Marvel, DC e a crise econômica mundial

Por Marcus Ramone
Data: 12 novembro, 2008


As duas maiores editoras de quadrinhos do planeta deveriam tirar algumas lições da crise econômica que está atingindo o mundo.

A profusão de créditos imobiliários ofertados nos Estados Unidos sem critério, com juros altos e a qualquer um que o solicitasse foi transformada em títulos ao portador cujos devedores, em grande parte, não puderam honrar o pagamento das dívidas.

O resultado foram os chamados títulos podres circulando aos borbotões pelo mercado, culminando nessa crise financeira internacional que afeta desde o investidor da Bolsa de Valores ao dono da bodega da esquina.

Em analogia, Marvel e DC também têm seus “títulos podres”, aqueles lançados à exaustão na forma das grandes sagas que duram meses e forçam os leitores a comprar praticamente tudo (geralmente, até as revistas que não colecionam) para acompanhá-las, via de regra com histórias que levam nada a lugar nenhum e mais enfurecem do que divertem.

Chega o limite no qual os leitores não querem ou não conseguem mais alimentar essa prática das editoras e simplesmente param de comprar.

Ainda no terreno das comparações, Marvel e DC poderiam fazer como os governos de muitos países e lançar algum tipo de “pacote” para superar essa e outras crises vindouras, incluindo as de criatividade.

Talvez dando um basta às grandes sagas que limitam vários artistas de HQs diferentes a criar em torno de um único tema; ou, então, acabando com os títulos interligados; quem sabe até parando de chafurdar o passado dos personagens em busca de elementos que contaminam o presente com péssimos roteiros.

E que tal fazer apenas boas histórias, melhor ainda se forem fechadas? E lançar menos títulos caça-níqueis (ou “caça-trouxas”, como dizem alguns)?

O problema é que os figurões das editoras parecem não pensar assim. Há duas semanas, em entrevista concedida ao site Newsarama, o editor-chefe da Marvel Joe Quesada anunciou o lançamento de um novo título do Justiceiro.

Questionado sobre se os leitores estarão dispostos a bancar mais uma revista mensal, já que os preços estão subindo, Quesada saiu com esta: “Nossos fãs são vorazes. Eles farão tudo que puderem para superar as dificuldades”.

Quesada também lançou mão de uma máxima que, de acordo com ele, circulava na indústria de HQs e segundo a qual “muitos criadores e editores de quadrinhos dão o melhor de si durante os tempos de dureza econômica”. Se é com frases de efeito desse tipo que a “Casa das Idéias” está se blindando contra essa crise mundial, não posso esperar bons ventos soprando tão cedo.

Editoras pequenas dos Estados Unidos já aumentaram o preço dos gibis de US$ 2.99 (menor valor das publicações de super-heróis com o número padrão de 22 páginas de quadrinhos) para US$ 3.50 ou US$ 3.99. Embora Marvel e DC estejam segurando a majoração na maioria dos títulos de linha, os lançamentos especiais e minisséries já vêm chegando inflacionados às comic shops, como é o caso de Marvel Zombies 3, que encostou na casa dos quatro dólares.

Grandes livrarias norte-americanas já estão reduzindo a encomenda de quadrinhos; e os donos de comic shops ainda confiam nos gibis das majors, mas muito mais nas edições antigas e raras das duas editoras, com preços estratosféricos para colecionadores endinheirados ou investidores do mercado de colecionáveis.

Outro exemplo sintomático da crise aconteceu no Canadá. A desvalorização do dólar daquele país em relação ao dos Estados Unidos provocou um aumento de 15% no preço das revistas em quadrinhos da Marvel – as da DC deverão seguir o mesmo caminho ainda neste ano.

É claro que tudo isso é inevitável, diante do turbilhão financeiro que não tem data para se acalmar. O problema é insistir nos erros editoriais e acreditar que os leitores, indefinidamente, continuarão com um largo sorriso enquanto torturam o bolso para extrair até o último centavo, a fim de comprar revistas em quadrinhos que não valem tanto sacrifício ou os forçam a fazer “tudo que puderem para superar as dificuldades”, como acredita Joe Quesada.

Longe de querer ser um profeta dos maus augúrios, já estou aguardando a chegada desse “tsunami” ao Brasil. 2009 se avizinha com cheiro de aumento de preço nos gibis de super-heróis. Tremam, colecionadores!

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Marcus Ramone entende que depois de uma Guerra Civil
seria de se esperar uma Crise Infinita no mercado financeiro.

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