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Histórias que não estavam no gibi
A antiga editora do Gibi Semanal, Sonia Hirsch, conta como era produzida a revista e as "mágicas" que eram feitas na adaptação das histórias, uma "aula de história" sobre o quadrinho no Brasil
Por Sonia Hirsch
Nunca pensei em trabalhar com histórias em quadrinhos, até o dia em que Paulo Patarra, assumindo a direção geral da Rio Gráfica Editora (hoje Editora Globo), me chamou. Preciso de você, ele disse. Mas não entendo nada de quadrinhos, respondi. Pois vai começar a entender, atalhou ele.
E foi assim que entrei numa grande aventura onde HQs eram os personagens principais. A sala transbordava de pranchetas, desenhistas, letristas, coloristas. Dali saíam Fantasma, Mandrake, Cavaleiro Negro, Recruta Zero, Riquinho, Bolota, Brotoeja e mais vinte e tantos títulos menos conhecidos.
Algumas revistas eram inteiramente desenhadas pelo pessoal da casa - Cavaleiro Negro, por exemplo, que vendia pouco e acabou logo, depois de ter sido um grande sucesso (diziam).
Outras, como Riquinho e similares, já vinham até com as provas de seleção de cores, era só traduzir e escrever nos balões. Mas a maioria era feita a partir de tirinhas diárias para publicação em jornal que ganhavam a chamada "completação", arte que, presumo eu, seja brasileira por excelência, já que seguia o princípio de "dar um jeito".
Isto porque a história original era desenhada para durar 2 a 3 meses no jornal, portanto se desenrolava ao longo de, digamos, 70 tirinhas, 6 por semana, e a de segunda-feira resumia um pouco o que estava acontecendo. Essas repetições eram as primeiras a sumir. Aí o leiautista começava a recortar os desenhos para formar quadrinhos de acordo com o formato da revista.
Na tirinha eles são menores, na revista tinham que crescer. Então, vamos supor que, no original, o Fantasma estivesse perto de uma janela; na revista, a tesoura o punha a um metro de distância, e tudo bem. Abria-se o quadrinho, completava-se com desenhos novos o cenário faltante, e pronto. Daí, às vezes, surgia um vaso, uma árvore, uma mesinha, um lustre, sempre tratando de acompanhar o estilo e o traço do autor.
A arte-final em papel couché era um misto de colagens com desenhos em nanquim. No final entravam os balões.
Fantasma, Mandrake, Recruta Zero seguiam esse esquema. O Recruta e as infantís também tinham histórias inteiramente escritas e desenhadas aqui, porque o material original era insuficiente para publicar 12 revistas por ano.
Meu trabalho era distribuir tarefas, contratar traduções, comprar roteiros, aprovar capas e heliográficas.
Gostava de conversar com Walmir, grande desenhista, ele próprio um herói de HQ com seus óculos escuros, cabelo grande, costeletas amplas e um fusquinha que não trocava por nada no mundo. Ah, e sandálias: não gostava de usar sapatos. Um dia me levou ao reino encantado da RGE: o arquivo. Ali me apresentou ao tesouro das histórias antigas, originais, publicadas pelo Gibi. Foi onde tivemos a idéia de fazer uma publicação semanal só com originais, o Gibi Semanal.
Não me lembro de detalhes como tiragens. Sei que algumas revistas vendiam tão pouco que mal se pagavam, e o encalhe era grande, mas continuavam circulando assim mesmo. Mandrake estava nesse caso. Outras, como Recruta Zero e Riquinho, davam algum dinheiro.
Por que o poderoso Roberto Marinho não acabava com as revistas em quadrinhos? Porque era grato a elas. Dizia que o tinham feito crescer, que com o lucro dos anos de ouro (creio que nas décadas de 40 e 50) ele comprou várias propriedades importantes.
Quando trabalhei lá, meu patrão era Roberto Irineu - que, por sorte, adorava HQ. Mandava-me para congressos, gostava dos europeus, chegamos a publicar Lucky Luke e Iznogud e ele até sugeria nomes engraçados para a tradução.
O Gibi foi o momento máximo da minha aventura lá. Eu continuava não entendendo grande coisa de HQ, mas curtia muito e contava com a boa vontade de todo mundo. O professor Alvaro de Moya me ajudou sempre, empolgado e dedicado, acho que nunca agradeci o suficiente.
Mas a distribuição e o marketing da RGE eram muito ruins. O Gibi Semanal não durou um ano. Lá pelo número 35 eu já estava tão frustrada que chorava pelos corredores, e foi aí que propus pararmos no 40.
Faria tudo de novo. Era gostoso ler quadrinhos o dia inteiro e conviver com toda aquela diversidade de traços e estilos, aprendendo a reconhecer qualidade, a limpar a linguagem para a frase caber no balão. Aprendi italiano traduzindo histórias do Fantasma produzidas na Itália. Muitas pessoas interessantes passaram por lá, escrevendo roteiros e traduções. Bolar capas era um prazer a mais.
E a história não pára. Quando já tinha me esquecido de tudo, vem o Universo HQ pedindo pra lembrar. Quadrinhos são eternos mesmo.
Sonia Hirsch é escritora e possui um site, o Corre Cotia. Trabalhou com HQs na década de 70 e foi a editora de várias revistas, como o Gibi Semanal, um valioso capítulo da história dos quadrinhos no Brasil. O Universo HQ agradece a sua colaboração e aproveita para prestar uma justa homenagem a essa valorosa profissional.
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