“Algodão doce pra você também, tio Azulay”

Por Marcus Ramone
Data: 28 março, 2020

Recordatório

Era o final dos anos 1970 quando conheci Daniel Azulay. Não pessoalmente – algo pelo qual guardarei uma eterna frustração -, mas por meio do programa apresentado por ele na TV Cultura, que marcou minha infância de uma forma talvez difícil de explicar, tamanha a intensidade.

Alguém já imaginou um programa de TV destinado ao público infantil, em que o apresentador falasse sobre Salvador Dali e a arte surrealista, explanasse sobre fatos históricos e tecnologia contemporânea e citasse frases de pensadores clássicos? Tudo isso usando como mote os desenhos à mão e as artes plásticas (na forma de brinquedos criados na hora e cuja matéria-prima era a sucata doméstica). Era isso e muito mais que Daniel Azulay oferecia diariamente durante toda sua carreira – que, mesmo fora da TV, continuou em canais alternativos, como Instagram e YouTube.

Desenhista, pintor, musicista, compositor e escultor, ele foi autodidata em todas as artes nas quais enveredou. Nascido no Rio de Janeiro no dia 30 de maio de 1947, seu primeiro trabalho com quadrinhos foi em 1967, com as tiras do personagem Capitão Sol, publicadas no meteórico tabloide O Sol, em sua cidade, e em 1968 com o Capitão Cipó, no periódico carioca Correio da Manhã. Sua mais famosa criação, a Turma do Lambe-Lambe (que chegou a estrelar uma série de discos de vinil), só debutou em 1975 – cinco anos depois, os personagens ganharam um título próprio pela Bloch Editores, com apenas quatro edições lançadas (eles reapareceram em 1982, pela Abril, alcançando 20 edições publicadas, e ainda houve um especial em 2015, pela Coquetel).

Mas foi mesmo graças à TV que Daniel Azulay conquistou seus fãs. Ele começou na TV Cultura, em 1975. Depois, seguiu para a TV Bandeirantes, na década de 1980, voltando à emissora – apenas na filial do Rio de Janeiro – em uma longa passagem, a partir de 1996. Voltou à TV Cultura em 2003, onde ficou até 2005, também participando do Canal Futura nesse período. Sempre com a Turma do Lambe-Lambe a tiracolo.

É preciso ressaltar que, essencialmente e além de tudo, Azulay foi um educador. Por sua contribuição à educação, ele recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Seus programas televisivos ensinavam e promoviam as artes, a educação em suas diversas acepções. Mensagens sobre sustentabilidade, cidadania, ecologia, o que houvesse de positivo para a formação das crianças estava lá. Ancorado por um apresentador carismático, simpático, com cara de menino alegre bobão, e visual, jeitos e trejeitos que carregavam uma identificação imediata com as crianças. Não havia desenhos animados no programa, mas, mesmo assim, a criançada amava assistir, pois o próprio apresentadador era a grande atração.

Por isso, é fácil entender a razão pela qual Daniel Azulay fez mais sucesso do que seus personagens. E ele nunca mudou aquelas características que mencionei acima. Voltei a acompanhá-lo nos primórdios da internet, logo que procurei e descobri seu site. E lá estava ele, nas fotos recentes de então, do mesmo jeito que era tanto tempo antes. Até a voz melódica e agradável, o cabelo despenteado, além daquela alegria nos olhos, com um sorriso infantil que nem o peso da idade conseguia modificar, física e espiritualmente falando. E com disposição para continuar se engajando em causas sociais diversas, Brasil afora. Meu ídolo não envelhecia – em nenhum sentido da palavra -, assim como deveria ser com todos os nossos ídolos de infância.

No entanto, ele se foi para sempre no dia 27 de março de 2020. Faleceu ainda criança. Não pela idade de 72 anos, que tinha naquela data. Mas porque nunca deixou de sê-lo em sua alma.

De segunda a sexta-feira, lá na década de 1970, ao final do programa da TV Cultura, após ouvir a famosa saudação de despedida do artista, dita enquanto ele prendia o lóbulo da orelha com os dedos polegar e indicador, eu sempre respondia de volta, em alto e bom som. E agora, ao final deste texto, que escrevo com tanto pesar, repetirei pela última vez aquelas mesmas palavras: “Algodão doce pra você também, tio Azulay.”

• Outros artigos escritos por

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  • Daniel Saks

    Insubstituível! No passado e para sempre.

  • Stephan

    Bela e justíssima homenagem a quem sempre nos fez sorrir. Daniel Azulay, direta e indiretamente, ajudou na formação de muitos artistas profissionais de hoje. Vá em paz, Grande Mestre!

  • Marcello S. Nicola

    Algodão doce! :-(

  • Sérgio Ricardo Tarcitano

    Que Deus o receba em seus braços, pois foi um exemplo para uma geração de crianças, com seu programa infantil, sua simplicidade sem estrelismos e só nos ensinando coisas boas, o que não vemos hoje em nenhum programa infantil na TV.

  • Dyel Dimmestri

    2020, com certeza, está se revelando um anozinho MISERÁVEL!!
    Já não bastava o Coronga e outras barbaridades ditas por alguns aí, que nem é bom comentar, ainda tem mais essa! Sem contar, é claro, a morte do Uderzo.
    Eu digo,com muito orgulho, que foram dois grandes artistas, e brasileiros, que fique bem lembrado,que me estimularam a pegar num lápis e sair pela vida desenhando: Maurício De Souza e Daniel Azulay!
    Que Deus o Tenha… E muito obrigado pelo Algodão – Doce!

    • Wies e thal

      Juan Padron também nos deixou esse ano

  • Alvaro

    Conheci Daniel Azulay da mesma maneira, acho que na Band, no início dos anos 80.. Gostava muito da Turma do Lambe-Lambe e, tanto quanto, do Azulay. É uma perda muito grande. É também um educador e artista que precisa ser resgatado e sempre lembrado. Não pela sua morte, mas, principalmente, pela sua obra.

    • Marcus Ramone

      Sim! Os ensinamentos – artísticos, culturais e humanitários – de Daniel Azulay – não podem ser esquecidos jamais.

  • Wies e thal

    Algodão doce pra você ê

  • Ontem na cama, lutando para dormir eu reparei o quanto é simbólica a morte do Azulay neste momento.
    Ele é um símbolo tanto em vida pela sua atividade e em morte pois ele estourou a bolha nerd. Não dá mais para esconder!
    A última aula do mestre Azulay foi essa.

  • Que Deus o tenha em bom lugar. Eu sempre disse e continuo repetindo: No Brasil, Azulay marcou muito mais a minha infância, ao lado do ”Balão Magico”, do que Mauricio de Souza, Monteiro Lobato ou Xuxa. Era um ótimo programa infantil apresentado por uma pessoa do BEM; Sentiremos saudades, Daniel. :(

  • Adriano Leonardo Ribeiro Lima

    Além de tudo o que esse site representa para o fã de Quadrinhos brasileiro esse tipo de postagem é fundamental para nossa bagagem e memória cultural. Inesquecíveis momentos e alegrias com Daniel Azulay! No céu de nossas memórias e nas nuvens de Algodão doce pra todos que reverenciaram essa despedida!

  • Linda homenagem Ramone… Era meu sonho de conhecê-lo ainda em vida… Mas não deu

  • O Daniel foi meu professor pra vida e sempre lembrava dele. Se eu sou alguma algém na vida, foi o Daniel que me instruiu.

  • VAM!

    O alegre Azulay, se foi e com isso o Mundo ficou menos colorido.

  • Rodrigo Costa

    Também fui incentivado durante a infância pelo grande Daniel Azulay a desenhar e ler quadrinhos, hobby que retomei há alguns anos. Hoje sou pai de um casal, um menino de três anos e uma menina de 1 mês de vida. Como gostaria de uma figura como Daniel Azulay para inspirar essa criançada de hoje.
    Linda homenagem de Marcus Ramone, texto lindo comparável a trajetória desse artista mas sobretudo educador. Algodão doce para Daniel Azulay, Ramone e todos os fãs desse grande artista!