha professora de inglês, Rosie Adams, que vestia suéteres justos e jogava O Guia do Caronista das Galáxias com a gente nos intervalos.
Minha apresentação final foi um curta-metragem chamado Paradox, e fui o roteirista, desenhista do storyboard, diretor, câmera, designer gráfico e ainda um dos atores! É feio de se ver hoje em dia, mas aprendi muito fazendo uma história ter vida. A maioria dos meus amigos da faculdade sofreram com língua inglesa para poder passar para Estudo das Mídias ou vice-versa. Para mim, o curso foi perfeito, como se tivesse sido feito para atender a todos os meus interesses. UHQ: O que você fazia antes de ficar criando tipologias e design gráfico para quadrinhos? Starkings: Atuar no mercado de quadrinhos sempre foi meu objetivo, e todos os trabalhos que peguei depois da formatura eram ligados à área editorial. Meu plano era desenvolver habilidades nesse mercado, para me levar até o mundo dos quadrinhos na primeira oportunidade. Comecei na aprovação de provas de fotolitos para o National Computing Centre em Manchester, Inglaterra, e aí passei para editor assistente, para um editor de material de medicina em Londres. De noite, eu me debruçava sobre minhas letras manuais, o que virou num trabalho não pago para uma editora independente chamada Harrier Comics.
A primeira revista da Marvel na qual trabalhei foi Spider-Man Comics Weekly, que reimprimia histórias antigas do Homem-Aranha, vindas dos Estados Unidos. Eu era responsável pelo design da capa, seção de cartas, competições, perfis de personagens e anúncios de assinatura. Também cuidava das correções nas letras dos balões para o inglês britânico (como colour/color, favor/favour etc). Amarrado a um prazo semanal, foi uma grande experiência, nada como o atraso na entrega de quadrinhos britânicos para aprender a ser rápido, eficiente e o mais adiantado possível. UHQ: Você realmente fazia muitas letras à mão? Starkings: Centenas e mais centenas de páginas. Eu trabalhava nos escritórios da Marvel de 8h às 17h30min, e ia pra casa com ao menos cinco páginas de roteiro para colocar letras à noite. Trabalhei em Transformers, Zoids e Doctor Who para a Marvel; e também Judge Dredd, Strontium Dog, Halo Jones e Robô Hunter para a 2000AD. Consegui uma reputação boa o bastante para artistas como Alan Davis e Brian Bolland confiarem em mim para os trabalhos que estavam produzindo para a DC Comics, em Nova York. É meio irônico ter trabalhado para a Marvel Comics de dia e para a DC de noite! Não tive oportunidade de trabalhar para a Marvel americana até ficar amigo do Greg Wright, que foi como editor lá. Quando mudei de Londres para Nova York, em 1989, já fazia as letras de várias revistas como S.H.I.E.L.D, Robocop e Deathlok; e minisséries do Capitão América.
Starkings: Quando me mudei para os Estados Unidos, vi que o pique de produção era assustador. Editores corriqueiramente já esperavam de 14 a 22 páginas letreiradas de um dia para outro. A demanda pela quantidade levou à busca da qualidade. Com prazos cravados, acontecia de, nas raras ocasiões em que o volume de serviço era irreal, editores abarrotados e assistentes de arte serem descuidados com trabalhos dos quais eu sentia orgulho. Quando me mudei para Los Angeles, no ano seguinte, conheci o Macintosh na Graphitti Designs, uma pequena empresa especializada em produtos relacionados a quadrinhos (camisetas, edições limitadas, bonés etc). Comecei a aprender sozinho os programas de editoração, como o Quark Express, e depois um amigo me ensinou como trabalhar com o Illustrator e o Fontographer. Mesmo fazendo letras para a Vertigo/DC e para a Marvel americana, eu quase não acompanhava os quadrinhos mais comerciais, desde que tinha ido para Nova York em 1989, mas acabei vendo o letreiramento por computador do John Byrne numa revista do Namor.
Daquele momento em diante, fiquei uma manhã por semana durante seis meses digitalizando minha letra à mão no Fontographer. No final do verão de 1992, estava criando fontes para duas revistas mensais da Marvel: Sleepwalker e Hellstorm, ambas no computador. Ajudado pelo meu assistente, John "JG" Roshell, que tinha acabado de se formar na UCLA, procurava avançar a arte das letras nos quadrinhos junto à revolução constante que as cores e o processo de impressão estava causando na área. A Electronic Lettering Composition (ou ELC, como nos referimos) não apenas garante que as letras sejam reproduzidas na mais alta definição possível, mas assegura aos profissionais da área a chance de controlar a cor em títulos, onomatopéias, formas de balões e recordatórios. A ELC garante um refinamento que a caneta e o nanquim não conseguem, mas longe do perfeccionismo técnico e estilístico de um calígrafo ou a impessoalidade de um normógrafo, e sim para a flexibilidade de um designer gráfico, um papel com o qual me sinto muito confortável. Agora o nome Comicraft. Bem, em 1991 estava trabalhando meio período para a Graphitti Designs, em Anaheim, e divindindo um quarto em Venice Beach com o colega inglês Griff Rowlands. Ele era (e ainda é) um carpinteiro, e seu cartão tinha o slogan "Proudcraft". Um ano depois, quando JG e eu estávamos montando a empresa no meu antigo apartamento em Santa Monica, ele me perguntou como deveria atender ao telefone, e aí me lembrei do antigo colega de quarto e sugeri: "Comicraft". Isso ficou e não saiu mais.
Starkings: Atualmente, o processo da Comicraft de letras por computador funciona assim: 1) Depois das páginas arte-finalizadas aprovadas terem sido digitalizadas em alta resolução, os arquivos são enviados para a empresa que fará as cores digitalmente. 2) O departamento de produção faz cópias em baixa definição dessas imagens e envia à Comicraft, via modem de banda larga; 3) A Comicraft coloca cada página digitalizada num documento de Illustrator. Uma vez posicionadas, ssas imagens servirão para marcar o posicionamento para as letras, da mesma forma que fazíamos com o xerox da arte e colocávamos um acetato ou outra forma de overlay como o papel vegetal. 4) O letrista da Comicraft vai, então, transferir o diálogo, onomatopéias, recordatórios e títulos indicados pelo escritor sempre de olho nos personagens (como o Tocha Humana, do Quarteto Fantástico) que devem ter efeitos especiais nas "vozes". Isto é criado por um formato especial de balão ou uma fonte criada especificamente. No caminho de letreirar uma página, a Comicraft pode utilizar entre uma e quinze fontes diferentes, a maioria terá design ou meu ou do JG, às vezes, com sugestões dos artistas ou dos escritores ou dos editores e, em outras oportunidadse, de todos eles. 5) Depois que a página está completa, a Comicraft faz um arquivo Acrobat em pdf e envia por e-mail para nossos clientes para aprovação. 6) Depois que o cliente indica as correções e de elas terem sido feitas, a Comicraft envia o arquivo para o fotolito, que junta digitalmente com as imagens em alta resolução para a saída do filme.
Starkings: Acredito que o segredo do sucesso da Comicraft é nossa flexibilidade e versatilidade. Há dez anos, quando a Marvel e a DC queriam as letras em seus quadrinhos, tinham que escolher entre sete ou oito artistas com estilos bem limitados. Eu nunca me contentei em letreirar uma revista sempre com os mesmos tipos. Ainda hoje, alguns artistas vêem o trabalho por computador como os inimigos da personalidade, mas, na verdade, é um instrumento libertador. Graças à imaginação dos programadores que criaram programas como o Illustrator e Fontographer, somos capazes de dar a cada revista seu estilo próprio e único. Recentemente, fizemos uma série de fontes baseadas na escrita à mão dos artistas que criaram as revistas em si. Naturalmente, apenas o ritmo e a pressão dada a cada traço, e a colocação de cada vírgula e ponto digitalizados e transformados em fonte, poderiam dar realmente o clima e ritmo do trabalho deles. UHQ: Você se sente numa posição confortável para conversar com programadores de software e passar algumas dicas e necessidades que possam melhorar estes programas? Starkings: Nós temos um acordo com a Adobe, no qual enviamos nossas fontes disponíveis comercialmente para eles fazerem beta-teste; e eles nos mandam um cópia beta do Illustrator para fazermos nossa avaliação.
Starkings: Nos Estados Unidos, a busca por um sucesso garantido leva a uma homogeneidade pela qual você pode ir numa mesma loja de conveniência de um lado a outro do país. Ir a cadeias de hotéis exatamente iguais em qualquer ponto da nação e ligar a TV e ver reprises de M*A*S*H e I Love Lucy a qualquer hora do dia. Percorrendo a mesma distância de Los Angeles a Nova York na Europa, você terá sorte de achar um local que se pareça com uma loja de conveniência como a 7-11, quanto mais as mesmas revistas, refrigerantes e chocolates que você acha no local de origem. Ligue a TV em Roma ou Madri e, depois de passar a mudança da língua, você dificilmente vai achar o mesmo programa de TV. Acho essa infinita variedade positiva e essa unidade americana, muitas vezes, tediosa. O design gráfico alemão é radicalmente diferente do francês. O holandês é facilmente diferenciado do italiano. A personalidade de cada cultura é capturada e comunicada em sua própria tipologia, e é também fomentada pela própria sensibilidade das culturas vizinhas. Com isso, todos continuam a evoluir. Quando me mudei de Londres para Nova York, fiquei surpreso ao notar o quanto um tipo de letra de um artista era igual ao de outro. Logo descobri que eu era o único cara nos Estados Unidos a trabalhar com canetas técnicas alemãs. A maioria dos letristas trabalhando na Marvel e DC usavam a Speedball americana e meu trabalho já foi logo rotulado de diferente.
Quando James Cameron gastou mais de 200 milhões de dólares no filme Titanic, fez isso para garantir o nível de autenticidade que ele sentia que faria sua história mais convincente. Eu ficaria assombrado se o JG (nota do UHQ: que trabalha com Richard), ou um dos outros caras aqui, aparecesse com uma conta em torno de 200 milhões de dólares. Mas existem ocasiões em que dispensamos mais tempo e atenção a um projeto específico do que faria sentido financeiramente. Duvido que muitas pessoas notaram que a prataria nas mesas de jantar no set do Titanic eram réplicas exatas das do navio real em 1911, mas tenho certeza de que o sucesso do filme se deve muito à preocupação de Cameron com esse tipo de detalhe. Proporcionalmente, o mesmo vale para o estilo único que buscamos para a revista Steampunk, de Chris Bachalo, ou as letras que criamos para os trabalhos de Tim Sale.
Starkings: Comecei recentemente a olhar embalagens e peças gráficas japonesas e suas revistas de hobby, brinquedos e jogos. Não sei ler uma única palavra em japonês, mas penso que tem algo fascinante na representação moderna da linguagem deles. Comprei um Playstation 2 recentemente e achei o uso de gráficos em vários jogos estimulantes e interessantes. Posso dizer que quanto mais longe do meu meio os gráficos estão, mais eles me intrigam. Os designers de canais de TV, como UPN, MTV e MuchMusic, tem uma abordagem progressiva do próprio trabalho, e tento ficar atento ao que eles estão fazendo. É importantíssimo olhar para fora do mundo dos quadrinhos. Os trabalhos mais interessantes são sempre uma fusão de várias idéias. Como retrô e techno, velho e novo, belo e perigoso! UHQ: O que mais você gosta de ver que lhe acrescenta visualmente ou intriga sua mente? Starkings: Escuto muito música tipo "ambient", como Vangelis, Brian Eno e Kitaro. Também leio muitas biografias, diários e memórias de pessoas que vão de William Shatner a Rainer Maria Rilke. Na TV, adoro ver documentários da natureza e seriados ingleses. Entretanto, não há nada mais refrescante ao espírito e inspirador do que ficar descalço na praia olhando o mar ou sentar nas montanhas respirando ar puro. Eu não saio muito do estúdio, mas minha esposa, Youshka, faz com que eu vá para as praias ou montanhas sempre que possível. UHQ: Você está satisfeito com sua carreira? Starkings: Me contento com o que faço, mas nunca estou satisfeito. É muito importante estarmos sempre nos desafiando e procurando áreas para evoluir. Quando você para, o mercado te enterra vivo. UHQ: Você descobriu um nicho de mercado para si mesmo ou ele ainda está aberto? Starkings: Não acredito que nichos são descobertos, mas criados. Dito isso, acho que criei um nicho para mim. O problema agora é que outras pessoas querem me tirar dele! Em vez de gastar minhas energias defendendo minha posição na indústria, prefiro ficar criar novos nichos para mim!
Starkings: Eu estava criando minha própria tira em quadrinhos, Hedge Backwards (agora com site próprio) bem antes de montar a Comicraft. Hedge apareceu no El Segundo Herald por alguns anos e depois num jornal budista chamado The World Tribune. Hip Flask começou como algo bem humano, aquele tipo de detetive particular bem esteriotipado, pois o criei para incluir no meu projeto Hedge Backwards. Entretanto, fiquei tão envolvido com a Comicraft, que Hedge não alavancou, e Flask acabou não virando a tira que pretendia. Uns anos depois, não conseguindo promover minhas fontes com personagens como X-Men ou Wild C.A.T.s, decidi dar o trabalho para Hedge. Mas Hedge Backwards é uma tira bem autoral, meio que detalhando minha vida e relacionamentos na Califórnia. Logo me dei conta que não era o veículo adequado para promover fontes como "Clobberintime!", "Phasesonstun" ou "Comicrazy". Hedge não carregava uma arma phaser e não dava porradas e coisas do tipo. Então, comecei a listar os personagens que se encaixariam melhor como meu "vendedor".
Ela gostou do nome, mas quando eu disse que era um detetive particular, Youshka perguntou, indiferente, o que o fazia diferente dos outros detetives particulares. "Oh, Hã..." falei, pensando rapidamente, "Ele é…hmmm… um hip… um... Ele é um hipopótamo!". Para encurtar, depois de aparecer em alguns anúncios da empresa, Hip praticamente tomou vida própria e, após uns anos, algumas pessoas procuraram os quadrinhos contendo as aventuras dele. Sempre tive a intenção de vê-lo num título próprio, mas nunca achei que pudesse criar uma demanda para que ele aparecesse! Me considero um felizardo por poder trabalhar com os bons amigos José Ladronn e Joe Casey no título. Já para a segunda parte de sua pergunta, Hip Flask é uma vaidade minha como projeto, e não acredito que empresas do poder da Marvel e da DC se importem de me ver publicando este trabalho.
UHQ: Qual o seu conselho para jovens designers e para os que têm vontade de criar suas próprias fontes? Richard Starkings: Honre as tradições, mas ache nelas coisas únicas e originalidades não destacadas. Ame seu trabalho, fazendo o melhor tanto nas horas boas quanto nas ruins. A oportunidade de criar e ser um criador é preciosa como a vida em si. Sempre teremos problemas e dificuldades, mas sendo verdadeiro consigo mesmo, e tendo fé no seu trabalho e no seu ponto de vista, você acaba criando uma situação ao seu redor que irá te sustentar. UHQ: Em nome dos leitores do Universo HQ, muito obrigado pela entrevista! |