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Moinhos, tulipas e stripverhalen, os quadrinhos da Holanda
Por Sonia M. Bibe Luyten
Morando sete anos na Holanda, tive uma convivência bastante frutífera com seus artistas, mostras e festivais de quadrinhos. Dei conferências em vários eventos, e fui também curadora de uma exposição de quadrinhos brasileiros - O Amigo da Onça e mais 22 artistas atuais - na Bienal de Haarlem, em 1996. Ao contrário de seus vizinhos belgas ou dos ingleses e franceses, a Holanda foi mais vagarosa em desenvolver seus quadrinhos. Tanto em forma como em conteúdo. Até hoje, o carro-chefe dos HQ neerlandesas é Heer Bommel en Tom Poes (um urso e um gato), de Marten Toonder, que não tem balões, mas sim legendas de mais de 10 linhas sob os quadrinhos. Pode-se dizer que até a década de 1950, a maior parte dos quadrinhos holandeses não apresentava balões e, além disso, resumia-se à publicações através de jornais. Passado este período, contudo, os stripverhalen mostraram-se tão inovadores e ousados, que passaram a ser paradigmas na Europa.
O primeiro quadrinhista do país, Jan Linse, publicou seus trabalhos em 1874 em Roterdã, com legendas rimadas. Tratavam sempre de acontecimentos engraçados, no ambiente urbano da época. Já no século XX, começou a haver um cotejo de desenhistas holandeses com o que se passava especialmente nos Estados Unidos. Assim, o menino travesso Buster Brown, que no Brasil se tornou o Chiquinho, da revista Tico-Tico, na Holanda virou Sjors van de Rebellenclub (Jorginho do clube dos rebeldes, em português), que é publicada até hoje com bastante sucesso e as devidas adaptações. Uma característica interessante é que Sjors não mudou muito o visual durante décadas desde a sua primeira publicação (bem ao estilo de Buster Brown), mas seu companheiro negro, Sjimmie, sofreu drásticas mudanças: do estereotipado africano do início ficou mais ao estilo de cantor rap nos dias atuais. A partir de 1941, aparece Tom Poes (o Gato Tomás) e o altivo urso Heer Bommel (Senhor Trambolhão) do já citado Marten Toonder, também publicado até os dias atuais, e considerada a HQ mais apreciada pelo povo holandês.
Em 1946, aparece a história Eric de Norman (Érico, o normando), de Hans Kresse, com pouquíssimos balões e grandes legendas. Em compensação, o enredo era tão bem feito, que se sobressaía de uma influência de Príncipe Valente, de Hal Foster. Nesta época também o desenhista Henk Sprenger, já com pleno uso de balões, torna-se famoso com suas histórias sobre futebol, Kick Wilstra, nas quais juntou o tema aventura com uma vida familiar intensa dos personagens, obtendo, assim, um resultado de extremo realismo.
Na cidade de Enkhuizen, em plena área calvinista, um rapaz de 15 anos assassinou sua namorada, de 16, e, na casa de ambos, foram encontradas diversas revistas de HQs. E, claro, a culpa recaiu sobre a leitura dos gibis, iniciando uma campanha nacional contra a difusão e a leitura dos stripverhalen no país. A vanguarda revolucionária das décadas de 1960 e 70
A pacata cidade de Amsterdã passa a ser, depois dos anos 60, a capital mágica do mundo. Tudo que era proibido no resto na Europa começava a ser aceito na Holanda. A Bélgica e a França, apesar de suas conquistas na área das HQs, ainda eram muito bem comportadas com seus quadrinhos, como Asterix e Tintim. Nessa época, a juventude holandesa se divertia lendo Peter Pontiac, com sua pungente crítica social em estilo underground; e Dick Matena, com desenhos de belíssima execução e de conteúdo sexualmente arrojado para a época. A Editora Abril, em 1989, lançou a revista mensal Storm, com histórias de Matena em parceria com Don Lawrence, no formato das graphic novels da época, inaugurando a entrada de europeus no mercado tradicionalmente ocupado pelos americanos.
Dos anos 70 vêm duas revistas underground holandesas que influíram muito no gênero da Europa: Modern Papier e Tante Leny (Tia Leny). Joost Swarte foi o grande cérebro do grupo de artistas como Evert Gerards, Harry Buckink, Peter Pontiac, Aart Clerks e Marc Smeets. Outro revolucionário da década de 1960 foi Theo van den Boogaard, que escandalizou as classes conservadoras da Holanda com a história Ans em Hans (Aninha e Joãozinho), onde descreve (ou melhor, desenha) explicitamente o sexo entre adolescentes.
Sjef van Oekel é um personagem mau caráter, bem semelhante ao humor do Amigo da Onça, do brasileiro Péricles, só que muito mais cáustico. Na II Bienal Internacional de HQ do Rio de Janeiro, em 1993, a organização trouxe vários originais de artistas holandeses e belgas, e Theo van den Boogaard em pessoa. Um fato curioso durante sua permanência na cidade maravilhosa foi o convite do cantor Ed Motta para um encontro com o autor. Apesar de suas histórias nunca terem sido traduzidas para o português, Ed Motta sempre foi, e ainda é, fã do seu trabalho, através de leituras em outras línguas.
Outro personagem de sucesso na Holanda é Franka, de Henk Kuijpers, cujas HQs são publicadas periodicamente em álbuns pela Editora Big Ballon, uma das mais representativas do país. Revistas, livrarias especializadas, bienais e museus
Também data da década de 1960, o periódico StriptSchrift, especializado em HQs e que circula até hoje, sem interrupção. Essa revista, além de fazer matérias sobre o mercado internacional, valoriza em grande estilo os autores e personagens holandeses, criando uma memória nacional, muito importante para a credibilidade dos quadrinhos.
A cidade de Haarlem, a cada dois anos, transforma-se numa atração da Europa para a famosa stripdagen, com a badalada bienal de HQ, envolvendo toda a cidade e sua população para mostras, conferências, feiras e exposições. Como a cidade fica perto de Amsterdã, a curtição por parte dos jovens é muito maior do que, por exemplo, no Festival de Angoulème, na França. Até a banda de Robert Crumb, o ídolo do underground , circulou e tocou durante um dos Festivais de Haarlem.
Uma coleção de fanzines brasileiros também foi exposta para o deleite dos holandeses. Foi através desta mostra que os organizadores do Festival de Amadora, de Portugal, visitando a Bienal de Haarlem, entraram em contato com a produção brasileira de quadrinhos e, no ano seguinte... (veja a próxima Quadrinhos pelo Mundo para saber o que aconteceu, ok?)
A Holanda publica anualmente também um catálogo, Wordt Vervolgd, com todos seus artistas, publicações e editoras, que é considerado a bíblia dos quadrinhos neerlandeses. Portanto, além dos moinhos, tulipas e diques, a Holanda é, atualmente, um centro de referência internacional para quem quer saber de quadrinhos - ou melhor de stripverhalen.
Sonia M. Bibe Luyten é a autora dos livros: O que é Histórias em Quadrinhos, Histórias em Quadrinhos - leitura crítica e Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses. Sua coleção, com revistas de países do mundo inteiro, é de deixar qualquer um maluco. Mas o melhor, mesmo, é que, mensalmente, ela vai estar passando um pouco desse seu conhecimento pros leitores do Universo HQ.
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