100 Balas – Volume 7 – A Sete Palmos

Por Liber Paz
Data: 2 abril, 2012

100 Balas - Volume 7 - A Sete PalmosEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Brian Azzarello (roteiro), Eduardo Risso (arte) e Patricia Mulvihill (cores) – Histórias originalmente publicadas nas edições # 37 a # 42 da série 100 Bullets, entre agosto de 2002 e abril de 2003.

Preço: R$ 18,90

Número de páginas: 144

Data de lançamentoOutubro de 2011

Sinopse

Seis histórias curtas sobre personagens já conhecidos dos leitores da série.

Por intenção acidental – Enquanto Graves e Shepherd tem uma conversa sobre seus próximos passos, Dizzy Cordova revisita seu bairro, suas amigas e tenta descobrir o que houve com a sua família.

Cole Burns torra o saco – Cole Burns tenta se reaproximar de sua ex-namorada e as coisas não dão certo. Um grupo de mascarados assalta um bar e as coisas também se complicam.

Ambição em avaliação – Augustus e Benício Medici, pai e filho, líderes do Cartel, passam uma tarde discutindo sobre responsabilidades, tomando sorvete e jogando dominó. Parece um programa familiar, mas está bem longe disso.

Noite do dia de pagamento – Lono recebe um serviço de Shepherd. Ao cumprir a missão, recebe uma traiçoeira recompensa.

Partilha – Graves tem uma reunião com três famílias do Cartel. Um casal testemunha um acidente de carro e deve tomar uma decisão eticamente questionável.

Batendo o ponto – Wilie, visto em ¡Contrabandolero!, recebe a visita do agente Graves e sua maleta com as 100 balas mágicas.

Positivo/Negativo

Greg Rucka, além de autor de quadrinhos que passou por personagens como Batman, Demolidor e Wolverine, também escreveu uma série de livros protagonizada pelo fictício guarda-costas Atticus Kodiak.

No texto de apresentação deste volume, Rucka afirma: “100 balas é pura literatura”.

Dentre elogios entusiasmados a Brian Azzarello e Eduardo Risso, Rucka ressalta como as seis histórias representam uma transição do primeiro para o segundo ato da grande trama que é 100 balas.

Isso é fato.

A obra de Azzarello se constrói a partir de episódios de 22 páginas, que são a média de uma revista em quadrinhos periódica norte-americana.

Com essas unidades de 22 páginas, o roteirista compõe os capítulos da obra e apresenta os diversos personagens e seus dramas.

Embora possam ser lidos separadamente, esses capítulos fazem muito mais sentido e proporcionam maior satisfação estética se apreciados em conjunto.

100 balas é uma obra coesa, que deve ser lida sem pressa e com atenção para se perceber as relações, as referências, os diálogos, os gestos dos personagens, que contam tanto quanto (ou até mais do que) as ações.

Muito da história contada por Azzarello está justamente naquilo que fica subentendido nas sutilezas desenhadas por Risso.

Por exemplo, em Ambição e avaliação, Augustus Medici conversa com seu filho Benito e lhe diz: “Você me lembra sua mãe”. Segue uma sequência de dois painéis.

No primeiro, vê-se Benito dizendo que lembra apenas do cheiro de sua mãe. A mão do pai se aproxima por trás de sua cabeça, num gesto de carinho.

No segundo painel, Benito diz que sua mãe cheirava a café. A mão de Augustus se retorce, mostrando contrariedade, frustração.

Nessa simples sequência, Azzarello e Risso apresentam todo o carinho e decepção que o Medici pai sente pelo filho.

Os seis episódios presentes na coletânea pretendem ser histórias curtas, fechadas e focadas em personagens já apresentados.

Entretanto, é difícil desconsiderá-las fora do todo. Todas apresentam desdobramentos e reflexões sobre os rumos que esses personagens tomaram e novas escolhas que eles têm de fazer.

Em Por intenção acidental, há um contraste interessante entre a antiga vida de Dizzy, representada nos discursos de suas amigas, e o sombrio diálogo entre Shepherd e Graves.

A primeira conversa acontece à luz do dia, as moças mostram seus filhos para Dizzy e falam sobre a dureza de sustentar a família que só cresce. Enquanto isso, num bar escuro e inalcançável pela luz do sol, Graves e Shepherd discutem sobre a guerra com o Cartel, as escolhas feitas até o momento e os próximos passos.

É interessante notar como a conversa das moças é clara e como suas histórias, talvez por serem um retrato da vida de diversas jovens de nossa realidade, parecem mais tocantes e verdadeiras do que as obscuras tramas de Shepherd e Graves.

Isso não significa que há pouca qualidade nos textos dos dois agentes, mas ressalta como a ficção extraordinária e complexa de estratégias e intrigas se mistura com retratos dolorosamente fiéis à miséria e violência da vida real.

Dizzy e Cole tentam reatar os laços com sua antiga vida, buscam por alguma estabilidade ou talvez alguma coisa parecida com um lar.

Augustus quase perde Benício em um atentado. Ter alguém com quem se importar é um ponto fraco que pode ser explorado pelo inimigo.

A solidão e a ausência de vínculos parecem ser o duro preço a pagar para ingressar no pequeno grupo do agente Graves. É significativa o último quadrinho de Partilha, no qual Graves olha para as “vidas insignificantes” refletidas na janela.

Novamente se ressalta a sutileza, não apenas das palavras e textos, mas também das imagens, dos gestos, dos olhares. O tipo de obra que explora muito bem as especificidades da linguagem dos quadrinhos.

Vale comentar também as artes de Dave Johnson, responsável pelas capas das edições originais. Cada ilustração criada por ele traduz visualmente os personagens da série de maneira belíssima.

100 balas é marcada pela crueldade e violência. Ainda assim, não é nas cenas de ação que a história se constrói, mas justamente nesses pequenos detalhes que podem passar despercebidos numa leitura apressada.

E A sete palmos está cheia de exemplos desse tipo de sutileza.

Classificação

4,5

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