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Última atualização: 09/02/10       

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Parte 1























































































































































Fierro
Revista Fierro

















Satirik
Satirik, um dos muitos títulos de humor argentino, da década de 1960

















La Maquina del Orgasmo
La Maquina del Orgasmo, de Langer e Rulloni

















Brasil Argentina
Brasil - Argentina, produção conjunta lançada nos anos 90


A surpreendente produção das historietas argentinas


Por Sonia M. Bibe Luyten

Mafalda
Mafalda, de Quino
As Histórias em Quadrinhos mostram bem a situação de separatismo cultural da América Latina. Somos vizinhos e mal nos conhecemos nesta convivência de 500 anos, desde que o colonizador colocou os pés no continente americano. Foi sempre a política de dividir para governar. Não se deve estranhar, portanto, o fato de que a maioria dos brasileiros conheça tão pouco as HQ argentinas.

Mas é o país de língua espanhola que mais se desenvolveu no campo das historietas (como lá são chamadas as HQs) e tem mantido, há décadas, uma liderança nesse mercado, exportando seus personagens para todo mundo.

Jose Luis Salinas
Jose Luis Salinas
Naturalmente, todos conhecem a Mafalda, de Quino, mas há outros nomes fortíssimos das HQ argentinas, como Guillermo Mordillo, Cisneros, José Luis Salinas e Lino Palacio. O próprio italiano Hugo Pratt trabalhou muitos anos em Buenos Aires, ao lado do não menos famoso Hector Oesterheld.

A Argentina tem uma longa e forte tradição de produção de arte seqüencial, a ponto de exportar muitas de suas histórias e diversos desenhistas. Uma outra característica das HQs platinas é um forte sentimento nacional, tanto dos produtores como dos leitores em geral.

Ao contrário do Brasil, por exemplo, há bem menos influência norte-americana e mais européia. Isso se deve ao fato de sempre ter havido muitos contatos com países europeus, como Itália e Espanha. Assim, surgiu uma preferência automática por produções destes países, em detrimento da influência norte-americana.

Sarrasqueta, tira de Manuel Redondo
Sarrasqueta, tira de Manuel Redondo
Embora as HQs se iniciem na Argentina já em 1898, com tiras na revista Caras y Caretas, de Bartolomé Mitre e José Alvarez, é Ramón Columba que solidifica a arte das histórias de aventuras com El Tony (1929). Daí em diante, este gênero tomaria conta do cenário argentino e mundial.

Em meados do século XIX, surgiram as publicações onde o grande público começou a ter contato com os quadrinhistas nacionais: El Museo Americano (1835), El Mosquito (1862), Don Quijote (1884) e, a partir de 1912, começam a aparecer em Caras y Caretas as primeiras tiras - Viruta y Chicharrón - com personagens fixos e balões que permaneceram por 20 anos. Foram tão famosos, que até apareceram em anúncios publicitários do vermute Carpano, em 1920. Com a aparição de PTB, em 1904, e Tit Bis, em 1909, as historietas tomaram vulto na Argentina.

El Negro Raúl
El Negro Raúl, de Arturo Lanterni
Outro personagem de sucesso foi El Negro Raúl (1916), de Arturo Lanterni, que representava as dificuldades de ascensão social por parte da camada pobre, neste caso, representada por um negro. Uma história muito moralista, mostrando que os pobres deveriam saber seu lugar na sociedade. O desenhista, produziu também inúmeras outras histórias, como Tijerita (1918); Anacleto, em 1924, na revista Mundo Argentino; Pequenas tragédias de la vida doméstica; Pancho Talero, um marinheiro submisso a sua mulher em El Hogar, bem ao estilo de Pafúncio e Marocas.

Patoruzú e o caráter nacional argentino

Patoruzú, no traço de Hernan
Patoruzú, em tira de 1939
O desenhista Dante Quinterno, famoso criador de Patoruzú, começou sua carreira enviando colaborações como leitor de Páginas de Columba e, em 1925, concebeu sua primeira história, Pan y Trucco, para a revista Suplemento. No ano seguinte, iniciou a publicação de Andanzas y desventuras de Manolo Quaranta, na Novela Semanal.

Entretanto, foi em 1928 que Dante Quinterno fez aparecer pela primeira vez em uma tira um índio da Patagônia muito forte, milionário e com um bom coração, chamado Patoruzú. Em 1931, o personagem já tinha sua própria tira; e em 1935 começou a ser publicado no El Mundo. Com isso, passou a revender a história para outros jornais e iniciou-se a primeira distribuidora argentina de historietas para os periódicos do país.

Loucuras de Isidoro
Loucuras de Isidoro, personagem secundário da revista Patoruzú, que acabou ganhano revista própria
Em 1936, Patoruzú estreou em revista própria, que se esgotou no primeiro dia de sua edição. A razão de seu sucesso era simples. Patoruzú é um personagem que personifica o caráter nacional argentino naquilo que ele tem de mais puro. É um índio legítimo, com virtudes gaúchas: a referência de origem é uma estância nas imensas terras patagônicas. É rico, porém bom, inocente, alegre, confiante, agindo segundo uma moral tradicional, com grande prazer em praticar o bem e a caridade.
Correrías de Patoruzito
Correrías de Patoruzito, revista que narra as aventuras de Patoruzú quando criança


Como índio, tem, contudo, um "padrinho", representado pelo personagem Isidoro, um fanfarrão, bon vivant, egoísta e mulherengo. Patoruzú até hoje é publicado na Argentina e distribuído para todos os países da América castelhana. Seus personagens secundários ganharam revistas próprias, como Locuras de Isidoro (o padrinho) e Patoruzito (a sua versão, quando era criança).


A época de ouro e os grandes expoentes: Salinas, Pratt, Breccia e Castillo

Rico Tipo
Rico Tipo, lançado por Divito, em 1944
Em meados da década de 1940, a publicação de três revistas inicia um nova era, que se prolongaria até os anos 60, com Rico Tipo (lançada em 1944, por Divito), Patoruzito e Intervalo, ambas de 1945, e Aventuras.

Foi uma época de tiragens extraordinárias (nos anos 50, a edição de quadrinhos atingiu 165 milhões de exemplares, representando a metade de tudo que se lia na Argentina) e de inovação: criou-se um syndicate argentino Surameris - que, em associação a Editorial Abril, foi encarregado de trazer para o país um grupo italiano de desenhistas.

A fórmula era a seguinte: publicavam-se histórias criadas na Itália, ao mesmo tempo em que desenhistas italianos produziam HQs que seriam lançadas em primeira mão em Buenos Aires e que, somente muito mais tarde, seriam reeditadas na Itália.

Hernán, El Corsário, tira de Jose Luis Salina
Hernán, El Corsário; tira de Jose Luis Salinas
Foi assim que roteiristas e desenhistas como Hugo Pratt, Alberto Ongaro, Mario Faustinelli, Ivo Pavone, Sergio Tarquinio e Guillermo Letteri vieram trabalhar em equipe com os argentinos.

Nesta época, as historietas argentinas também se fixaram com algumas peculiaridades próprias: 1) apesar do modelo norte-americano, delineia-se um estilo original e uma ideologia, principalmente com Hugo Pratt & Oesterheld e Mordillo; 2) desenvolve-se um vigoroso gênero humorístico, que dá lugar a várias tendências como o humor metafísico do desenhista Bataglia em Don Pascual, e o humor sociológico, como de Divito; 3) Outra característica do período foi o desenvolvimento e popularidade da historieta folclórica, cujo maior expoente é Ciocca, com Hormiga Negra (1950), Fuerte Argentino (1954) e Lindor Covas (1953).

José Luis Salinas, em 1938, põe em prática na Argentina um projeto ambicioso de adaptar romances de aventuras em quadrinhos. O resultado foram obras como Capitão Tormenta, Os Três Mosqueteiros , O Último dos Moicanos entre outros.

A geração dos anos 60

Cisco Kid, de Jose Luis salinas
Cisco Kid, álbum de Jose Luis Salinas
Em Buenos Aires foi criada, em 1956, uma escola dedicada somente às histórias em quadrinhos, com os nomes mais importantes da época como seus mestres: Hugo Pratt e Breccia. Foi a Escuela Panamericana de Arte que deu direção estética a muitos desenhistas da Argentina.

Ao mesmo tempo em que os anos 60 representaram uma crise, não só econômica, mas também de saturação e repetição de temas, aparecem duas novidades: Breccia, com Mort Cinder, que primava pelo roteiro renovador; e Quino, com sua famosíssima Mafalda.

Quino criou esta personagem por acaso, para uma agência de publicidade que queria um símbolo para uma campanha de eletrodomésticos. A partir de 1964, ela virou tira diária e se tornou a historieta argentina que mais traduções e edições obteve no mundo todo, até a década seguinte, quando seu autor, apesar dos protestos generalizados, decidiu interromper a voz infantil mais adulta do século XX.

As revistas de quadrinhos e humor

Revista Humor
Revista Humor
Mas a produção argentina de quadrinhos não se deteve à década de 1960. Entre outros grandes quadrinhistas que apareceram nas décadas seguintes, estão Fontanarrosa, com Inodoro Pereyra e Boogie El Aceitoso. Embora o período de ditadura militar não tenha ajudado muito na livre difusão de idéias (como ocorreu também no Brasil), continuou-se com a produção de aventuras, de adaptações de obras da literatura universal e, especialmente, pelas muitos anos, através do veio satírico, com as revistas Hortensia, Tia Vicentina, Fierro, Satirik, Humor Mundial e outras.

Um fator extraordinário na época da ditadura foi a quadrinização da vida de Che Guevara, com desenhos de Breccia. Mas o seu roteirista foi preso e morto; e os exemplares, todos queimados. Apenas um sobrou (estava enterrado no quintal) e, com sua reedição, todo o mundo pode conhecer esta obra didática sobre o famoso guerrilheiro.

Lápiz Japonés
Lápiz Japonés, uma obra-prima da historieta argentina
Como também aconteceu nos outros países latino-americanos, o fator sexo veio substituir o que não se podia publicar em contestação política e, ao final dos anos 80, temos exemplos como Humor-Sex Ilustrado. Nestas publicações aparecem nomes famosos como Tabaré, Reiser e Sergio Langer, com sua obra Lápiz Japonés, obra-prima da historieta argentina, com produções experimentais e de vanguarda até hoje.

Nos anos 90, superando a rivalidade futebolística, Brasil e Argentina lançam uma produção conjunta de quadrinhos e humor com os maiores nomes argentinos (Sábat, Christ, Fontanarrosa, Grondona, White, Tabaré, Daniel Paz e Rudi, Caloi, Nine, Ceo, Trinmano) e brasileiros (Millor, Ziraldo, Jaguar, Fortuna, Caulos, Loredano, Chico, Angeli , Laerte e Santiago), como um marco no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Atualmente, a produção de quadrinhos argentinos segue o destino econômico e social do país. A saída para seus talentosos artistas tem sido publicar nos mercados americano e europeu. Mas podemos ter a certeza de que basta uma oportunidade, por menor que seja, para que se acenda novamente a chama produtiva e vigorosa que sempre caracterizou a sua indústria de quadrinhos.

Da esquerda para a direita: Samir Naliato, Sidney Gusman, Sonia Luyten e Sérgio Codespoti
Sonia Luyten e a equipe do Universo HQ.
Da esquerda para a direita: Samir Naliato, Sidney Gusman, Sonia Luyten e Sérgio Codespoti


Sonia M. Bibe Luyten é a autora dos livros: O que é Histórias em Quadrinhos, Histórias em Quadrinhos - leitura crítica e Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses. Sua coleção, com revistas de países do mundo inteiro, é de deixar qualquer um maluco. Mas o melhor, mesmo, é que, mensalmente, ela vai estar passando um pouco desse seu conhecimento pros leitores do Universo HQ.



Saiba mais sobre a autora:
Sonia M. Bibe Luyten

 
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