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Última atualização: 07/09/08       

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Natteskaer, álbum de luxo, no melhor estilo europeu
Natteskaer, da dupla Eirik Ildahl e Bjorn Ouslanbd foi publicado em forma de álbum, no melhor estilo dos grandes autores europeus




















































































Tarmo Koivisto, outro talento das HQs finlandesas - clique para ampliar
Tarmo Koivisto é outro autor de renome que foi revelado graças ao espaço aberto pela criação da Sociedade de Histórias em Quadrinhos Finlandesas


Os quadrinhos do reino dos vikings


Por Sonia Bibe Luyten

O reino dos vikings, hoje formado pelos países escandinavos Dinamarca, Noruega, Suécia e Finlândia, tem uma história fascinante, marcada por conquistas, guerras e poderosas frotas marítimas.

Álbum francês cujo tema eram os vikings
Os vikings sempre atraíram as atenções do mundo inteiro, por causa de seus feitos, como prova o álbum francês Nordman - Les Vikings en Normandie, publicado pela Editora Glénat
Desde o início da Idade Média, lá se formavam bandos armados de conquistadores que ficaram conhecidos e temidos como os vikings ou normandos. Com seus barcos velozes, movidos tanto a remo como a vela e caracterizados por carrancas assustadoras, eles atravessavam os mares e penetravam pelos rios.

Entre suas façanhas mais conhecidas estão o descobrimento da América, no século XI e a formação do Império Russo. Na França, para evitar que eles saqueassem Paris, o neto de Carlos Magno lhes cedeu todo o noroeste do país, que ficou conhecido como Normandia. De lá, nos anos mil, eles invadiram a Inglaterra e introduziram o feudalismo. Não há dúvida, portanto, que os vikings foram muito importantes para a história da humanidade.

Hoje em dia, esses países são conhecidos por serem modelo do bem-estar social, índice zero de analfabetismo, indústrias poderosas e grande tolerância em todos os níveis sociais.

E os quadrinhos da Escandinávia? Pouco se sabe a respeito deles aqui no Brasil, devido à inexistência de traduções e quase nenhum contato com os artistas. Os mais famosos são histórias ligadas aos vikings, como o Príncipe Valente, de Harold Foster e Hagar, o Horrível, de Dik Browne. Mas estes são autores norte-americanos. Por isso, é preciso saber que há numerosos artistas escandinavos que formam um grupo coeso, tramitam entre si e estão presentes em muitos festivais europeus de HQs.

DO REINO DA DINAMARCA

Álbum de Os Três Homenzinhos, de Robert Storm Petersen
Capa de um álbum de Os Três Homenzinhos, de Robert Storm Petersen. O autor possui até um museu em sua homenagem, na cidade de Copenhagen.
O desenhista que tem mais notoriedade em livros que contam a história internacional dos quadrinhos é o dinamarquês Storm (Robert Storm Petersen), autor de The Three Little Men (Os Três Homenzinhos), Number Man (O Homem Número) e Peter and Ping. Ele nasceu em Copenhagen, em 1882 e morreu em 1949.

Para minha surpresa, quando estive no reino da Dinamarca, no ano de 1998, havia entre as atrações da cidade, o Museu Storm. Ao visitá-lo, encontrei toda a obra deste grande autor no local onde fora anteriormente a sua casa. Filho de pais açougueiros, ele não quis ficar atrás dos balcões vendendo carne, preferindo ser ator, desenhista, escritor, pintor e até... detetive.

Tira de Os Três Homenzinhos - clique para ampliar
História de Os Três Homenzinhos. Note o personagem de chapéu pontudo. Ele sempre aparecia mostrando o número de cada quadrinho, das formas mais diferentes e criativas
Ele foi um pouco de tudo isto mas sua veia cartunista falou mais alto. Quando tinha vinte anos, fez muitas histórias para jornais semanais e revistas. Ganhou uma bolsa de estudos e foi para Paris para aprender mais sobre a arte do desenho. Storm possui uma galeria de personagens cômicos, retratando especialmente vagabundos e palhaços; e o seu humor é caracterizado pela simpatia e compaixão aos menos favorecidos pela sociedade.

Outros desenhistas dinamarqueses famosos da época de Storm são Andreas Asmussen, Bo Bojesen, Siegfried Cornelius, Franz Fuchsel e Helge Hall, com a história mais famosa da Dinamarca Hilarius Petersens.

Kulorte Sider, da editora dinamaquesa Intrepresse
Kulorte Sider é uma revista mix da editora dinamarquesa Intrepresse, que publica vários autores
Depois de um período de menor produção nacional, devido à entrada de muitos quadrinhos americanos, nas décadas de 1980 e 1990 muitas editoras nacionais têm publicado HQs de boa qualidade, como a Interpresse e Carlsen Comics, Bogfabriken.

Atualmente, a produção de quadrinhos dinamarqueses é muito representativa, com várias tendências e estilos. Há autores que publicam em álbuns, bem ao estilo europeu, como a dupla Eirik Ildahl e Bjorn Ousland (de Natteskaer ), Thomas Hauge, Morten Hessendahl (de Et spørgdmal om Wagner), Nikoline Werdelin (Café 2), Orla Klausen (Sjællænderen), Tina & Palle Hansen (Adolf Johansen, Vicevaerd) e muitos outros. Outra dupla, Ole Pilhl e Claus Korsgaard são autores de quadrinhos de vanguarda, com Nordstjernen e Det Hvide Guld.


DA NORUEGA DISTANTE...

A Noruega é um país imensamente rico. Tão rico, que recusou fazer parte dos países da Comunidade Européia. Ocupa um território extenso e tem relativamente poucos habitantes (4,3 milhões para 387.000 km²).

O Reizinho, de Otto Soglow
Embora tenha sido produzida nos Estados Unidos, O Reizinho, de Otto Soglow, é a mais famosa história em quadrinhos originada por um norueguês
Além de suas famosas companhias de navegação, o país é riquíssimo em peixes, especialmente o conhecido bacalhau. Tem vastas reservas de petróleo e gás natural. Com isso, todos os noruegueses poderiam, se quisessem, passar 100 anos sem trabalhar, pois os rendimentos do país seriam suficientes para manter a população.

Durante muitos anos, a Noruega fez parte do Reino da Dinamarca, o que torna seus idiomas muito próximos. Por isso mesmo, os quadrinhos dinamarqueses são bastante consumidos por lá.

Por outro lado, como o país é caracterizado por uma longa costa recortada por entradas íngremes, conhecidos como fiordes, e como há muitas regiões de florestas pouco habitadas, muitos acreditam em duendes, elfos e outros seres misteriosos. Por isso mesmo, alguns dos personagens mais famosos são os suecos Nils Holgersson e Bobo, este da autoria de Gar Rikke.

Embora tenha sido desenvolvida nos Estados Unidos, a história em quadrinhos mais famosa originada por um norueguês foi O Reizinho, de Otto Soglow. Outros desenhistas conhecidos na Noruega são Ragnvald Blix, Olaf Gulbransson e Theodor Kittelsen.

DA TERRA DOS SESSENTA MIL LAGOS, A FINLÂNDIA

Sarjakuvantekijät, um cartão de visitas dos artistas finlandeses
O belíssimo livro Sarjakuvantekijät traz amostras dos trabalhos dos principais desenhistas de quadrinhos da Finlândia nos últimos tempos.
Na nobre terra de Suomi - que quer dizer Finlândia na língua local - os quadrinhos demoraram um pouco para surgir em toda sua plenitude. Isto porque, até meados do século XX, a Finlândia era um grão-ducado ligado à coroa russa.

Desta forma, a liberdade de imprensa era limitada pela legislação czarista e não se podia, portanto, fazer caricatura dos russos. A produção local ficou ainda mais atrasada, em função da invasão dos quadrinhos americanos distribuídos pelos syndicates, na década de 1930. No entanto, alguns artistas, como Erkki Tanttu e Asmo Alho imprimiram o caráter finlandês nos quadrinhos, com um cenário bem vibrante e os diálogos mais próximos da realidade do país.

De 1930 a 1950, com a chegada dos comic books ianques, mais uma vez a produção local foi ofuscada. Os desenhos dos artistas nesta época foram inspirados nos clássicos Jim das Selvas, Tarzan e Flash Gordon como ilustram bem os títulos No coração da Selva, de Eeli Jaatinen e Terrestres em Marte, de Ami Hauhio.

Arte de Jussi Tuomola, o mais internacional dos artistas finandeses
Arte de Jussi Tuomola, o mais internacional dos artistas finandeses, com histórias publicadas na Inglaterra, Suécia, Alemanha, França e Estados Unidos
Nas década de 1960 e 1970 é que a situação começou a melhorar e houve um interesse maior pelos quadrinhos nas universidades. Em 1971, criou-se a Suomen Sarjakuvaseura, ou seja - Sociedade de Histórias em Quadrinhos Finlandesas - abrindo espaço para uma posição mais crítica e a revelação de novos expoentes, como Usko Laukkanen, Tarmo Koivisto, Jorma Pitkänen e Tim Aarniala.

Nos anos 90, os quadrinhos finlandeses ganharam bastante expressão: surgiram novas editoras, foram publicados 30 títulos de álbuns por ano e seus trabalhos foram traduzidos para outras línguas, como o alemão, russo e sueco, conquistando, finalmente o lugar merecido no país.

Muitos artistas participam em festivais internacionais de quadrinhos nos Estados Unidos e na Europa, como Angoulème, na França, sendo esta uma boa prova que os finlandeses estão a todo vapor. Jussi Tuomola, por exemplo, é o mais internacional dos artistas finlandeses com histórias publicadas na Inglaterra, Suécia, Alemanha, Estados Unidos e França.

Por causa de um passado histórico de estreitas ligações com a Suécia, muitos finlandeses falam o idioma sueco. Desta maneira, os quadrinhos deste país têm livre acesso por toda a Finlândia.

AS HQs DO PAÍS DO SOL DA MEIA-NOITE

Nils Holgersson, quadrinho sueco de grande sucesso
Devido à semelhança entre os idiomas, os países nórdicos costumam "importar" os quadrinhos de seus vizinhos. A revista sueca Nils Holgersson, por exemplo, é um dos maiores sucessos do gênero na Noruega. Na capa acima, vemos uma versão traduzida para o holandês
Uma das maiores rendas per capita do mundo, país dos vales profundos e lagos glaciais, a Suécia teve suas primeiras referências feitas pelo historiador romano Tácito, no ano 98 da nossa era, dizendo que os suiones tinham uma frota poderosa, um exército de guerreiros audazes e eram governados por um monarca absolutista.

Contudo, é no período viking, nos séculos IX a XII que os suecos estenderam sua influência através da Rússia, até o Mar Negro, unindo-se aos dinamarqueses e noruegueses em incursões pela Europa Ocidental até as Ilhas Britânicas.

A Suécia continuou sendo um país poderoso e expansionista até inícios do século XX, quando resolve voltar-se para si mesmo e constituir-se em um dos países neutros mais prósperos do mundo; e de melhor qualidade de vida para seus habitantes. Estes, como os outros escandinavos, estão entre os cidadãos que lêem mais livros e, desta maneira, o consumo de quadrinhos acompanha esta tendência. O iniciador do quadrinho sueco é Oskar Andersson (1877) com o longo título: Viagem ao Redor do Mundo com os Irmãos Napoleon e Bartholomeus Lund de Gronkopnig. Sua história mais famosa, porém, foi O homem que faz tudo o que lhe passa pela cabeça.

Johan Vild: revista sueca traduzida para o dinamarquês
Outro exemplo do intercâmbio entre os países nórdicos: o álbum Johan Vild, da dupla Janne Lundström e Jaime Vallvé, traduzido para o dinamarquês
Há, ainda, outros nomes de pioneiros como Oscar Jacobsson, com seu personagem Adamsson, história das peripécias de um homem que vive com um charuto na boca. Também devem ser mencionados Ruben Lundquist com Herr Knatt, um homem que vive correndo atrás de seu chapéu, e Torvaldl Gahlin, com seu Klotjohan, o primeiro anti-herói sueco.

Na Suécia, como em outros países escandinavos, o mercado interno foi prejudicado pela importação dos quadrinhos americanos, desde o início do século até os anos 1960. Depois foram os belgas e franceses que mais influência exerceram sobre os suecos. No entanto, uma forma de valorizar o produto nacional foi a fundação de duas sociedades de quadrinhos, no final da década de 1960. Além disso, para atrair o público sobre a importância dos quadrinhos, foi construído em museu de HQs em 1976, na cidade de Gotemburgo, no grande parque de Liseberg.

Entre os autores mais conhecidos figuram Rolf Gohs (Mystiska 2-an), Knud Larsen (Dr. Merlin) e Jan Lööf (Bellman e Ville).

Quem sabe se no próximo inverno, quando o sol não vai aparecer por muitos meses, virão do antigo reino dos vikings. Isto porque, neste momento, os escandinavos estão todos fora de casa, velejando, passeando pelos fiordes, florestas, lendo quadrinhos e esperando para ver o sol da meia-noite neste verão.

Os Três Homenzinhos
Nota do UHQ: Slut, em dinamarquês, significa "Fim"
















Sonia M. Bibe Luyten é a autora dos livros: O que é Histórias em Quadrinhos, Histórias em Quadrinhos - leitura crítica e Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses. Sua coleção, com revistas de países do mundo inteiro, é de deixar qualquer um maluco. Mas o melhor, mesmo, é que, mensalmente, ela vai estar passando um pouco desse seu conhecimento pros leitores do Universo HQ.



Saiba mais sobre a autora:
Sonia M. Bibe Luyten

 
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