40 ANOS DA REVISTA TIO PATINHAS

Por Eduardo Nasi
Data: 1 dezembro, 2003


Título: 40 ANOS DA REVISTA TIO PATINHAS 01 e 02 (Editora Abril) – Série em dois volumes

Autores: Keno Don Rosa (roteiro e desenhos).

Preço: R$ 5,90 (cada uma)

Número de Páginas: 164 (cada uma)

Data de lançamento: Junho (volume 1) e Julho (volume 2) de 2003

Sinopse: A série propõe contar a biografia do Tio Patinhas, patriarca dos patos de Walt Disney.

A história começa na Escócia, com um Patinhas de dez anos conquistando sua moeda número 1, e que segue buscando sua fortuna pela América e pelo mundo, culminando na primeira história escrita pelo criador do personagem, Carl Barks.

Positivo/Negativo: A criação máxima de Don Rosa é uma história em quadrinhos bastante elogiada. Ganhou prêmios (inclusive o Eisner, que foi posteriormente emoldurado e pendurado pelo autor em uma das paredes da caixa forte), aclamação da crítica e carinho do público por todos os cantos em que ganhou publicação. Apesar disso, e talvez por isso, mereça uma série de considerações.

O ponto mais candente para a discussão da Saga do Tio Patinhas é que ela pode ser o ponto de partida para uma possível imposição de uma cronologia para um universo que ficou sem ela por tantos e tantos anos.

Ora, nos quadrinhos de super-heróis, em que é amplamente adotada, redesenhada e discutida, a cronologia nunca chegou a ser nada além de um embuste. Às vezes, tornou-se um mero instrumento de marketing para se catapultar as vendas de títulos, no mínimo, “sem sal”.

No Universo DC, o pós-Crise foi fatal. Surgiram pencas de séries que queriam explicar a cronologia, batizadas (e sacralizadas) pela editora como “bíblias”.

Eram bíblias disso e daquilo, quase nunca a favor de contar uma boa história. Praticamente todas foram justamente esquecidas. Do outro lado, há milhares de casos de personagens em que a cronologia se mostrou dispensável. Para citar: Peanuts, Spirit, Pererê, Fritz The Cat, Calvin e a própria Disney.

A partir de pistas deixadas por Eisner, Don Rosa monta uma infância e dá uma data de nascimento para o Tio Patinhas: 1867. O que faz com que, hoje, ele tenha inacreditáveis 136 anos, uma idade considerável para qualquer humano – e certamente demais para um aventureiro.

Os limites da ficção Disney, até então, era a imaginação de cada autor – e, claro, as imposições dos seus estúdios. Agora, a obra de Don Rosa, ao se tornar um marco tão reverenciado, pode vir a ser outro fator limitador. O próprio autor já possui outras aventuras interligadas com a sua “bíblia”.

Chegará um dia em que o leitor terá que se esforçar para penetrar no universo Disney, dedicando-se a ele com afinco para poder entender as histórias? Parece absurdo, mas isso aconteceu com os super-heróis.

Claro, é apenas uma especulação deste escriba, deixando aberto o espaço para o debate. O resultado talvez nem sequer seja negativo. E, a princípio, não é. Trata-se do mito fundador de um personagem clássico, cheio de pequenas mitologias no seu entorno (como a origem da número 1 e a identidade da mãe do Pato Donald); e isso já basta para ser uma história atraente.

Don Rosa não é um Barks e, embora preste constante homenagem ao legado do criador, sua saga por vezes carece de ritmo.

Na biografia, até pelo volume de informações que precisa acomodar em doze volumes, Don Rosa é apressado em mostrar muitos fatos. Mas o avanço quadro a quadro é prejudicado.

Neste mês, uma história que tem relação com a biografia, mas acrescenta bem pouco, está na revista Tio Patinhas # 457 (Abril, 130 páginas, R$ 4,90). Nela, a condução da narrativa já é mais bem cuidada.

A edição brasileira, apesar de atrasada, é bastante caprichada. Poderia ser mais, mas aí é preciso discernir o que é função estrita dos editores e a forma de impressão – que influencia diretamente no custo real da revista nas mãos do leitor em tempos de crise.

Don Rosa é um desenhista detalhista. No primeiro quadro de cada história, esconde a abreviatura DUCK (Dedicated to Uncle Carl by Keno – [história] dedicada ao tio Carl [Barks] por Keno [Don Rosa]). Como as letras são minúsculas, a redução para formatinho e a impressão em papel jornal impossibilitou que o leitor achasse com facilidade a brincadeira.

Com a tenebrosa crise em que este país está mergulhado, porém, nem sempre é possível se fazer a edição em couché e capa dura, algo sonhado por colecionadores e aficionados.

Em compensação, a redação fez um belo trabalho, que compensa a falta de luxo. Cada capítulo é antecedido por um texto introdutório de Don Rosa adaptado para o português, transpondo as referências para as revistas Disney publicadas no Brasil.

Além disso, os dois volumes contam com árvores genealógica da família Pato, ampliações das siglas DUCK nos primeiros quadros e textos complementares, o que só valoriza uma obra que, sem esse aparato, perderia praticamente todo o seu charme. A Abril está de parabéns pelas soluções encontradas em tempos difíceis.

Classificação:

4,0

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