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Quadrinhos em tagálog nas Ilhas Filipinas
Por Sonia M. Bibe Luyten
As Filipinas são constituídas por quase sete mil ilhas situadas no Oceano Pacífico, ao sul de Taiwan e ao norte da Indonésia. Sua capital é Manila e no país se falam cerca de 988 línguas, sendo as principais o inglês e o tagálog (idioma da região de Manila). O país foi descoberto pelo navegador português Magalhães, que estava dando a primeira volta ao mundo a serviço da Espanha. A viagem para ele terminou ali mesmo, na ilha de Cebu, onde foi morto por um habitante local. O arquipélago foi denominado Ilhas Filipinas, em honra ao rei Felipe II que, na época também detinha a coroa de Portugal. Portanto, igualmente governava o Brasil.
Durante a primeira metade do século XX, os colonialistas norte-americanos não se mostraram muito melhores. A emancipação veio após quase um século de guerrilhas: primeiramente contra os espanhóis, depois os ianques e, em seguida contra a ocupação japonesa e mais uma vez contra os norte-americanos.
Estive por duas vezes nas Filipinas e pude ver in loco a produção de quadrinhos, falar com alguns artistas e apreciar a evolução de seu histórico, que vem desde o século XIX. É um dos países da Ásia com uma longa tradição na arte dos komiks, que pode ser explicada primeiramente pelo exercício de uma democracia do tipo ocidental (com exceção do período do ditador Marcos), que permitia o ataque ferino aos costumes e políticos. Além disso, por ter sido colônia dos Estados Unidos por quase cinco décadas, adotou também as características da mídia norte-americana de publicar tiras nos jornais e revistas de HQ.
No início do século XX houve várias publicações de cartuns, mas elas se centralizavam em posicionamentos políticos. A eclosão verdadeira dos komiks, entretanto, deu-se em 1926, quando Antonio S. Velasquez, começou a ilustrar partituras musicais dos grandes compositores filipinos da época, à maneira dos desenhos de HQs.
E o sucesso tornou-se ainda maior com o advento de uma companheira chamada Ponyang Halobaybay. As roupas desenhadas para esta heroína logo se tornaram ditames de moda para todo o país. Ramos, infelizmente, faleceu em 1932 e Velasquez continuou a história mesmo durante a ocupação japonesa na II Guerra Mundial. As histórias em quadrinhos filipinas, entretanto, não pararam de evoluir. Além da continuidade da revista Liwayway, surgiram inúmeros novos desenhistas motivados, especialmente, pelas produções americanas trazidas pelos soldados ianques.
Em 1947, o editor Don Ramon Roces, juntamente com Antonio Velasquez, fundou a Ace Publications, com a finalidade principal de produzir revistas de HQ. O carro-chefe chamou-se Pilipino Komiks e passou a ser vendido por apenas 25 centavos o exemplar. Começou-se com 10 mil cópias que logo alcançaram a tiragem de 120 mil, em 1961.
Antonio Velasquez aposentou-se em 1972, mas continuou por diversos anos como produtor independente e como líder natural em congressos e reuniões de desenhistas dentro e fora das Filipinas. Naturalmente, os quadrinhos filipinos sempre se enquadraram no espírito e nos anseios do público a que atendiam. Por isso, eles são fundamentalmente diferentes das produções americanas e européias, assim como das poderosas influências dos mangás japoneses. A partir dos anos 80, nota-se uma mudança de comportamento em relação aos quadrinhos. Eles se tornam um pouco mais "audazes", mas continuam puritanos sob nosso ponto de vista. Foram publicados alguns livros sobre os Komiks, alguns estudiosos passaram a dar atenção ao tópico e o próprio governo começou a perceber que as HQs poderiam ser utilizadas em campanhas institucionais.
O poder dos quadrinhos filipinos concentra-se exatamente na possibilidade de uma vida social "normal", pelo menos da maioria dos personagens. Por isso mesmo, as HQs filipinas são, muitas vezes, consideradas recatadas pelos estudiosos estrangeiros. Elas se parecem muito com Archie, dos anos 60, nos Estados Unidos. Um dos gêneros mais apreciados são as histórias fantásticas, que iniciaram-se na década de 1950 e muitos autores até hoje seguem esta linha. São baseadas em antigas lendas e mitos, personagens com três cabeças, mulheres com corpo de cavalo, fantasmas e outras fantasias advindas do inconsciente coletivo malaio. Nestas aventuras, os heróis enfrentam coisas insuperáveis como gigantes, encantadores de cobras, mágicos etc.
Alguns estudiosos filipinos dizem que os komiks são uma válvula de escape, mas um escape que faz o leitor voltar à realidade. No enredo, as várias lutas que culminam com a vitória dos heróis e heroínas refletem bem o que existe na vida real das Filipinas. E ajudam o público a ver um sentido em suas vidas. Que maravilha se, no Brasil, a produção nacional se inspirasse nisso... Despeço-me com as palavras em tagálog, típicas dos finais dos komiks filipinos: abangan (esperem o próximo número), itutuloy (continua...), may karugtong (interligação com outras histórias) e, finalmente, wakas (fim).
Sonia M. Bibe Luyten é a autora dos livros: O que é Histórias em Quadrinhos, Histórias em Quadrinhos - leitura crítica e Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses. Sua coleção, com revistas de países do mundo inteiro, é de deixar qualquer um maluco. Mas o melhor, mesmo, é que, mensalmente, ela vai estar passando um pouco desse seu conhecimento pros leitores do Universo HQ. Saiba mais sobre a autora: Sonia M. Bibe Luyten |
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