A GUERRA DOS GIBIS

Por Sidney Gusman
Data: 1 dezembro, 2005


Autor: Gonçalo Junior

Preço: R$ 52,00

Número de páginas: 448

Data de lançamento: Dezembro de 2004

Sinopse: O livro narra a chegada dos quadrinhos ao Brasil, vindos dos Estados Unidos em meados da década de 1930, pelas mãos do jovem jornalista Adolfo Aizen, então funcionário de O Globo.

Após mostrar a descoberta a Roberto Marinho – que não demonstrou o menor interesse -, Aizen lançou seu Suplemento Infantil no periódico A Nação. A novidade logo se tornou uma irresistível mania de crianças e adolescentes; e uma mina de ouro para editores de jornais e revistas, que se engalfinhavam na disputa por aquele mercado milionário.

De febre juvenil e editorial, os quadrinhos passaram a ser duramente atacados por políticos, jornalistas, artistas, educadores, religiosos e toda sorte de palpiteiros, que enxergavam ali apenas “monstruosidades e imoralidades, subliteratura infame, analfabetismo, pobreza intelectual, verdadeiras orgias de sadismo, pornografia e estupidez, corrupção de menores, mitologia truncada e monstruosa”.

As histórias em quadrinhos mobilizaram as mais altas figuras da vida brasileira, como Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Jango, José Lins do Rego, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Leonel Brizola, Assis Chateaubriand, Carlos Lacerda, Victor Civita, Gilberto Freyre e muitos outros – alguns contra e outros a favor do que parecia ser o mal do século.

Positivo/Negativo: Quem lê quadrinhos há mais de 20 anos, certamente tem na família ou conhece alguém mais idoso que já tenha feito comentários pra lá de pejorativos a essas “revistinhas”. Pois bem, se quiser entender a razão para tão tolo preconceito, confira A Guerra dos Gibis, de longe, o melhor livro teórico sobre HQs dos últimos tempos.

O competente jornalista Gonçalo Junior levou mais de dez pesquisando em jornais, acervos de colecionadores e, principalmente, na biblioteca da Ebal; e o resultado é uma obra singular, simplesmente obrigatória para todos que desejam saber como os quadrinhos se estabeleceram em nosso país. Para quem acha que tudo se encontra na internet atualmente, este livro é a prova do contrário.

Com um texto leve e agradável, o leitor se sente impelido a descobrir o que virá na página seguinte. E Gonçalo foi hábil também ao situar cada episódio narrado. Sempre há um breve panorama do cenário político das épocas, para quem desconhece os fatos.

Uma pena, porém, que o livro dificilmente atraia a atenção daqueles que desdenham da força dos quadrinhos. Afinal, as informações mostram que os gibis foram vitais para que Roberto Marinho erguesse o império televisivo da Rede Globo. E isso pouca gente sabe; e alguns que sabem fazem questão de não lembrar.

E Marinho não foi o único a se beneficiar dos quadrinhos para expandir sobremaneira seus negócios. A lista traz Assis Chateaubriand (responsável por O Guri e outros títulos), da extinta TV Tupi, e Victor Civita, da Abril.

Chama especialmente a atenção o episódio em que Roberto Marinho, numa manobra hábil, mas pouco ética, adquiriu os direitos de publicação dos personagens que até então eram sucesso no Suplemento Juvenil. Numa demonstração de respeito por seus leitores, Adolfo Aizen deu um “tapa com luva de pelica” no concorrente e ex-patrão, avisando na última edição das histórias que as continuações seriam vistas, em breve, no Globo Juvenil.

E uma curiosidade: o livro de Pedro Bial sobre Roberto Marinho, definitivamente, não retrata o mesmo homem mostrado nas páginas de A Guerra dos Gibis, pois há meros dois parágrafos sobre sua ligação com os quadrinhos.

Além da interessante história da formação do mercado nacional, é extremamente rica a reconstrução do quadro da caça aos quadrinhos e da tentativa de censurá-los, por diferentes motivos. Alguns diziam que as histórias americanizavam as crianças; outros, que elas desestimulavam a leitura de livros; uns queriam materiais produzidos aqui; e havia até os que garantiam ser os gibis “formadores de criminosos”, devido à violência contida nas páginas.

É verdade que muitas dessas críticas tinham fundo sensacionalista e estritamente político, para prejudicar os negócios de Roberto Marinho. A conduta de Samuel Wainer, do Última Hora, por exemplo, era a de atacar os gibis, somente porque, na época, seu inimigo declarado era o maior editor do Brasil. Nem se dava ao trabalho de analisar as revistas. Colocava tudo no mesmo balaio e batia sem dó. Uma decepção para quem o considerava um ícone do jornalismo nacional.

O Rio Grande do Sul, que curiosamente viria a se tornar, anos depois, um celeiro de talentos das nossas HQs, estabeleceu uma campanha tão ferrenha, que chegou a aprovar uma lei que aumentava de modo absurdo os impostos sobre as revistas. Tudo para evitar sua comercialização.

Para se ter uma idéia da dimensão que a “cruzada” antiquadrinhos tomou naquelas décadas (os jornais estampavam, em letras garrafais, manchetes hoje inacreditáveis sobre a perniciosidade dos gibis), seria como se, há alguns anos, quando surgiu a internet, tentassem proibir a sua utilização a todo custo.

Mas é preciso ter em mente durante a leitura, que as HQs, então, eram uma novidade no mundo – e a informação não era tão disseminada como hoje. Assim, é possível identificar que havia, sim, críticas baseadas em puro desconhecimento – e receio – daquele meio de comunicação que crescia tanto; e outras movidas por intrigas e rixas pessoais.

E ver descortinadas as táticas e conchavos políticos dos editores para evitar que leis de censura fossem implantadas é esclarecedor. Nesse ponto, destaca-se a postura de Adolfo Aizen, que sempre procurou mostrar aos críticos que os quadrinhos podiam, sim, servir como ferramentas educacionais, em vez de partir para o revide.

Além da paixão pelas HQs, o fundador da Ebal tinha medo que descobrissem que ele, na verdade, era russo (informação divulgada pela primeira vez de modo oficial neste livro), e não baiano, como apregoava. Na época era proibido por lei que estrangeiros detivessem o controle de empresas de comunicação.

Hoje, os códigos de ética (sim, o Brasil tem um) e projetos de leis que regulamentariam os quadrinhos, que são reproduzidos num apêndice da obra, soam até pueris. No entanto, servem para ilustrar o quanto a tolerância de editores e leitores mudou nesses anos todos.

Para os leitores mais novos, A Guerra dos Gibis causará espanto também quanto aos números. Naqueles tempos, sim, o Brasil tinha um mercado de quadrinhos. Pra se ter uma idéia, de 1953 a 1955, os três maiores editores do País, Adolfo Aizen, Roberto Marinho e Assis Chateaubriand, lançaram simplesmente 68 novos títulos. E as vendas de cada empresa eram sempre na casa dos milhões de exemplares. Já hoje…

Graficamente, o livro é primoroso e conta ainda com um caderno de fotos, em papel couché, com capas dos números um de diversos gibis. Quanto ao texto, apenas duas mancadas em nomes de autores, possivelmente devido a normas do manual de redação da editora: Mauricio de Sousa, que, como é comum na imprensa, saiu grafado Maurício de Souza; e Flavio Colin, cujo primeiro nome aparece com um inexistente acento agudo no “a”.

Em 1996, o embrião deste trabalho ganhou o HQ Mix de melhor pesquisa sobre quadrinhos. Incrível que tenha demorado tanto tempo para ganhar as livrarias. Felizmente, a espera terminou. Os fãs agradecem.

Classificação:

4,0

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