10 PÃEZINHOS – O GIRASSOL E A LUA

Por Zé Oliboni
Data: 1 dezembro, 2008


Autores: Fábio Moon e Gabriel Bá (roteiro e arte).

Preço: R$ 26,00

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Fevereiro de 2000

Sinopse: Komarov era um músico que lavava uma vida normal até a
noite em que salvou uma garota de um velho misterioso que pretendia matá-la.
A partir de então, ele fez um inimigo que o perseguiria disposto a tomar
tudo que fizesse o jovem feliz.

Sem saber disso, Komarov continuava tentando iniciar um romance com Val,
que namorava um sujeito extremamente agressivo.

Positivo/Negativo: O Girassol e a Lua foi o primeiro álbum
dos gêmeos Moon e Bá por uma editora nacional. Na época, ainda pouco conhecidos,
foram chamando a atenção com o fanzine 10 Pãezinhos, no qual lançaram
esta história, de forma seriada.

10 PÃEZINHOS – O GIRASSOL E A LUA
A HQ depois recebeu um novo tratamento, um prefácio de Laerte e foi lançada
com um certo sucesso pela Via Lettera, abrindo caminho para diversas
outras publicações dos gêmeos. Com direito, inclusive, a uma segunda edição
do álbum com uma capa comemorativa, em 2007.

Algo interessante deste trabalho, principalmente ao relê-lo hoje, é notar
como os dois artistas evoluíram desde sua estréia.

De cara, chama a atenção a arte, dividida em dois tempos (presente e passado),
cada um desenhado por um irmão, em estilos distintos. Enquanto Fábio Moon
ainda se mostrava altamente influenciado pelo estilo da Image que
marcou muito os quadrinhos blockbusters dos anos 90, Gabriel Bá
seguia a influência de artistas mais alternativos, o que acabou deixando
o visual das suas páginas mais atraente que as do irmão.

Moon mostra um desenho bem executado, limpo, tecnicamente “ajustado”.
Contudo, é um traço que se encontrava às dúzias nos quadrinhos estadunidenses
publicados por aqui na época.

Enquanto isso, Bá criou o clima tenso de sua história com um desenho cheio
de estilizações, imperfeições, anguloso e com fortes contrastes de preto-e-branco.
Não que fosse algo inédito, longe disso, mas esse traço era típico de
grandes artistas da época, como Frank Miller e Mike Mignola, que se destacavam
justamente pelo visual mais alternativo.

Aliás, é impossível olhar para as páginas de Bá sem se lembrar do estilo
de Mike Mignola.

Vale dizer que, com o passar dos anos, o desenho dos irmãos evoluiu muito,
principalmente por pararem de tentar simular estilos alheios e criarem
um caminho próprio.

As influências de outros artistas continuam até hoje, mas isso é natural.
A diferença é que, em O Girassol e a Lua, eles pareciam se esforçar
para ser como outros desenhistas, o que tira muito da naturalidade e da
espontaneidade do traço.

O álbum também apresenta roteiristas bem diferentes dos atuais Bá e Moon,
principalmente na questão da temática. Quatro anos depois dessa estréia,
no álbum Crítica,
eles mesmo admitem a evolução de suas HQs de algo mais fantasioso e lúdico
para um caminho cotidiano e realista.

Muito diferente dos trabalhos mais recentes, esta é uma história com narrativa
policial, recorrendo, inclusive, ao recurso de flashbacks, fazendo
idas e vindas no tempo para aumentar o suspense. Mais do que isso, há
um personagem que, apesar de ser uma pessoa comum, se envolve em uma trama
maior, ganhado características de herói e aventureiro.

Komarov concentra diversos elementos típicos que, em outras mãos, poderiam
transformá-lo em um super-herói: ele salva uma menina que lhe dá um estranho
medalhão, ganha um arquiinimigo, parte em uma busca solitária por vingança,
entre outras coisas.

No lado oposto está o vilão, um velho que lembra um marinheiro e, simplesmente
porque foi afrontado por Komarov, passa a perturbar o rapaz.

Aliás, sobre o vilão, cabe a observação de que o visual dele foi baseado
no pintor Van Gogh. Nada mais justo, considerando que uma das principais
obras do artista retrata um vaso de girassóis.

Mas o melhor do álbum é que, por baixo de toda a roupagem policial e de
aventura, está uma história de amor tão bonita quanto triste. Komarov
é apaixonado por Val e se esforça para conquistá-la, mas quando está próximo
de tê-la se auto-impõe uma busca que vai afastá-lo da garota.

Na verdade, a grande sacada é justamente a que é representada na última
página, na forma de um conto de fadas. Afinal, mostra uma pessoa tão apaixonada,
tão disposta a fazer tudo por quem ama, que não percebe que a única coisa
a fazer era estar presente.

Talvez na época Bá e Moon ainda estivessem ligados aos super-heróis e
quisessem contar aventuras com um fundo diferente. Talvez estivessem tateando
até que ponto quadrinhos “românticos” seriam bem aceitos pelo público.
Independentemente disso, o resultado é interessante.

Por mais que fosse o começo de uma jornada e que os trabalhos posteriores
mostrem uma qualidade superior, O Girassol e a Lua tem o mérito
de ser atraente para o leitor tradicional de quadrinhos e por mostrar
que os gêmeos poderiam ir muito além. Como foram.

Classificação:

4,0

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