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Última atualização: 16/02/12       

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Quadrinhos em tagálog nas Ilhas Filipinas


Por Sonia M. Bibe Luyten

Astro Komiks
A Astro Komiks é uma típica revista para meninos, com histórias de violência, lutas e seqüestros
A República das Filipinas possui uma grande tradição de intelectualismo, marcada por um humor mordaz no qual ninguém é poupado. Ridicularizam-se os de dentro e os de fora. Há uma longa e vigorosa seqüência de charges, cartuns e quadrinhos que lá são chamados de komiks. Isto tem muito a ver com a história do país, que é bastante conturbada e que a torna muito interessante.

As Filipinas são constituídas por quase sete mil ilhas situadas no Oceano Pacífico, ao sul de Taiwan e ao norte da Indonésia. Sua capital é Manila e no país se falam cerca de 988 línguas, sendo as principais o inglês e o tagálog (idioma da região de Manila).

O país foi descoberto pelo navegador português Magalhães, que estava dando a primeira volta ao mundo a serviço da Espanha. A viagem para ele terminou ali mesmo, na ilha de Cebu, onde foi morto por um habitante local. O arquipélago foi denominado Ilhas Filipinas, em honra ao rei Felipe II que, na época também detinha a coroa de Portugal. Portanto, igualmente governava o Brasil.

Aliwan Komiks
Aliwan Komiks, revista com histórias de amor e mistério, um gênero muito popular nas Filipinas
Os espanhóis dominaram o país até o final do século XIX, quando entregaram sua colônia aos Estados Unidos. Deixaram como grande legado a religião católica, além de nomes espanhóis para quase todos os habitantes e uma pobreza ímpar, que rivalizava com qualquer país latino-americano. Em 1892, com a Guerra Hispano-Americana, passaram a ser colônia dos Estados Unidos.

Durante a primeira metade do século XX, os colonialistas norte-americanos não se mostraram muito melhores. A emancipação veio após quase um século de guerrilhas: primeiramente contra os espanhóis, depois os ianques e, em seguida contra a ocupação japonesa e mais uma vez contra os norte-americanos.

People's Power Komiks
Nesta edição da People's Power a história era baseada numa das muitas guerrilhas vividas pelo País, com direito a fotos das batalhas mescladas aos quadrinhos
A independência, obtida em 1946, tampouco trouxe muitos benefícios para os filipinos. Corrupção e golpes de estado continuaram pelos anos afora. Todos se lembram do ditador Marcos e sua mulher Imelda (a dos 20 mil pares de sapatos). Atualmente, o país continua em crise, políticos são derrubados e acusados de corrupção e há luta armada nas ilhas do sul, que são habitadas por uma minoria muçulmana que deseja autonomia. Apesar de possuir uma excelente rede de escolas e universidades, há poucas oportunidades de emprego e a emigração é muitas vezes a opção preferida.

Estive por duas vezes nas Filipinas e pude ver in loco a produção de quadrinhos, falar com alguns artistas e apreciar a evolução de seu histórico, que vem desde o século XIX. É um dos países da Ásia com uma longa tradição na arte dos komiks, que pode ser explicada primeiramente pelo exercício de uma democracia do tipo ocidental (com exceção do período do ditador Marcos), que permitia o ataque ferino aos costumes e políticos. Além disso, por ter sido colônia dos Estados Unidos por quase cinco décadas, adotou também as características da mídia norte-americana de publicar tiras nos jornais e revistas de HQ.

O Macaco e a Tartaruga
Trecho de O Macaco e a Tartaruga, do Dr. José Rizal, o precursor da luta pela independência e iniciador da produção de quadrinhos
O iniciador da produção de quadrinhos foi alguém muito especial: Dr. José Rizal, o precursor da luta pela independência. Em 1886, com 25 anos, durante uma visita à Espanha, ele publicou uma história ilustrada chamada O Macaco e a Tartaruga.

No início do século XX houve várias publicações de cartuns, mas elas se centralizavam em posicionamentos políticos. A eclosão verdadeira dos komiks, entretanto, deu-se em 1926, quando Antonio S. Velasquez, começou a ilustrar partituras musicais dos grandes compositores filipinos da época, à maneira dos desenhos de HQs.

Tony Velasquez e Kenkoy
Antonio Velasquez, o maior quadrinhista das Filipinas, ao lado de Kenkoy, sua principal criação
Dois anos depois, juntamente com o roteirista Ramos, criou Kenskoy (apelido derivado de Francisco, equivalente ao nosso "Chico") para a revista Liwayway . O personagem tornou-se o ídolo número um dos filipinos e a série Mga Kabalbalan ni Kenkoy foi logo traduzida para mais outros cinco idiomas do país.

E o sucesso tornou-se ainda maior com o advento de uma companheira chamada Ponyang Halobaybay. As roupas desenhadas para esta heroína logo se tornaram ditames de moda para todo o país. Ramos, infelizmente, faleceu em 1932 e Velasquez continuou a história mesmo durante a ocupação japonesa na II Guerra Mundial.

As histórias em quadrinhos filipinas, entretanto, não pararam de evoluir. Além da continuidade da revista Liwayway, surgiram inúmeros novos desenhistas motivados, especialmente, pelas produções americanas trazidas pelos soldados ianques.

Halakhak
Halakhak, a primeira revista considerada verdadeiramente filipina
A influência norte-americana se faz sentir até hoje, assim como - por que não confessar - aconteceu no Brasil. Aqui e lá, porém, os artistas locais souberam dar aos quadrinhos locais motivos e personagens de cunho nacional, naturalmente, com o merecido sucesso. Logo foi criada a primeira revista considerada verdadeiramente filipina, e chamava-se Halakhak que significa "Riso".

Em 1947, o editor Don Ramon Roces, juntamente com Antonio Velasquez, fundou a Ace Publications, com a finalidade principal de produzir revistas de HQ. O carro-chefe chamou-se Pilipino Komiks e passou a ser vendido por apenas 25 centavos o exemplar. Começou-se com 10 mil cópias que logo alcançaram a tiragem de 120 mil, em 1961.

Pilipino Funny Komiks
Na língua filipina como não se usa o "f", por isso a grafia é com "p", como pode ser visto na capa da fica Pilipino Komiks
Logo em seguida, uma legião de bons desenhistas iam conquistando sua parcela de público. Entre outras publicações, surgiram: Lukas Malakas, por José Zabala Santos; DI-13, por Damian Velasquez e Jesse Santos; Ang Kalabog, por Larry Alcala; Princesa Urduha, por Vicente Manansala; e muitíssimas outras publicações e artistas.

Antonio Velasquez aposentou-se em 1972, mas continuou por diversos anos como produtor independente e como líder natural em congressos e reuniões de desenhistas dentro e fora das Filipinas.

Naturalmente, os quadrinhos filipinos sempre se enquadraram no espírito e nos anseios do público a que atendiam. Por isso, eles são fundamentalmente diferentes das produções americanas e européias, assim como das poderosas influências dos mangás japoneses.

A partir dos anos 80, nota-se uma mudança de comportamento em relação aos quadrinhos. Eles se tornam um pouco mais "audazes", mas continuam puritanos sob nosso ponto de vista. Foram publicados alguns livros sobre os Komiks, alguns estudiosos passaram a dar atenção ao tópico e o próprio governo começou a perceber que as HQs poderiam ser utilizadas em campanhas institucionais.

Tapusan Komiks
Os temas de amor refletem o caráter do povo, emotivo por natureza, como na Tapusan Komiks
Através dos komiks podemos traçar uma linha certeira do modo de vida dos filipinos, de seus anseios e frustrações, dos sonhos coletivos e, principalmente, de sua herança cultural malaia e asiática. Soma-se a isso um profundo espírito religioso cristão, respeitado mesmo pelos artistas não confessionais. Uma dessas características, por exemplo, é a apresentação de uma vida familiar. Não há nos komiks, "tios e sobrinhos", "namoradas eternamente solteiras", "heróis de vida secreta e isolada".

O poder dos quadrinhos filipinos concentra-se exatamente na possibilidade de uma vida social "normal", pelo menos da maioria dos personagens. Por isso mesmo, as HQs filipinas são, muitas vezes, consideradas recatadas pelos estudiosos estrangeiros. Elas se parecem muito com Archie, dos anos 60, nos Estados Unidos.

Um dos gêneros mais apreciados são as histórias fantásticas, que iniciaram-se na década de 1950 e muitos autores até hoje seguem esta linha. São baseadas em antigas lendas e mitos, personagens com três cabeças, mulheres com corpo de cavalo, fantasmas e outras fantasias advindas do inconsciente coletivo malaio. Nestas aventuras, os heróis enfrentam coisas insuperáveis como gigantes, encantadores de cobras, mágicos etc.

Universal Komiks
Universal Komiks, uma típica revista das love stories, de amor romântico
As histórias de amor e drama também têm um papel importante na trama, pois os próprios filipinos se identificam muito com este segmento, por se considerarem pessoas "muito emotivas". Nesta linha, a oposição entre o bem e o mal é o ingrediente básico do romance. O herói ou a heroína estão sempre a favor dos pobres, refletindo bem a realidade do país. Eles são caracterizados por pessoas de bom coração e ótima índole, que estão constantemente em luta contra os ricos arrogantes e criminosos.

Alguns estudiosos filipinos dizem que os komiks são uma válvula de escape, mas um escape que faz o leitor voltar à realidade. No enredo, as várias lutas que culminam com a vitória dos heróis e heroínas refletem bem o que existe na vida real das Filipinas. E ajudam o público a ver um sentido em suas vidas.

Que maravilha se, no Brasil, a produção nacional se inspirasse nisso...

Despeço-me com as palavras em tagálog, típicas dos finais dos komiks filipinos: abangan (esperem o próximo número), itutuloy (continua...), may karugtong (interligação com outras histórias) e, finalmente, wakas (fim).

Pogi
Na Pogi percebe-se a influência dos mangás, com a presença de ninjas
Top Special Stories Komiks
Uma história mesclando amor, mistério e aventura, na TSS Komiks




Sonia M. Bibe Luyten é a autora dos livros: O que é Histórias em Quadrinhos, Histórias em Quadrinhos - leitura crítica e Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses. Sua coleção, com revistas de países do mundo inteiro, é de deixar qualquer um maluco. Mas o melhor, mesmo, é que, mensalmente, ela vai estar passando um pouco desse seu conhecimento pros leitores do Universo HQ.



Saiba mais sobre a autora:
Sonia M. Bibe Luyten

 
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