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Online desde: 05/01/2000       
Última atualização: 21/11/08       



 

Júlio Shimamoto, um apaixonado
pelos quadrinhos

Por Samir Naliato

Júlio Shimamoto nasceu em Borborema, cidade do interior de São Paulo. É descendente da uma família de samurais aristocratas do Japão, que decaíram com o tempo. Já fazia seus primeiros rabiscos aos cinco anos de idade, quando sua família se mudou para uma região próxima ao Mato Grosso. Seu pai era administrador de fazenda, e conseguiu um emprego por lá.

A casa onde moravam ficava à beira de uma estrada de terra batida, numa terra de grande conflito. Jagunços passavam com freqüência em sua moradia, para descansar e tomar água. Em um desses dias, voltavam de um ataque, e um deles estava morto. Esse fato foi tão marcante para o jovem Shimamoto, que ele admite ter sido muito influenciando em tudo o que faz e cria como quadrinhista.

Shimamoto em estúdio
Shimamoto, no seu estúdio, mais conhecido como "oficina".
Foto EXCLUSIVA UHQ
O primeiro contato com quadrinhos foi através da tira Mutt & Jeff, na época, publicada no jornal O Estado de S. Paulo. Certo dia, junto com os jornais que seu pai pegava na comarca mais próxima, todos os fins de semana, vieram três revistas em quadrinhos "com cheirinho agradável de impressão", admite o criador. As três eram da Marvel, uma com o Capitão América e seu parceiro Buck lutando contra soldados nazistas; outra com o Tocha Humana e seu companheiro Centelha jogando bolas de fogo sobre alguns gângsteres; e a última com o Príncipe Namor brigando contra os japoneses. Obviamente, Shimamoto não gostou desta, e resolver criar sua própria revista. Usava papel de embrulho e partes brancas de jornais para criar histórias de soldados japoneses derrubando os americanos. Por três anos, essa foi sua principal forma de diversão. Quando não tinha papel, desenhava em chão de terra, com pedaços de gravetos.

Em 1947, ganhou dois almanaques de 300 páginas (O Tico-Tico e Globo Juvenil), enviados por uma prima de Borborema. Isso ajudou a aumentar ainda mais sua paixão pelos quadrinhos. Na escola, acabou conhecendo dois amigos (também nisseis), que eram colecionadores de revistas. Acabou pegando mais de 100 emprestadas e, pela primeira vez, pôde se deliciar com várias histórias.

No ano de 1949, voltou para Borborema e foi morar na casa de sua prima. Lá, tinha mais contato com revistas, o que acabou afetando seu desempenho na escola. Sabendo disso, seu pai juntou todas as publicações e as queimou no quintal. Mas isso não diminuiria seu amor pela arte.

Começou a estudar mais desenho, mas como não tinha dinheiro para cursos, e não gostava dos livros que ensinavam "como desenhar passo-a-passo", resolveu praticar no esquema de erros e acertos. Seu primeiro projeto se chamava Orquídea Negra e foi apresentado à Editora Ebal, que o recusou. Depois de uma rápida passagem como desenhista auxiliar, resolveu voltar às HQs. Levou o segundo projeto até Miguel Penteado (o editor da Ebal, na época). Novamente, recebeu um não como resposta, mas Miguel o estimulou, deixando-lhe a "porta aberta", tanto que, mais tarde, o contratou para uma revista de terror, quando realizou seu primeiro trabalho profissional.

A seguir, conseguiu emprego na editora La Selva, mas, por problemas internos com os editores, acabou sendo despedido. Imediatamente, seguiu para a editora Continental, onde um grande boom para os quadrinhos nacionais teve início, com vendas astronômicas. Infelizmente, o sucesso fez os donos da companhia abusarem e deixarem os negócios de lado. Acabou fundando com alguns amigos a ADESP - Associação de Desenhistas de São Paulo, onde lutavam pelos direitos dos artistas nacionais. Acabaram sendo boicotados pelas grandes editoras, e a idéia naufragou.

Ao sair dessa empreitada, foi convidado para integrar a CETPA - Cooperativa Editora de Trabalho de Porto Alegre. Flavio Colin e Renato Canini (ambos com suas tiras sendo publicadas pelo Universo HQ), também estavam presentes. Mas, com o golpe militar, a CETPA chegou ao fim. Nesta mesma época, Mauricio de Sousa, antigo amigo de Shimamoto, o convidou para fazer uma tira no jornal Folha de S. Paulo. Surgia, assim, O Gaúcho, que foi publicado entre 1964 e 1965.

Em 1972, mudou-se para o Rio de Janeiro. Conseguiu trabalho na recém-fundada agência de publicidade Caio Domingues e Associados. Foi a melhor época profissional para Shimamoto, onde conseguiu retorno financeiro e vários prêmios. Cansado e com saudades dos quadrinhos, pediu demissão para voltar à sua paixão. Trabalhou com as editoras Bloch, Vecchi e Grafipar, fazendo histórias eróticas e de terror.

Na década de 80, precisando de dinheiro para sustentar sua família, voltou para a publicidade, fazendo storyboards e manuais de treinamento para empresas. Em 1996, novamente afastado das agências de propaganda, tem um grave problema de saúde e é obrigado a extrair um rim e uma costela, por causa de um tumor maligno. Voltou a desenhar em 1995 e, desde então, publicou nas revistas Metal Pesado, Fêmea Feroz e HQ - Revista do Quadrinho Brasileiro, além de lançar a edição especial Volúpia, pela editora Opera Graphica.

Hoje, vive no bairro Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Gosta de chamar seu estúdio de "oficina", pois fabrica seu próprio material de trabalho. Chegou a desenvolver um método para deformar desenhos, que consiste em desenhar em cima de uma bexiga de festas, e esticá-la sobre uma tábua de madeira. O resultado é espantoso!

O Universo HQ tem o orgulho, ao republicar as tiras de O Gaúcho, de prestar sua homenagem a esse grande quadrinhista, pioneiro e mantenedor das HQs nacionais. Infelizmente, ele é quase um desconhecido da nova geração, que deveria espelhar-se nele como artista e, principalmente, como ser humano. Assim, quem sabe um dia, teremos uma produção de quadrinhos no Brasil digna do talento de nossos artistas, e reconhecida mundialmente.

 


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