A CAIXA DE AREIA (OU EU ERA DOIS EM MEU QUINTAL)

Por Mário César
Data: 1 dezembro, 2006


Título: A CAIXA DE AREIA (OU EU ERA DOIS EM MEU QUINTAL)
(Devir Livraria)
– Edição especial
Autores: Lourenço Mutarelli (texto e arte)

Preço: R$ 25,00

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Janeiro de 2006

Sinopse: Kleiton e Carlton são dois amigos que passam o tempo todo dentro de um carro perdido no meio de um deserto divagando sobre suas próprias existências.

Lourenço Mutarelli é um quadrinhista buscando registrar um período de sua vida com seu trabalho e desvendar um mistério: como seus brinquedos de infância estão aparecendo na caixa de areia de seu gato.

Positivo/Negativo: Ao contrário do que se diz, A Caixa de Areia não é uma autobiografia de Mutarelli. Ele mesmo a define como uma falsa autobiografia. A obra funciona mais como um diário no qual o autor capta toda a riqueza da realidade aparentemente banal de um breve período de sua vida. Além disso, abre asas à sua imaginação com uma história paralela totalmente fictícia.

O formato do álbum se deve justamente a esse conceito de diário. Tem um tamanho reduzido, papel amarelado no miolo (como se as páginas estivessem gastas pelo tempo) e uma capa mais decorativa que ilustrativa (algo que pode fazer confundir a edição com um livro de literatura).

Isso reduziu o preço (ainda longe do ideal) e tornou a obra mais acessível ao público, um ponto em que muitas edições pecam hoje. Quadrinho bom não precisa ser caro.

A Caixa de Areia é o trabalho mais maduro de Mutarelli, tanto no roteiro quanto na arte. Nota-se, por exemplo, uma segurança maior em lidar com claro e escuro. Seu traço está mais leve e conciso, sua narrativa mais fluida e os diálogos, contundentes.

Com este álbum, Mutarelli levantou questões sobre o que é realidade, tempo, paz, e indivíduo, entre outros pontos. E foi bastante feliz em sua execução.

No começo da história, por exemplo, Carlton narra um reencontro com uma grande paixão de 30 anos atrás. Ele guardara uma imagem idealizada de sua amada, Hantuérpia, não deixara nunca de pensar nela. No entanto, ao revê-la fica chocado com o que o tempo fez a ela.

Então, ele tenta preservar a imagem de uma Hantuérpia jovem e bela, rejeitando completamente a realidade. Depois, passa a aceitar o fato e até consegue captar sua beleza novamente.

Nisso, Hantuérpia lhe diz: “Você parece um pingüim”. Só então lhe cai a ficha: o tempo não fora gentil ele também. Kleiton finaliza a passagem com uma bela ironia: a amada de Carlton não quis dizer um pingüim, mas o Pingüim, do Batman…

É o jeito de Mutarelli dizer que o tempo só existe se o medirmos. E assim ele conduz sua obra: com um olhar rico e diferenciado sobre cada tema abordado. A Caixa de Areia convida o leitor à reflexão e isso é algo raro.

O grande ponto negativo é este ser o último trabalho de Mutarelli com quadrinhos, ao menos por enquanto. Ele próprio diz que as HQs já não são mais tão importantes como costumavam ser. Isso porque falam muito de sua relação com seu pai e não têm mais razão de ser (o Lourenço pai faleceu há alguns anos). Uma pena.

Outro ponto em que Mutarelli toca é que quadrinhos não dão nem retorno financeiro nem reconhecimento artístico merecidos. Tanto que só depois de ele escrever um livro (O Cheiro do Ralo) e uma peça de teatro (O que você foi quando era criança?) é que passaram a tratá-lo com mais seriedade.

Que a paixão pelos quadrinhos fale mais alto daqui um tempo.

 

Classificação:

4,0

• Outros artigos escritos por

.

.

.