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Última atualização: 09/02/10       

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Museu dos Quadrinhos

No Brasil, terror tinha nome: Spektro

Por Marcelo Naranjo

SpektroOs leitores mais jovens podem não saber, mas entre os gêneros de quadrinhos que sempre fizeram sucesso em território nacional, o terror merece grande destaque.

Com uma tradição que começou décadas atrás, diversos títulos já passaram por nossas bancas, abordando desde lobisomens, vampiros e monstros até religiões diversas (macumba, anjos e demônios), passando até por alguns "causos" verídicos e outros nem tanto...

Em meio a tantas e diversas publicações, uma mereceu (e ainda merece) destaque especial: A revista Spektro. Publicada pela Editora Vecchi entre os anos de 1977 e 1982, durou 27 edições. Tinha mais de 160 páginas por edição, em preto e branco.

Dr. SpektroNo início, eram publicadas apenas histórias do Dr. Spektro, personagem da editora americana Gold Key, daí o nome da revista. Como o número de histórias com esse personagem era pequeno e o sucesso foi grande, foram incorporadas, a partir da segunda edição, histórias da editora Fawcett (Dr. Morte e Dr. Mistério) e republicações de material nacional da década de 60, que saíram na revista Clássicos do Terror. Em seguida, foi a vez de entrarem histórias da editora Charlton Publications (Dr.Graves).

A revista tinha algumas características básicas, como o uso de personagens como narradores, uma constante. No entanto, como provavelmente não havia pacientes em número suficiente para tantos doutores, com o andar da carruagem, as histórias nacionais passaram a ter cada vez mais destaque, até que passaram a publicar 100% material brasileiro.

O diretor da redação, Otacílio d'Assunção Barros (mais conhecido como Ota) era extremamente profícuo. Além da função de editor, acumulou também a de roteirista, escrevendo várias e várias histórias para desenhistas diferentes, utilizando-se inclusive de diversos pseudônimos.

Os artistas eram um show à parte. Spektro lançou no mercado gente como Watson Portela e Mano, além de contar com a participação permanente de Flavio Colin, Júlio Shimamoto, Manoel Ferreira, Itamar, Lobo, Eugênio Colonnese e muitos outros.

Algumas das séries de maior sucesso na revista foram:

Arte de Colin, para a SpektroHotel Nicanor - Flavio Colin criou juntamente com Ota a série do Hotel Nicanor, um hotel escondido no interior que recebia estranhos hóspedes, todos monstros canibais e assassinos. O desenho de Colin para essa série é fantástico. Um estilo caricatural, bastante divertido, que prende a atenção do leitor página após página. Ota assinou o roteiro sob o pseudônimo de Juka Galvão, uma roteirista mulher. Freud explica...

Chegaram os tempos - Uma ótima história publicada em três partes sobre anjos e demônios. Olendino escreve e desenha a trajetória de uma garota que recebe um demônio e fica grávida do mesmo. O anjo Gabriel intervém e expulsa o demo, porém comete o pecado de apaixonar-se pela garota. A ira divina recai sobre ele, que decide ficar com sua amada. Eles transam e ela engravida, sem saber que Gabriel deixou de ser um anjo, pois, por ter caído em tentação, foi transformado em demônio. A vinda do anticristo estava assegurada.

Trio Diabólico - As histórias desenhadas por Mano, principalmente o "trio diabólico" formado por Sinhá Preta, o Filho de Satã e o Homem do Patuá, quando publicadas, chegavam a aumentar as vendas da revista. Cabe aqui um elogio ao artista: ele situava seus enredos historicamente, respeitando a linguagem e os elementos do sertão nordestino, como os cangaceiros, os coronéis e seus capangas, a seca, a pobreza e a fome.

Paralelas, de Watson PortelaParalelas - Essa série de Watson Portela foi publicada originalmente nas edições de Spektro de números 8, 10, 20 e 21, e levou o artista a ser conhecido nacionalmente. Ele era um dos preferidos entre os leitores. Todas essas histórias fizeram tanto sucesso, que seus protagonistas acabaram voltando nas edições seguintes. Viva o material nacional!

Entre os artistas internacionais, tivemos entre outros Steve Dikto (Homem-Aranha) e Mick Zeck (Mestre do Kung Fu, Capitão América).

Curiosidade: A Spektro foi a primeira a publicar, no Brasil, uma história desenhada por John Byrne (Superman, X-Men). Foi no número 13, e a aventura, chamada Os Herdeiros do Apocalipse, falava sobre os passageiros de uma espaçonave que, ao partirem em uma viagem para Marte, presenciam no planeta Terra o holocausto nuclear, conseguem voltar e pousam na Groelândia, onde encontram um gigante primitivo, mamutes e tigres dente-de-sabre (acredite se quiser!). Não consta se o argumento é ou não do Byrne. A história era mais voltada para ficção científica do que para o terror puro e simples.

John Byrne, na SpektroEssa mescla entre autores nacionais e internacionais deu margem a uma comparação interessante. O ingrediente "sexo" praticamente não aparecia nas histórias que vinham de fora, devido principalmente ao Comics Code, a lei que coibia e censurava o que era publicado nos Estados Unidos.

Já nas histórias nacionais... Bem, digamos que sexo era um "ingrediente fundamental". Além de aumentar o interesse do leitor, com certeza era um deleite, principalmente para os jovens leitores da época (alguns bens jovens, diga-se de passagem, grupo do qual, na época, eu fazia parte).

Outro ponto forte nas histórias nacionais era o humor, principalmente humor negro. Um ótimo exemplo é De Volta ao Mundo do Terror, publicada em Spektro n° 23, onde o desenhista Colonnese sonha com personagens de terror de sua criação exigindo que volte a desenhar e, por isso, ele procura o editor Ota, solicitando sua inclusão na revista. No final, Ota agradece ao capeta por ter colaborado para a volta do artista... É mole?

Uma característica interessante, presente principalmente nos primeiros números, eram artigos com contos de terror, biografias de escritores e desenhistas famosos (sempre relacionados ao gênero) como, por exemplo, H. G. Wells, Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e outros, além de textos sobre filmes de terror, diretores e atores. No número 19 foi publicado um dicionário dos rituais afro-brasileiros (termos relacionados com a macumba). Enfim, um prato cheio para os fãs. Toda edição tinha uma seção de Humor Negro, com diversas piadas.

Um fato que fica claro no decorrer de todos os números publicados é o empenho do editor, Ota, em defender a participação de artistas nacionais. Uma luta inglória, como sabemos ainda hoje, devido ao baixo custo da importação de quadrinhos, principalmente, os enlatados de super-heróis americanos. Na época, estava em votação no Senado uma emenda que obrigaria as editoras a publicarem uma porcentagem determinada de quadrinhos Made in Brazil, porém, a tal lei não foi aprovada. Se tivesse sido, talvez o panorama atual fosse outro...

Humor de Gill Lopez na SpektroHoje, é lamentável que dificilmente possamos encontrar referências ou novas obras da maioria dos artistas nacionais aqui citados. A exceção fica por conta de Shimamoto, lançou Sombras e Volúpia, pela Editora Opera Graphica, e Flavio Colin, que desenhou Fawcett, para a Editora Nona Arte.

Os demais, eventualmente, encontramos uma ou outra história em publicações nacionais de HQ's. A grande maioria, senão todos, por uma questão de sobrevivência financeira, teve que optar por profissões das mais diversas possíveis, fora do universo dos quadrinhos. Falta de reconhecimento e, especialmente, o aspecto financeiro, resultaram na parca produção nacional e na desistência e decepção de tantos e tantos artistas com o meio. Triste!

Em 1994, Ota relançou a Spektro pelo seu selo, o Otacomix, em formato americano, com três histórias. A revista não vingou, pois teve baixas vendas, principalmente, por causa dos problemas com a distribuição. Uma das histórias, Vampiro Eletrônico, ganhou o Prêmio Nova como melhor história profissional do ano de 1994. Com roteiro dele mesmo, e desenhos de Shimamoto, conta a história do retorno do verdadeiro Conde Drácula, via Internet.

A revista Spektro é lembrada até hoje pelos fãs de HQ's da época e seus exemplares dificilmente são encontrados, mesmo em sebos especializados. Chegou a vender, em sua época áurea, mais de 40 mil exemplares por edição!

Em todas as revistas eram enviados questionários, com perguntas sobre o que o leitor gostou ou não. Entre 500 e mil cartas-resposta chegavam pelos correios para cada número e determinavam a linha editorial para o número seguinte. As histórias de Mano eram as mais elogiadas.

As capas da revista, algumas com um nível de excelência altíssimo, eram feitas por Shimamoto, Mano, Lobo, Ofeliano e Carlos Chagas, sendo que estes últimos fizeram algumas memoráveis.

Por isso tudo, Spektro foi um marco nos quadrinhos brasileiros e deixou saudades.

Em 1995, a Ediouro publicou uma revista chamada Colecão Assombração. Novamente sob o comando de Ota, o material nacional voltou à carga, inclusive com histórias inéditas, de artistas que trabalharam para a Spektro. Infelizmente, os tempos eram outros, a revista não emplacou, durando somente oito números.

Marcelo Naranjo é absolutamente fascinado pelo gênero terror. Graças à sua predileção por materiais antigos, estamos começando a desconfiar que o cara é, na verdade, uma "múmia", pois só isso explica sua memória para coisas publicadas há tanto tempo! Sinistro... Muito sinistro!

Agradecimentos:

Ota - Que gentilmente forneceu diversos dados.

Eduardo de Mendonça Gonçalves, leitor que me enviou a capa da Spektro #27.

Links relacionados:
Site do Ota

 


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