A HORA DO TERROR – DRÁCULA, DE BRAM STOKER

Por Alexandre Callari
Data: 1 dezembro, 2011

A HORA DO TERROR - DRÁCULA, DE BRAM STOKER

Editora: Escala – Edição especial

Autor: Eugenio Colonnese (roteiro e arte)

Preço: R$ 14,90

Número de páginas: 112

Data de lançamento: Maio de 2010

 

Sinopse

Drácula, um conde da Transilvânia, decide adquirir propriedades na Inglaterra. Para isso, entra em contato com uma imobiliária, que envia o jovem corretor Jonathan Harker para fechar o negócio.

Harker logo descobre que o conde é uma criatura das trevas e torna-se seu prisioneiro no castelo. A situação se complica quando Drácula viaja para a Inglaterra para encontrar Mina, mulher de Jonathan.

Para combater Drácula, o professor Abraham Van Helsing, especialista em ocultismo, é chamado.

Positivo/Negativo

Um dos mestres das HQs nacionais, Eugenio Colonnese não é estranho ao gênero vampiros – é dele a criação da vampira Mirza. No entanto, aqui o seu trabalho é bem diferente. Lançada pela primeira vez no final da década de 1960, pela Editora Taika, em preto e branco, esta história foi recuperada pela Escala, colorizada e disponibilizada para uma nova geração de leitores.

Nesta adaptação, Colonnese segue de perto a trama do livro de Bram Stoker, publicado em 1897 – é até literal em certas passagens. Funciona bem em alguns momentos, mas torna-se enfadonho em outros. O leitor mais preguiçoso e/ou habituado ao ritmo das HQs modernas pode se sentir tentado a pular os longos textos, principalmente os não escritos em letra bastão.

Colonnese estabelece um ritmo interessante logo no começo da trama, articulando o diário de Jonathan Harker em meio a quadros, mostrando o pleno domínio que tinha de seu ofício. Numa época em que era comum uma espécie de redundância, na qual o desenho “dizia” o mesmo que as legendas, o autor fugia disso e procurava criar imagens complementares ao texto. Uma amostra do quanto estava à frente de seu tempo.

Mas o principal problema do roteiro é a falta de ritmo. As cenas de ação, em especial, envelheceram bastante com a passagem do tempo e não sustentam o clima tenebroso mantido nas cenas que constroem a trama. Colonnese também deixou de lado um elemento essencial à história original, que é justamente o amor do conde por Mina, ao descobri-la como sendo a reencarnação de sua amada. O romantismo, aqui, é deixado de lado e o vampiro torna-se a pura encarnação do mal.

A sequência final também é rápida demais, quase um anticlímax, com os heróis triunfando sem que o vampiro exerça muita resistência. O cineasta Francis Ford Coppola recebeu críticas similares na sua versão do romance de 1992, quando Drácula é derrotado com demasiada facilidade por Van Helsing e sua trupe.

Na arte, Colonnese faz uma aposta interessante: apesar de ter diversas oportunidades de mostrar seu vampiro em plena ação (como no ataque ao navio ou quando morde Lucy), Colonnese opta por manter Drácula oculto, sempre mostrado de longe (quando muito), nas sombras ou transmutado.

Assim, a primeira vez que o vampiro é visto em ação é quando a história já passou de sua metade, o que aumenta o impacto da cena.

Uma curiosidade: o desenhista inspirou-se (ainda que vagamente) nas feições do ator Marlon Brando para definir o visual de seu personagem – recurso parecido seria usado anos depois pela Marvel, que lançou uma série de sucesso do vampiro nos anos 70, na qual ele tinha a cara do ator Jack Palance.

A colorização foi bem feita, com predominância de tons escuros puxados para o azul, o que conserva o caráter soturno da história e não descaracteriza o traço original do autor – pelo contrário, o valoriza.

A edição saiu com alguns erros ortográficos (acentos e palavras separadas com hífens bem no meio da linha), mas é bonita, com capa cartonada e muitos textos complementares sobre Colonnese, Stoker, Drácula e, claro, vampiros como um todo.

Pena que a capa seja tão feia e datada, com a composição de três quadros e um logotipo que espanta o leitor. A Escala precisa puxar a orelha de seus designers.

De forma geral, é uma boa HQ. Se não supera a adaptação de Jon J. Muth, lançada pela Abril, em 1990, por exemplo, serve como uma introdução fiel ao romance.

Também é uma oportunidade de ver um mestre da HQ nacional em plena forma. Em uma época em que não havia referências visuais disponíveis com a facilidade de hoje e grande parte dos desenhos nascia da imaginação dos artistas, vale destacar a perfeita composição do castelo e do navio, e páginas excepcionais, como a 58, na qual Lucy recebe uma estaca no coração.

Classificação:

4,0

• Outros artigos escritos por

.

.

.