Salve os quadrinhos nacionais!

Por Marcus Ramone
Data: 22 abril, 2009

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Apenas 20% dos livros vendidos no Brasil são de autores do País. É o que aponta um artigo do escritor Ataíde Lemos, publicado na semana passada no portal Centro de Mídia Independente.

O que surpreende nos motivos apontados pelo autor para esse número tão constrangedor é o fato de eles serem praticamente os mesmos que fazem da produção de quadrinhos brasileiros uma piada nos sentidos profissional e mercadológico.

Se na literatura brasileira há os escritores que bancam editorial e financeiramente suas obras e muitos deles não ganham nada além de ver seus livros citados em resenhas críticas (quando muito), nos quadrinhos o amadorismo e o diletantismo são algumas das principais pragas que levam a HQ nacional a um estado de letargia em que vale muito mais um punhado de fãs (ou bajuladores) do que a busca pela melhoria da qualidade dos trabalhos.

Começando pelos quadrinhistas: quem não quer produzir com dedicação, estudo e, principalmente, autocrítica, não tem o direito de reclamar da falta de espaço e apoio, muito menos pode “chorar” pela dificuldade de ganhar dinheiro com isso – se é que há muitos autores preocupados em transformar a coisa em profissão.

O que se vê é muito trabalho ruim, daqueles que nunca encontrarão uma editora disposta a publicar ao menos um exemplar. Bastava ao autor um pouco da autocrítica – ou aceitar os erros que outros apontam, sem responder com o velho chavão “Esse cara é contra os quadrinhos nacionais” -, para apresentar aos leitores (e a uma eventual publicadora) um material minimamente aceitável e vendável.

Hoje, há produções de quadrinhos nacionais como nunca houve em outros tempos. A diferença é que há também uma imensa parcela independente que quase não chega às bancas e, via de regra, é mal escrita – inclusive no sentido gramatical da expressão -, tem desenhos ruins e é pouco divulgada, com raras exceções.

Mas é no meio disso tudo que aparecem trabalhos excelentes, obras que merecem aplausos e destaque, pois é inegável que o Brasil foi e continua sendo um celeiro de grandes artistas do traço.

Também é aí que entra o leitor, em sua maioria tão preconceituoso que não quer ou não consegue separar o joio do trigo. “É nacional? Então não presta”, dizem muitos.

O complexo de vira-lata do brasileiro, já apagado em tantos segmentos, parece cada vez mais forte na área dos quadrinhos. “Qualquer porcaria produzida lá fora ainda é melhor do que as boas produções daqui”, já li em um fórum de discussão na internet.

Quanto às editoras de quadrinhos, parafraseando o que Ataíde Lemos disse sobre as publicadoras de livros, elas buscam lucro, não são entidades caça-talentos e lançam apenas produtos que tragam a certeza de um bom retorno financeiro.

É preciso conviver com isso. A despeito de como trabalham muitos quadrinhistas nacionais, as editoras são empresas que pensam profissionalmente.

Mas, dentre algumas soluções – nas quais pode ser incluída a simples procura por um bom material; afinal, há apostas em HQs estrangeiras desconhecidas por aqui que acabam se tornando bem-sucedidas comercialmente -, as editoras poderiam manter ou se associar a um estúdio para produzir seu próprio material, como o saudoso Estúdio Disney da Editora Abril.

Nesse aspecto, em vez de receber e na mesma hora refutar um trabalho já pronto, que por algum motivo não agradou, a editora poderia fazer o seu papel de editar, acompanhando todo o processo criativo. No fim, poderia até mesmo pensar em exportar suas produções.

A meu ver, qualquer fracassada tentativa anterior de fazer algo do tipo (como a Abril Comics, no final da década de 1990) não serve agora como motivo para engavetar novos projetos. É impressionante o que um pouco de coragem pode trazer de positivo a qualquer empreendimento.

Na seara da grande rede, existem sites e blogs especializados em quadrinhos brasileiros, em sua maioria dedicados apenas aos lançamentos independentes. São algumas das ferramentas pelas quais muitas HQs ganham uma divulgação mais ampla.

Só que, infelizmente, percebo um radicalismo que não leva a nada.

Primeiro, há uma tendência, em alguns desses sites, a levantar incômodas bandeiras xenófobas (contradizentes com a própria insistência de várias HQs, divulgadas ali, em emular super-heróis gringos). Depois, o exagero em enaltecer qualidades muitas vezes inexistentes, apenas por serem quadrinhos nacionais – tapinha nas costas e palavras bonitas são bons; mas, de vez em quando, apontar equívocos é o melhor incentivo para ajudar alguém a crescer em qualquer área da vida.

Considero um tiro no pé essa segmentação. Ora, se já é difícil divulgar essas HQs e diminuir o preconceito contra elas, qual o sentido de afastar os visitantes com assuntos restritos e ataques (explícitos ou não) endereçados a leitores que só curtem quadrinhos norte-americanos?

É claro que omiti ou me esqueci de expor e analisar muitos aspectos sobre o mercado de quadrinhos brasileiros e os elementos que o compõem, mesmo porque nunca foi minha intenção redigir uma tese acerca de um tema que envolve tantos “se”, “talvez”, “não é bem assim”, “você está errado” e “eu estou certo”.

Afinal, vale lembrar, faz quase 30 anos que as HQs mais vendidas no Brasil são brasileiras – as revistas da Turma da Mônica. Mas tem espaço para muito mais autores e suas criações no mercado.

Espero apenas que tomem forma debates nos quais pipoquem soluções e iniciativas que tragam ao título deste meu artigo um significado muito além do trocadilho suscitado por ele.

Marcus Ramone defende qualquer HQ nacional de boa qualidade, assim como faz cara feia para qualquer revista em quadrinhos estrangeira ruim.

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