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A surpreendente produção das historietas argentinas
Por Sonia M. Bibe Luyten
Mas é o país de língua espanhola que mais se desenvolveu no campo das historietas (como lá são chamadas as HQs) e tem mantido, há décadas, uma liderança nesse mercado, exportando seus personagens para todo mundo.
A Argentina tem uma longa e forte tradição de produção de arte seqüencial, a ponto de exportar muitas de suas histórias e diversos desenhistas. Uma outra característica das HQs platinas é um forte sentimento nacional, tanto dos produtores como dos leitores em geral. Ao contrário do Brasil, por exemplo, há bem menos influência norte-americana e mais européia. Isso se deve ao fato de sempre ter havido muitos contatos com países europeus, como Itália e Espanha. Assim, surgiu uma preferência automática por produções destes países, em detrimento da influência norte-americana.
Em meados do século XIX, surgiram as publicações onde o grande público começou a ter contato com os quadrinhistas nacionais: El Museo Americano (1835), El Mosquito (1862), Don Quijote (1884) e, a partir de 1912, começam a aparecer em Caras y Caretas as primeiras tiras - Viruta y Chicharrón - com personagens fixos e balões que permaneceram por 20 anos. Foram tão famosos, que até apareceram em anúncios publicitários do vermute Carpano, em 1920. Com a aparição de PTB, em 1904, e Tit Bis, em 1909, as historietas tomaram vulto na Argentina.
Patoruzú e o caráter nacional argentino
Entretanto, foi em 1928 que Dante Quinterno fez aparecer pela primeira vez em uma tira um índio da Patagônia muito forte, milionário e com um bom coração, chamado Patoruzú. Em 1931, o personagem já tinha sua própria tira; e em 1935 começou a ser publicado no El Mundo. Com isso, passou a revender a história para outros jornais e iniciou-se a primeira distribuidora argentina de historietas para os periódicos do país.
Como índio, tem, contudo, um "padrinho", representado pelo personagem Isidoro, um fanfarrão, bon vivant, egoísta e mulherengo. Patoruzú até hoje é publicado na Argentina e distribuído para todos os países da América castelhana. Seus personagens secundários ganharam revistas próprias, como Locuras de Isidoro (o padrinho) e Patoruzito (a sua versão, quando era criança). A época de ouro e os grandes expoentes: Salinas, Pratt, Breccia e Castillo
Foi uma época de tiragens extraordinárias (nos anos 50, a edição de quadrinhos atingiu 165 milhões de exemplares, representando a metade de tudo que se lia na Argentina) e de inovação: criou-se um syndicate argentino Surameris - que, em associação a Editorial Abril, foi encarregado de trazer para o país um grupo italiano de desenhistas. A fórmula era a seguinte: publicavam-se histórias criadas na Itália, ao mesmo tempo em que desenhistas italianos produziam HQs que seriam lançadas em primeira mão em Buenos Aires e que, somente muito mais tarde, seriam reeditadas na Itália.
Nesta época, as historietas argentinas também se fixaram com algumas peculiaridades próprias: 1) apesar do modelo norte-americano, delineia-se um estilo original e uma ideologia, principalmente com Hugo Pratt & Oesterheld e Mordillo; 2) desenvolve-se um vigoroso gênero humorístico, que dá lugar a várias tendências como o humor metafísico do desenhista Bataglia em Don Pascual, e o humor sociológico, como de Divito; 3) Outra característica do período foi o desenvolvimento e popularidade da historieta folclórica, cujo maior expoente é Ciocca, com Hormiga Negra (1950), Fuerte Argentino (1954) e Lindor Covas (1953). José Luis Salinas, em 1938, põe em prática na Argentina um projeto ambicioso de adaptar romances de aventuras em quadrinhos. O resultado foram obras como Capitão Tormenta, Os Três Mosqueteiros , O Último dos Moicanos entre outros. A geração dos anos 60
Ao mesmo tempo em que os anos 60 representaram uma crise, não só econômica, mas também de saturação e repetição de temas, aparecem duas novidades: Breccia, com Mort Cinder, que primava pelo roteiro renovador; e Quino, com sua famosíssima Mafalda. Quino criou esta personagem por acaso, para uma agência de publicidade que queria um símbolo para uma campanha de eletrodomésticos. A partir de 1964, ela virou tira diária e se tornou a historieta argentina que mais traduções e edições obteve no mundo todo, até a década seguinte, quando seu autor, apesar dos protestos generalizados, decidiu interromper a voz infantil mais adulta do século XX. As revistas de quadrinhos e humor
Um fator extraordinário na época da ditadura foi a quadrinização da vida de Che Guevara, com desenhos de Breccia. Mas o seu roteirista foi preso e morto; e os exemplares, todos queimados. Apenas um sobrou (estava enterrado no quintal) e, com sua reedição, todo o mundo pode conhecer esta obra didática sobre o famoso guerrilheiro.
Nos anos 90, superando a rivalidade futebolística, Brasil e Argentina lançam uma produção conjunta de quadrinhos e humor com os maiores nomes argentinos (Sábat, Christ, Fontanarrosa, Grondona, White, Tabaré, Daniel Paz e Rudi, Caloi, Nine, Ceo, Trinmano) e brasileiros (Millor, Ziraldo, Jaguar, Fortuna, Caulos, Loredano, Chico, Angeli , Laerte e Santiago), como um marco no Memorial da América Latina, em São Paulo. Atualmente, a produção de quadrinhos argentinos segue o destino econômico e social do país. A saída para seus talentosos artistas tem sido publicar nos mercados americano e europeu. Mas podemos ter a certeza de que basta uma oportunidade, por menor que seja, para que se acenda novamente a chama produtiva e vigorosa que sempre caracterizou a sua indústria de quadrinhos.
Sonia M. Bibe Luyten é a autora dos livros: O que é Histórias em Quadrinhos, Histórias em Quadrinhos - leitura crítica e Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses. Sua coleção, com revistas de países do mundo inteiro, é de deixar qualquer um maluco. Mas o melhor, mesmo, é que, mensalmente, ela vai estar passando um pouco desse seu conhecimento pros leitores do Universo HQ.
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