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![]() Uma vida dedicada aos quadrinhos, Com quase 70 anos de carreira, Mort Walker é um dos mais prolíferos autores de quadrinhos dos Estados Unidos. Nessa entrevista exclusiva ao Universo HQ, revela curiosidades de sua carreira, fatos históricos sobre o impagável Recruta Zero e fala sobre o International Museum of Cartoon Art, outra de suas melhores criações
Por Equipe UHQ
Nascido em 3 de setembro de 1923, teve uma infância pobre. Seu pai era inventor, músico, pintor e poeta. Sua mãe fazia ilustrações para jornais. Desde cedo, Walker desenhava. Na escola, chamava a atenção com seus cartuns. Em sua biografia, afirma "Desde minha primeira respiração, sempre quis ser um cartunista".
Em 1942, entrou para o exército, onde ficou por quase quatro anos, passando por diversas patentes, de soldado a tenente. Depois, estudou e formou-se jornalista na Universidade. Foi para Nova York em 1948, decidido a ganhar a vida vendendo cartuns e revistas. Em 1950, criou o personagem Spider, posteriormente mudando seu nome para Beetle Bailey (no Brasil, Recruta Zero). Com esse título, conseguiu publicar a tira pelo King Features Syndicate. De inicio, a tira abordava a vida universitária. Mas, apesar de ter sido publicada em apenas alguns jornais, não fez o sucesso esperado. Walker não sabia, mas o King Features estava estudando terminar com seu contrato. No entanto, com o início da Guerra da Coréia, ele decidiu fazer o jovem Beetle ingressar no Exército. Foi então que o sucesso chegou. ![]() Mas o fator decisivo, que impulsionou em definitivo o personagem, foi o jornal de o exército Stars & Stripes ter banido suas histórias, por considerar que elas ridicularizavam os oficiais em geral. O fato teve grande repercussão na imprensa, e a tira disparou em publicação.
Só que a idéia não morreu. E Walker continuou com a tira, em parceria com um desenhista muito especial, Dik Browne, que posteriormente criaria Hagar, o Horrível. Foi o inicio de uma grande amizade. Walker criou outras tiras. A de maior sucesso, assinada com seu primeiro nome, Addison, foi publicada no Brasil com o nome de Arca de Noé, e contava as trapalhadas em um navio cheio de animais engraçados, com um capitão não muito respeitado pelos seus subordinados, tampouco pela esposa. ![]() Em 1960, ele teve uma conversa com Dik Browne, para saber o motivo de cartunistas não terem o respeito merecido. Seu amigo lhe respondeu que era por não terem um museu que exibisse cartuns. Então, Walker decidiu criar um! E em 1974 foi fundado o International Museum of Cartoon Art, em Greenwich, Connecticut. No ano seguinte, o acervo foi transferido para um casarão histórico em Rye Brook, Nova York, onde ficou por 18 anos, até que, por necessidade de espaço, mudou-se para o luxuosíssimo espaço em Boca Raton, na Flórida.
Entre outras curiosidades na vida do artista, em 1951, procurou ajudar um certo criador, que não estava tendo sucesso em seu trabalho, a publicar suas tiras. Tratava-se de ninguém menos que Charles Schultz, "pai" de Peanuts (Snoopy). Teve diversas tiras censuradas, que ficaram somente no rascunho, e até mesmo alteradas, por abordar temas mais picantes ou por desenhar mulheres com biquínis. Publicou um desenho na Suécia com Dona Tetê nua e, à sua volta, os personagens do universo de Zero. Um editor americano viu, e pediu para fazer uma série limitada do desenho nos Estados Unidos. Esgotou!
É difícil não se identificar, em algum momento, com o preguiçoso Zero (que já tinha essa personalidade desde o início, na vida universitária), com o ingênuo Dentinho, o simpático e autoritário Sargento Tainha (contraponto e cara-metade de Zero), o ranzinza General Dureza, sua esposa Martha, o irritante Tenente Escovinha, a gostosa Dona Tetê, e tantos outros que fazem parte deste divertido panteão, como Quindim, Cuca, Capelão, Roque, Platão, Otto, Martha, Ky, Lorota, Mironga e Capitão.
Na RGE, o personagem chegou a ter histórias criadas por artistas nacionais, com a aprovação de Walker. A tira também foi (e ainda é) publicada em diversos jornais brasileiros. Comemorando antecipadamente o aniversário de 80 anos desse grande criador, fique a seguir, prezado leitor, com as palavras de Mr. Mort Walker! Universo HQ: Qual o seu nome completo e idade? Mort Walker: Meu nome completo é Addison Morton Walker. Farei 80 anos no dia 3 de setembro. UHQ: Como e por que o senhor começou se interessar por quadrinhos?
UHQ: Qual a sua primeira história paga? Foi um caminho difícil até conseguir isso? Walker: Na verdade, não! Vendi meu primeiro cartum quando tinha 11 anos, e já aos 15 já tinha vendido mais de 350! UHQ: Qual é o seu personagem favorito? E a sua história predileta? Walker: Meu personagem predileto é o Sargento Tainha (Snorkel, no original). Agora, as histórias são muitas para poder escolher uma apenas. ![]() UHQ: Quais seus artistas favoritos e como influenciaram sua obra? Walker: Fui muito influenciado pela arte de Milton Caniff, em Terry e os Piratas, e pelo humor de Frank Willard, em Moon Mullins. Milton me ensinou como eliminar as imagens de fundo para acentuar a ação no primeiro plano; e Frank me mostrou o valor do humor visual. ![]() UHQ: Atualmente, quais as tiras e histórias em quadrinhos que o senhor gosta? Por que? Walker: Minhas tiras favoritas atualmente são Hagar, Zits, Mother Goose & Grimm e Family Circus. UHQ: São mais de 50 anos fazendo uma tira por dia, às vezes até mais. Nunca aconteceu de "dar um branco"? O que fazer quando isso ocorre? Walker: Pode parecer incrível, mas isso nunca me aconteceu. Por isso, não tenho como dizer o que fazer quando isso ocorre. UHQ: De onde o senhor tira inspiração para as tiras? O senhor serviu ao exército americano? Walker: De todos os lugares imagináveis. A inspiração vem de experiências de vida, leituras, de assistir à televisão ou apenas de desenhar imagens engraçadas. Sim, estive no exército por quatro anos.
Walker: Sim, eu vi algumas revistas feitas no Brasil no passado. Mas, infelizmente, não sabia lê-las. Por isso, não posso comentar a parte das histórias. A arte está boa, mas mostrava um pouco mais de violência do que eu faço. UHQ: Em quantos países Beetle Bailey já foi publicado? Walker: Em 52 países espalhados pelo mundo inteiro. UHQ: O mercado de tiras nos Estados Unidos é muito forte? Hoje ele também enfrenta a crise vivida pelos comics? Walker: As tiras em quadrinhos publicadas em jornais sempre foram muito fortes. E continuam sendo! As publicações em forma de revistas que estão fracas... UHQ: É possível um artista americano viver apenas de suas tiras? Qual o valor médio pago por tira? Walker: Sim, claro que é possível. Cada jornal paga, pelo menos, US$ 5 por semana. Grandes jornais pagam US$ 100 ou mais. Um artista que é publicado em 100 jornais (Nota do UHQ: dado à quantidade de periódicos nos Estados Unidos, esse número não é tão alto quanto parece) consegue viver só de suas tiras.
Walker: Até hoje, saíram mais de 100 livros do Recruta Zero. Normalmente, essas compilações são publicadas em intervalos de dois anos. UHQ: O Recruta Zero foi banido do jornal do exército, porque os oficiais se sentiam ofendidos. Por causa do Dentinho (que, curiosamente, no original é quem se chama Zero), afirmaram que o senhor ridicularizava os retardados. Achavam a Dona Tetê (Miss Buxley, nos EUA) um estereótipo sexual. O que pensa de toda essa polêmica criada pelos seus personagens? Walker: Minhas tiras sempre foram criticadas por uma coisa ou outra. O exército pensava que eu gozava dos oficiais e maculava suas autoridades com os soldados. Os negros achavam que estava estereotipando a raça com o Tenente Mironga (Flap, no original). Os orientais faziam objeções ao Cabo Ky (Yo, no original). As feministas achavam que eu degradava as mulheres quando o General dava em cima da Dona Tetê. ![]() As pessoas se preocupavam pelo fato de Dentinho tirar sarro de crianças de deficiências mentais. As mulheres que trabalham no exército diziam que a Sargento Lorota (Lugg, no original) não representava as qualidades que elas tinham. Os leitores questionam freqüentemente o fato do Sargento Tainha bater no Recruta Zero ou o General Dureza (Nota do UHQ: Amos T. Halftrack, no original) gostar de bebidas alcoólicas. Sempre há cartas nervosas de leitores sobre alguma coisa que os irritam. Não posso fazer nada quanto a isso.
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