Quadrinhos pelo Mundo: Índia
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Do alto da Grande Muralha da China, 2 mil anos de histórias em quadrinhos vos contemplam...
Por Sonia Bibe Luyten
Lianhuanhua! A palavra é grande e difícil de se pronunciar, mas a tradução é simples. É como os chineses se referem às histórias em quadrinhos. Ou melhor, lianhuanhua quer dizer "imagens que se encadeiam umas às outras". E nisto os chineses são mestres há muito tempo.
Não se pode falar da história da China sem mencionar a importância que os quadrinhos tiveram no país. Eles acompanharam a vida política, cultural e religiosa desde o início de sua existência. Basta lembrar que os recentes grandes movimentos de massa, campanhas de mobilização popular para o desenvolvimento econômico, ou até as denúncias contra os dirigentes ou personalidades do mundo artístico e cultural foram realizados tendo as HQs como agentes de mudança.
 Assim como Roots of Wisdom e Strange Tales of Liaozhai, The Saying of Mencius é ilustrada por Tsai Chih Chung/td>
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Estive duas vezes na China, nas cidades de Shangai e Pequim. Subindo por duas vezes na Grande Muralha da China deu para sentir na pele, a grandeza deste país que é um dos mais antigos da civilização, com uma história das mais fascinantes do planeta.
Cerca de 400 mil a 500 mil anos atrás, nas cavernas do monte Longgu (Osso do Dragão), a sudoeste de Pequim, viveu o ser humano primitivo que se denomina hoje em dia de o "Homem de Pequim". Ele conhecia o fogo, protegia-se do frio e conquistou a natureza. Lentamente, os antepassados da nação chinesa foram criando as primeiras comunidades e clãs, desenvolveram a agricultura, pecuária, a fabricação de cerâmica, objetos de pedra, osso, de jade e marfim. As lendas antigas contam também sobre os primeiros imperadores, há 5 mil anos, como Yao, Shum e Yu. O filho deste último, Qi, fundou a primeira dinastia, a Xia (2.100 AC -1600 AC), dando origem a inúmeras outras quando tudo se acabou com o reinado do último imperador da China, no século 20.
 A Asiapac Comic Series, representante dos quadrinhos atuais da China, usa os quadrinhos para difundir a sabedoria chinesa. Roots of Wisdom é um desses exemplos |
Mas foi na dinastia Han do Oeste (206 AC - 24 DC) que a aventura dos quadrinhos chineses começou. Se nos mantivermos à definição das HQs como uma narrativa continuada por grupos de imagens, os precursores dos lianhuanhua remontam exatamente à esta época.
Em 1972, foi descoberto perto de Changsha, na província de Hunan, a tumba de Mawangdui. Dois dos seis sarcófagos encontrados continham pinturas em cores vivas sobre um fundo de laque. Algumas destas gravuras são histórias em imagens. É um relato, em quatro cenas, de um pássaro aquático que, vendo uma serpente no chão, a pega com seu bico e vai depositá-la na boca aberta de um animal mítico que está de pé, à maneira de um homem. Este era uma divindade, cujo papel, segundo a crença popular antiga, era proteger os defuntos contra os ataques de animais maléficos, a fim de permitir que suas almas ganhassem o mundo do além.
 Strange Tales of Liaozhai, outro exemplar da Asiapac Comic Series |
Mas foi nas dinastias Sung (960-1279) e Yan (1279-1368), que corresponderiam à Idade Média ocidental, que as histórias seqüenciais floresceram de maneira espantosa. Os imperadores da época pediam aos artistas para decorar os livros com ilustrações. E, especialmente os desenhos que ficavam no topo das páginas, formavam uma narrativa continuada de imagens.
Todas estas manifestações, antes dos quadrinhos na China entrarem na era da difusão dos meios de comunicação, podem ser agrupadas em quatro grandes categorias: as biografias em imagens, contos ou peças de teatro ilustradas, as imagens do Ano Novo do calendário chinês e as ilustrações em litografia, ou seja, gravadas em pedra.
A revolução do caricaturista Feng Zikai e do Grande Timoneiro Mao
A Europa e os Estados Unidos, no século passado, foram palco de inúmeras formas de aperfeiçoamento das técnicas de reprodução dos jornais do século 19. Essas inovações chegaram à China; e em Shangai começou a circular um periódico, em língua inglesa, que, ao modo dos pasquins britânicos, não poupava críticas à política local. Essas críticas eram, sobretudo, direcionadas ao uso de ópio pelas melhores famílias e ao imperialismo estrangeiro na China, usando, é claro, desenhos satíricos .
Mas o clima de revolução cultural, propriamente dito, aconteceu nos anos 20; e os jornais, através de textos recheados de ilustrações, incitavam os leitores, a um maior dinamismo e progresso.
É nesta época que aparece Feng Zikai, o desenhista que revolucionou e deu maturidade aos quadrinhos. O que ele fez, foi agrupar as ilustrações e os cartuns numa série de vinhetas, numa seqüência contínua, encadeada. A importância foi de tal ordem, que o termo lianhuanhua foi empregado pela primeira vez em 1927; e os quadrinhos conquistaram a China como uma nova forma de literatura popular.
 A Gathering of Heroes, ilustrado por Lig Tao, mostra histórias clássicas chinesas em quadrinhos - clique para ampliar |
Feng Zikai também contribuiu muito para o desenvolvimento e técnica da arte dos quadrinhos, com uma produção de 20 livros teóricos sobre o assunto.
Dentro de uma perspectiva histórica, os anos 20 e 30 são mencionados como a "idade de ouro" dos quadrinhos chineses, pois, nessa época, nasceram inúmeros jornais humorísticos e uma nova geração de desenhistas. Todos eles estavam concentrados em Shangai; e alguns destes pasquins como Cartoon Life, Modern Puck, Cartoons of the Times e Independent Cartoons tiveram vida curta, mas possibilitaram o exercício diário, semanal ou mensal dos desenhistas para mostrar sua garra, mais tarde, durante a invasão dos japoneses na China.
 Apesar de ser impresso na República Popular da China, A Gathering of Heroes foi publicado também em inglês, para expandir os quadrinhos do País |
Neste período surgiram as primeiras associações de cartunistas , exposições e personagens fixos nas histórias que foram lidas por muitas gerações. Também nos anos 30 começaram a aparecer os suplementos nos jornais chineses, incluindo seções especializadas para crianças, com a publicação de histórias em quadrinhos.
E, por decisão dos próprios desenhistas, liderados por Ye Qianyu, os quadrinhos serviram como arma de guerra para combater o imperialismo japonês no país, utilizando-o para difundir mensagens patrióticas. Os quadrinhos foram elevados à categoria de um meio de expressão gráfica para servir às massas.
 Os quadrinhos de Mao Tsé Tung foram impressos tambem na Espanha, em vermelho! |
As HQs também tiveram papel importantíssimo na formação da República Popular da China, sob a liderança de Mao Tse Tung. Em 1949, foi adotado um programa dedicado à política cultural e educativa a serviço do povo; e os lianhuanhua foram, mais uma vez, usados para a os ideais revolucionários.
Para se ter uma idéia da grandiosidade das publicações, entre 1949 e 1963, cerca de 12.700 diferentes títulos foram editados, perfazendo um total de 560 milhões de cópias circulando por todo o país.
Os quadrinhos de Mao, como ficaram conhecidos, tinham como características o seu formato pequeno, de 12,5 x 10 cm, em papel jornal, e uma temática incrivelmente variada. Foram primeiramente adaptadas, em forma quadrinizada, as obras clássicas da literatura chinesa, como A história dos três reis, para reforçar os aspectos educativos da revolução, dando ênfase à tática e à estratégia militar, além do patriotismo.
 Mao Tsé Tung utilizava os quadrinhos com fins revolucionários. A distribuição era gratuita, com tiragens altíssimas |
Depois, outros temas variados iam desde a reforma agrária, leis sobre o casamento, luta contra o analfabetismo, noções elementares de higiene, combate à corrupção, sem deixar de falar, é claro, da figura do próprio Mao, o Grande Timoneiro, como era chamado. Quanto ao desenho, ao lado de um número grande de produções medíocres, publicaram-se quadrinhos de grande valor artístico, contribuindo para este modo de expressão gráfica.
Durante a Revolução Cultural, de 1966 a 1976, muitos dos lianhuanhua foram banidos pelos "revisionistas", mas passam a circular de uma outra forma: nas ruas. Os quadrinhos apareciam nos cartazes de rua, nos murais e nos jornais dos guardas vermelhos.
Rei morto, rei posto: a renovação dos quadrinhos chineses
 A apologia ao comunismo era evidente nas histórias |
Após a morte de Mao Tse Tung, em 1976, mais uma vez houve mudanças de orientação política e social que se refletiram em todas as áreas. Na década de 80, o Partido Comunista repudiou os ideais de luta de classe e optou pela estabilidade, unidade e reconstrução econômica. Cartunistas como Zhang Qingguo e Hua Junwu continuaram a atacar a política, enquanto outros, como Ding Cong preferiam jogar com duplo sentido e simbolismo nas histórias.
A China começou também a abrir suas portas aos países estrangeiros e a absorver as novas culturas, com viva curiosidade.
 Na China, o "formatinho" mede 12,5 (largura) x 10 cm (altura). O exemplar acima é sobre uma lenda do País |
E nesse processo o Japão ocupou o primeiro lugar, em todos os setores, inclusive nos quadrinhos. Foi neste momento que o personagem de Tezuka Ossamu, Astro Boy se transformou na primeira série de desenho animado estrangeiro a penetrar na televisão chinesa e, rapidamente, foi elevado à categoria de herói pelo povo.
Por outro lado, os quadrinhos atuais apresentam temas em profusão em todos os aspectos da vida chinesa antiga ou contemporânea: arquitetura, paisagem, costumes, acontecimentos políticos, históricos etc.
 Os "formatinhos" chineses apresentam apenas um quadrinho por página |
Além disso, há inúmeras revistas traduzidas para o inglês e publicadas em países de influência chinesa, como Cingapura, contando histórias tradicionais. Nessas versões quadrinizadas figuram os contos populares de Pequim, as histórias fantasmagóricas e mitos da China antiga, antologias de humor, o horóscopo chinês, os ensinamentos dos grandes mestres e pensadores, como Confúcio, Lao Zi e Han Fei Zi.
E nesta trajetória de 2 mil anos, passando por altos e baixos e mudanças de política, a caravana dos mestres do lianhuanhua vai passando, enquanto os cães da política ladram...
Sonia M. Bibe Luyten é a autora dos livros: O que é Histórias em Quadrinhos, Histórias em Quadrinhos - leitura crítica e Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses. Sua coleção, com revistas de países do mundo inteiro, é de deixar qualquer um maluco. Mas o melhor, mesmo, é que, mensalmente, ela vai estar passando um pouco desse seu conhecimento pros leitores do Universo HQ.
Saiba mais sobre a autora:
Sonia M. Bibe Luyten
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