32 Stories – The Complete Optic Nerve Mini-Comics

Por Paulo H. Cecconi
Data: 27 junho, 2014

32 Stories – The Complete Optic Nerve Mini-ComicsEditora: Drawn & Quarterly– Edição especial

Autores: Adrian Tomine (roteiro e arte).

Preço:US$ 19,95

Número de páginas: 104

Data de lançamento: Maio de 2012

Sinopse

Caixa com edições fac-similares das sete primeiras publicações do quadrinho independente Optic Nerve, por Adrian Tomine.

Positivo/Negativo

Quadrinhos autobiográficos atingem um nicho muito específico. O apelo comercial dessas histórias não é dos mais fortes (a não ser, claro, que seja o trabalho de alguém já sedimentado no mercado – nesse caso, o que vende não é o gênero sozinho, mas o nome do autor), pois não contam histórias com cores vibrantes, tramas épicas, Hércules e leviatãs.

Alguns exemplos do gênero giram em torno de eventos históricos, podem seguir uma linha documental / jornalística ou simplesmente contam a rotina diária de alguém. Esse último segmento possui um número ainda mais restrito de seguidores. Afinal, por que alguém vai querer ler sobre a rotina mundana de outra pessoa?

O estilo autobiográfico ganhou maior evidência entre os anos 1960 e 1970, especialmente no movimento underground norte-americano. Robert Crumb é um forte representante do gênero. Ele confessava suas perversões sexuais e expressava suas opiniões sobre o contexto social dos Estados Unidos se desenhando nos gibis e usando hipérboles (uma excelente ferramenta para o humor e críticas sociopolíticas) como tempero para as histórias.

Outro exemplo famoso é Maus, a famosa obra de Art Spiegelman sobre o holocausto e o relacionamentocom seu pai. Vale mencionar também Harvey Pekar, que teve suas histórias desenhadas pelo próprio Robert Crumb, e esparramava neuroses, hábitos e rotina sem muitos exageros.

Essas histórias, por serem de cunho extremamente pessoal, muitas vezes têm sua gênese no meio independente, sendo financiadas pelo próprio autor. O caso de 32 Stories – The Complete Optic Nerve Mini-Comics, de Adrian Tomine, não foi diferente.

O autor escrevia, desenhava, finalizava, desenvolvia todo o aspecto estético das publicações e negociava com as bancas. Não é um trabalho fácil e muitas vezes, para que seja obtido o sucesso, a determinação fala mais alto do que o próprio talento. Mesmo com exemplares disponibilizados mês sim, mês não, essa é uma rotina difícil de ser mantida.

Tomine foi, desde cedo, o típico “nerd antissocial.” A primeira frase da introdução de 32 Stories, pelo próprio autor, é: “O livro que você tem em mãos não existiria se o colegial tivesse sido uma boa experiência para mim.”

Ele começou a desenhar e escrever como forma de se manter ocupado, nas noites em que os amigos (e até seus pais) saíam para se divertir. Porém, é interessante perceber que o processo, de alguma forma, funcionou também como uma tentativa de interação futura com quem quer que eventualmente lesse as histórias.

“Futura”, pois a intenção oficial, no início das tentativas do autor de criar histórias, não era mostrá-las para ninguém. Contudo, uma obra de arte (leia-se quadros, livros, música, gibis, filmes etc.), por mais despretensiosa que seja, manifesta a intenção do artista em se expressar. E essa expressão somente é validada por meio dos olhos dos outros.

O elo criado pela arte conecta, no nível emocional ou intelectual, as pessoas que com a obra apresentada se identificam, e talvez resida aí a resposta para a pergunta do segundo parágrafo: identificação. Um agente poderoso, que mostra que alguém, em algum lugar, pensa e sente as coisas de forma similar. É uma sensação reconfortante, e é justo presumir que seja uma das principais razões do sucesso dos quadrinhos autobiográficos.

Logicamente, não é só contar a história da sua vida para mulheres e fama baterem à sua porta. Ao contrário, por ser algo de forte teor pessoal e sem apelo comercial imediato, requer atenção e sensibilidade, qualidades aplicadas competentemente pelo autor.

A sutileza, a delicadeza, a capacidade observacional, a honestidade e a habilidade de se colocar no lugar do outro garantem o prazer da leitura de 32 Stories.

Tomine expõe fantasias e situações rotineiras com um olhar humano, espontâneo e particular. Os desenhos simples e rabiscados casam notavelmente com a narrativa consistente das histórias e com o formato da publicação.

A linda edição da Drawn & Quarterly é o resultado do comum acordo entre o artista e seu editor. Primeiramente, a intenção era fazer um álbum de luxo. Mas Tomine sentiu que o formato não expressaria fielmente o conteúdo das histórias e nem traduziria o período em que foram feitas originalmente, marcado pelo esforço de uma pessoa só em produzir de forma acessível o material. Esse fato é de grande importância para o contexto da obra.

Logo, optou-se pela criação de uma caixa contendo as edições fac-similares dos sete primeiros números, fiéis a tudo o que o autor criou então: o layout, as escolhas estéticas (invejáveis, especialmente quando se leva em conta a idade do autor na época) para as revistas, as cartas dos fãs e até os adesivos marqueteiros que Tomine embutiu no quarto número. É um material indispensável para quem aprecia HQs diferenciadas.

Essa atenção do autor com a apresentação da obra permite uma aproximação maior do leitor com a fase em que os gibis foram feitos, e permite sentir com mais fidelidade as suas impressões na época, o que seria impossível num volume de luxo. Um toque de bom gosto que traduz o carinho de Tomine pelo seu material e o respeito com os antigos leitores.

32 Stories é uma excelente amostra da qualidade da Drawn & Quarterly, bem como do talento de um importante artista da nova geração que, para a sorte de muita gente, percebe que nem só de visão de raios-x vive o homem.

Classificação

5,0

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