Os quadrinhistas mais importantes da (minha) história

Por Marcus Ramone
Data: 11 maio, 2015

Os quadrinhos já passaram dos 100 anos de idade e continuam em forma. Uma crise ali, um obstáculo acolá, mas, ainda assim, no mundo inteiro, movimentam milhões de fãs e cifras também milionárias, influenciando outras mídias, divertindo, emocionando, educando e afetando a sociedade.

Para chegar nesse estágio, a nona arte contou com a apaixonada ajuda de uma imensa legião de artistas. Eles são muitos, mas poucos foram tão importantes a ponto de reformular os quadrinhos, ditar conceitos e regras para essa mídia ou fazê-la se sobressair dentre as demais.

E eu, um inveterado fã de revistas em quadrinhos, transformei esses artistas em ídolos máximos dessa que é uma das grandes paixões da minha vida, graças à qual tive e tenho momentos de lazer, satisfação e terapia para o estresse do dia a dia – e que me fez abraçar a área do jornalismo dedicada aos quadrinhos.

Por isso, fiz uma lista daqueles quadrinhistas para os quais tenho que oferecer minha gratidão eterna. Pois sem suas obras, dificilmente meu amor pelos quadrinhos teria sobrevivido à transição da infância para a adolescência e ficado ainda mais forte na vida adulta.

Carl Barks (1901 – 2000), Estados Unidos:

Quem já não se perguntou o que seria dos quadrinhos Disney sem o Homem dos Patos?

Além de criar vários personagens – dentre eles o “quaquilionário” Tio Patinhas, um ícone da cultura popular que virou um sinônimo, neste caso o que define avareza -, o escritor e desenhista revolucionou as HQs Disney com narrativas visuais ousadas e um humor escrachado, mas também sutil e ácido, em aventuras cheias de referências históricas, geográficas ou mesmo ideológicas, que uniram crianças e adultos em uma grande fileira de fãs em vários países.

É um dos raros casos de artistas dos quadrinhos cuja genialidade não faz distinção do gênero no qual se destacaram. Ou seja, falar de Carl Barks não é só apontá-lo como o mais cultuado dos quadrinhistas da turma de Patópolis em todos os tempos, mas enquadrá-lo na galeria dos maiores gênios da nona arte.

Autor de mais de 500 histórias em quadrinhos, na quase totalidade delas atuando em todo o processo criativo (textos, desenhos e arte-final), Barks atingiu a celebridade, curiosamente, depois de se aposentar, em meados da década de 1960. Foi quando os fãs conheceram o dono daquelas histórias cujos roteiros e artes se destacavam dos demais publicados nos gibis da Disney – eu mesmo cresci sem saber que as histórias da Família Pato que mais gostava foram produzidas por ele.

Sua influência também atingiu autores fora do circuito infantil. E dentro da turma dos patos e de um certo camundongo orelhudo, inspirou muitas gerações de artistas que seguiam seu estilo de narração ou de traço.

O mais fiel seguidor de Barks é o norte-americano Keno Don Rosa, cuja obra é baseada no que seu inspirador produziu e, por isso mesmo, foi alçado à condição de mestre dos quadrinhos contemporâneos. Entrevistei Don Rosa para o Universo HQ, em 2004, e pude notar o brilho nos olhos do artista ao falar de seu ídolo.

Em vários países, como o Brasil, publicações especiais de luxo com as obras de Carl Barks não param de ser lançadas, perpetuando o legado do artista e ajudando as novas gerações de leitores a descobrir os quadrinhos Disney.

Carl BarksCarl Barks

Stan Lee (1922) e Jack Kirby (1917 – 1994), Estados Unidos:

Em parceria com outros quadrinhistas, Lee e Kirby criaram verdadeiros ícones dos quadrinhos, como o Homem-Aranha (meu super-herói preferido) e o Capitão América, respectivamente. Juntos, entretanto, não apenas conceberam para a Marvel Comics outra galeria de personagens que permanecem até hoje ativos no imaginário popular – Hulk e X-Men são alguns exemplos -, como também produziram histórias que fazem parte dos maiores clássicos da nona arte e os consagraram como uma das grandes duplas das HQs.

As razões para o casamento perfeito entre os dois são fáceis de ser explicadas. Basta saber o que, individualmente, eles “aprontaram” na indústria dos quadrinhos.

Lee é reconhecidamente o responsável pela transformação da “Casa das Ideias” no império multimídia da atualidade e seu nome se confunde com o da corporação. Ele também deu aos super-heróis a condição de humanos normais que os aproximaram dos leitores e que ditou regras ainda hoje seguidas no gênero. E apesar de sua idade avançada, condição que, comumente, tem resultado em ostracismo para a maioria dos quadrinhistas, continua colecionando aparições na mídia, recebendo prêmios diversos, homenagens e convites para escrever HQs (inclusive para a DC Comics), criando personagens e um reality show e até participando dos filmes baseados em suas criações.

Quanto a Kirby, artistas e leitores já convencionaram o usar o título “Rei” antes de seu nome. A inovação que ele promoveu graficamente nas HQs que produzia fez escola, influenciando as gerações seguintes de desenhistas. Ângulos cinematográficos, movimentos dinâmicos e uma mestria no desenho de máquinas são apenas algumas das características marcantes de suas obras publicadas na Marvel e na concorrente DC, para a qual também criou alguns personagens, como os Novos Deuses. Uma das atuais premiações concedidas pela indústria dos quadrinhos norte-americanos, o Kirby Awards, foi batizado em sua homenagem.

Stan LeeStan Lee
Jack KirbyJack Kirby

 

Mauricio de Sousa (1935), Brasil:

O quadrinhista brasileiro de maior sucesso e, dentre os artistas da nona arte do Brasil, o mais conhecido lá fora.

As aventuras de seus personagens já foram acompanhadas por milhões de crianças, jovens e adultos durante décadas e marcaram a infância de todo fã de quadrinhos no País. A Turma da Mônica não só é também conhecida por qualquer pessoa fora do círculo dos aficionados por gibis, como um de seus integrantes, o Cascão, já faz parte da cultura popular brasileira para comparar a ele quem não é afeito ao banho diário.

Ao lado da turma de Patópolis, os personagens de Mauricio de Sousa me iniciaram no mundo dos quadrinhos e continuam fazendo parte das minhas leituras mensais.

Uma das maiores alegrias da minha vida foi relatada em Mauricio de Sousa Produções: visitando a fábrica de sonhos, publicado no UHQ em 2009. E ainda tive a satisfação de prefaciar o segundo volume de As tiras clássicas da Turma da Mônica, em 2007.

E pensar que passei a infância sonhando em ver uma carta minha publicada em um gibi da Turma da Mônica, mas nunca realizei isso…

Mauricio de SousaMauricio de Sousa

Jerry Siegel (1914 – 1996) e Joe Shuster (1914 – 1992), Estados Unidos:

Simplesmente, eles criaram o primeiro super-herói dos quadrinhos. Mais do que isso, o personagem em questão se tornou um dos maiores fenômenos da cultura pop mundial, ganhou um emblema reconhecido de imediato até por quem não lê gibis e serviu de cópia e inspiração para muito do que surgiu nas HQs depois de 1938, ano de sua criação.

O Superman de Siegel e Shuster é hoje uma das marcas de maior valor comercial em todo o planeta e já movimentou bilhões de dólares desde que surgiu nas tiras de jornais. E vale ressaltar que, ainda no final da década de 1930, os autores venderam os direitos do Homem de Aço por apenas 200 dólares.

Eles deixaram de produzir as aventuras do herói em 1947. Somente em meados dos anos 1970 conseguiram vencer a longa batalha judicial contra a DC Comics por uma participação nos rendimentos da marca Superman. A partir daí, passaram a receber uma pensão da editora e viram seus nomes obrigatoriamente creditados em toda HQ do personagem.

Shuster já havia abandonado definitivamente os quadrinhos nos anos 1940. Siegel continuou criando outros personagens, sem alcançar sucesso, chegando a escrever histórias do Tio Patinhas para a Disney italiana.

Jerry Siegel e Joe ShusterJerry Siegel e Joe Shuster

Alan Moore Alan Moore (1953), Inglaterra:

Gênio moderno dos quadrinhos, Alan Moore escreveu obras como Watchmen, V de Vingança, A Liga Extraordinária e diversas outras nos gêneros super-herói, terror, fantasia, erotismo e mais, que em maior ou menor grau mudaram a forma de se fazer ou pensar quadrinhos.

Teorias científicas ou sociais, iconoclastia, ciência, História e muitos outros elementos fazem parte do caldo do “mago bardo” inglês, mestre da metalinguagem e referências literárias.

Premiado em vários países e cultuado como o divisor de águas nos quadrinhos de super-heróis, sua mais conhecida obra, em parceria com o desenhista Dave Gibbons, continua sendo a minissérie Watchmen, cuja destacada qualidade é cantada há mais de 20 anos e permanece influenciando as novas gerações de quadrinhistas.

Watchmen foi eleita pela revista norte-americana Time como um dos 100 mais importantes romances do século passado.

Alan MooreAlan Moore

René Goscinny (1926 – 1977) e Albert Uderzo (1927), França:

Goscinny e Uderzo criaram muitos personagens, como o impagável índio Umpa-pá.

Foi Asterix, entretanto, a série que fez da dupla uma das mais importantes para as HQs mundiais. No meu caso, o baixinho gaulês é responsável por ótimas recordações da infância, quando meu pai viajava a trabalho e trazia sempre uma edição dos álbuns do personagem, compartilhando comigo o prazer da leitura – ele continua fã de Asterix e foi quem me apresentou ao universo do herói da Gália Celta.

No livro Mauricio – Quadrinho a Quadrinho, escrito pelo jornalista Sidney Gusman e lançado em 2006 pela Editora Globo, o criador da Turma da Mônica apresentou uma descrição definitiva para o personagem e, por consequência, para a qualidade do trabalho de Goscinny e Uderzo. “Asterix é uma das coisas mais inteligentes surgidas nos quadrinhos. Eu sugiro suas histórias como um ritual de passagem do leitor mirim para o juvenil. É criativo, pesquisado, inteligente e satírico. Diversão garantida.”

Protagonista de versões para cinema e TV e com fãs nos mais diversos países, é um raro fenômeno pop nesse gênero. Os lançamento de seus últimos álbuns, por exemplo, resultou em enormes filas de espera nas lojas especializadas e várias ações de divulgação, como gigantescas pinturas de Asterix e Obelix nos aviões das SN Brussels Airlines, na Bélgica.

Poucos autores receberam condecorações de presidentes e reis pela qualidade de sua obra e significância para os quadrinhos. Goscinny e Uderzo estão nesse rol.

Albert Uderzo e Rene Goscinny

Neil Gaiman (1960), Inglaterra:

Quadrinhos reconhecidos como obra literária? Ganhando prêmios como o World Fantasy Award, nos Estados Unidos, nunca antes (nem depois) conferido a uma HQ?

Esses são apenas alguns dos feitos que Neil Gaiman alcançou com seu personagem mais conhecido: Sandman.

O autor foi alçado à categoria de celebridade no showbusiness e de “deus” entre os fãs de quadrinhos. Tudo porque as histórias (não apenas de Sandman) que concebeu foram fundamentais para a nona arte ser vista com olhos menos preconceituosos e mais admirados por quem não lia HQs.

Dentre dezenas de outros prêmios, Gaiman recebeu nada menos do que 15 Eisner Awards, a principal premiação dos quadrinhos nos Estados Unidos.

Neil GaimanNeil Gaiman

Mort Walker (1923), Estados Unidos:

Ele colecionou diversos prêmios, angariou admiradores em todos os continentes e sua mais famosa criação é atualmente lida, diariamente, por cerca de 200 milhões de pessoas em mais de 50 países.

Tudo isso porque ele deu de presente ao mundo o personagem Recruta Zero, um fenômeno de longevidade editorial, número de fãs e qualidade artística.

O humor inteligente, rápido, rasteiro e que envolve os mais diversos assuntos (política, religião, sexo, esporte, sociedade, comportamento humano, guerras, situações cotidianas ou o simples nonsense) nas tiras escritas por Walker – e ainda hoje sob sua supervisão, mesmo depois de abandonar o lápis – é uma característica latente de sua personalidade. Basta ver ou ler as muitas entrevistas concedidas pelo artista e se divertir com as tiradas impagáveis que fazem rir a todo instante, sem contar os depoimentos de amigos e parentes sobre o que ele “apronta” no dia a dia.

Walker sempre diz que possui 25 frases “engatilhadas”, em torno das quais sua mente encontra sempre uma variedade inesgotável de piadas prontas para serem usadas, seja em seu convívio social ou nas tiras de seus personagens – que inclui as séries A Arca dos Bichos (em que assina com seu verdadeiro nome, Addison) e Zezé & Cia.

Recruta Zero está na minha lista das dez melhores criações dos quadrinhos em todos os tempos. Em minha coleção, ele é o quinto personagem de que tenho mais gibis.

E assim agradeço a todos os artistas que produziram histórias em quadrinhos desde o início dessa grandiosa arte.

Mas os citados neste texto são os que têm um lugar de destaque neste meu fanático coração. Ainda que sempre haverá espaço para mais um.

Mort WalkerMort Walker

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    Lista é como bunda. Cada um tem a sua. Mas gostei muito da (lista) do Marcus.

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    John Byrne, o maior de todos os tempos, para mim!

  • Wally Oeste

    John Byrne, com toda a certeza!