A GUERRA DO REINO DIVINO

Por Sidney Gusman
Data: 1 dezembro, 2001

A Guerra do Reino DivinoTítulo: A GUERRA DO REINO DIVINO (Editora Hedra) – Edição Especial

Autores: Jô Oliveira (texto e arte)

Preço: R$ 12,00

Data de lançamento: Fevereiro de 2002

Sinopse: No sofrido Nordeste do Brasil, a mescla de fatos reais e “causos” sempre marcou a história e o imaginário do povo nordestino. Neste álbum, os principais personagens são Dom Sebastião, Lampião e o Beato, figuras lendárias que por sua história influenciam a vida e movem a fé de milhares de pessoas até os dias de hoje.

As histórias traçam um perfil da vida do nordestino, da sua fé e da sua luta pela sobrevivência numa terra castigada pela seca e, ao mesmo tempo, povoada de misticismo e religiosidade na eterna batalha do bem contra o mal.

Positivo/Negativo: A Guerra do Reino Divino, ao contrário do que os leitores mais jovens possam pensar, não é uma obra inédita. Na verdade, trata-se de uma republicação. A edição original da obra de Jô Oliveira foi feita pelo saudoso Pasquim, em 1976, reunindo as três histórias, que já tinham sido publicadas antes nas revistas Versus e na Balão e, antes disso, na italiana Linus e na argentina Crisis. Muita gente a considera como a primeira graphic novel nacional.

A história captura bem o sofrimento do povo nordestino e o seu apego à fé. Tanto que foi tema do enredo da escola de samba Lins Imperial do Rio de Janeiro, em 1979, e tema do curta-metragem em 35 mm, Guerra na Avenida, de Miguel Freire.

O traço do polivalente Jô de Oliveira (ele é jornalista, ilustrador e professor de artes) lembra demais aqueles pequenos livros de literatura de cordel e seus contrastes de preto e branco são bastante competentes. Não à toa, o autor tem livros de quadrinhos publicados em países como Itália, França, Dinamarca, Grécia e Argentina.

Mas a edição tem vários problemas. A começar pela ilustração da capa. A figura ao centro segura uma lança com a mão direita, mas a lança está passando à esquerda de sua cabeça, numa posição anatomicamente impossível! No desenho, a arma deveria aparecer à frente do rosto do personagem, claro. O erro aparece novamente dentro da história.

O principal ponto negativo de A Guerra do Reino Divino é o pouquíssimo cuidado com a língua portuguesa, que sofre um bocado em suas páginas. São quase 30 erros, alguns horríveis, como “êle”, “porisso”, “sobre natural” (algo do além), “sêca”, “govêrno”, “salve-se quem poder”, “ereges”, “calvaga” (do verbo cavalgar!) e outros problemas de concordância, acentuação e pontuação.

É importante esclarecer que esses assassínios ao português não foram “propositais”, como se os personagens falassem errado. A impressão que passa é que a Hedra apenas colocou uma nova capa na edição de 1976, e nem sequer fez uma nova revisão. Lamentável, ainda por se tratar de uma editora que tem se notabilizado pela penetração que seus produtos ligados a quadrinhos têm conseguido em escolas e bibliotecas, como nos casos do Lampião, de Klévisson, e do livro O Poder dos Mangás, de Sonia Luyten. Dessa vez, vai ficar bem difícil.

Classificação:

4,0

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