A morte do Superman

Por Thiago Rique
Data: 14 julho, 2006

A morte do SupermanEditora: Abril – Edição especial

Autores: Roger Stern, Dan Jurgens, Jerry Ordway e Louise Simonson (roteiro) e Dan Jurgens, Tom Grummet, Jon Bogdanove e Jackson Guice(desenhos) Bret Breeding, Dennis Janke, Doug Hazlewood e Denis Rodier (arte-final)

Preço: na época era variável, de acordo com uma tabela da editora

Número de páginas: 160

Data de lançamento: Outubro de 1993

Sinopse: Durante sua participação no talk-show de sua amiga Cat Grant, o Super-Homem é informado que um monstro desconhecido está causando problemas no meio-oeste norte-americano. A intervenção da Liga da Justiça da América – da qual é presidente – está se mostrando incapaz de contar o avanço e o rastro de destruição insano da criatura, batizada pelo Gladiador Dourado como Apocalypse.

Um a um, os membros da Liga caem contra a criatura, obstinada em dirigir-se para Metrópolis. E o que era apenas um chamado ocasional para deter uma ameaça se mostra bem mais sério e preocupante, quando o Super-Homem se envolve na maior batalha de sua vida.

E o mundo viverá um de seus dias mais negros, quando perderá seu maior campeão.

Positivo/Negativo: Em 1992, as vendas do Super-Homem estavam baixas. Não apenas isso, o herói perdia popularidade a cada dia para personagens com atitudes mais agressivas e era taxado como ultrapassado por muitos leitores.

A DC tentava reerguê-lo e mantê-lo no padrão de qualidade e popularidade que experimentara após a reformulação de John Byrne, que inegavelmente – a despeito de se gostar ou não das mudanças feitas – injetaram uma boa dose de revitalização no personagem na segunda metade dos anos 80.

A editora fez Lois e Clark namorarem, quebrou o “segredo” da identidade ao permitir que ela descobrisse que ele e o Super-Homem eram a mesma pessoa, noivou o casal, matou Luthor e trouxe seu jovem “filho” para assumir seu lugar e também a Supermoça introduzida por Byrne em seu último arco antes de deixar as aventuras do Homem de Aço, entre outras reviravoltas.

Mas o fato é que, com apenas algumas aventuras realmente boas, o herói infelizmente se enfiava em pastelões como ilhas perdidas repletas de dinossauros, trogloditas e cientistas nazistas com pedras mágicas nos últimos anos. Tramas de difícil digestão para os fãs de longa data e mais ainda para os ocasionais, que preferiam ler os mutantes da Marvel ou conferir os novos personagens da Image.

Então, a cartada derradeira para atrair novamente a atenção dos leitores e mostrar não apenas a relevância do personagem para a mídia quadrinhos, quanto seu poder junto ao público foi dada com o anúncio de que a DC iria simplesmente, matá-lo na ediçãoSuperman # 75, a mesma que estava antes programada para apresentar outro evento importante: o casamento de Clark e Lois.

Enquanto a história era tecida e os parâmetros de toda a saga eram estabelecidos, a mídia do mundo todo espalhou a notícia e a editora imprimiu em suas revistas o hoje histórico anúncio: Doomsday is coming for Superman! (O Apocalyse está vindo para o Super-Homem!). Como seria revelado depois, este era o nome do monstro que mataria o personagem.

A história é desenvolvida em sete capítulos, e apenas no último a anunciada morte acontece. Os anteriores servem para apresentar a tentativa da Liga de impedir o monstro e depois a perseguição alucinante que o Super-Homem empreende à criatura enquanto os dois vão deixando um rastro de destruição por onde passam.

A intenção clara é gerar um efeito de tensão crescente e mostrar o poder do Apocalypse, que derrota toda a Liga facilmente.

Os autores acertaram ao mostrar que, inicialmente, a ameaça é tida como algo rotineiro pelos heróis, “mais um monstro à solta” e apenas depois de um nível de destruição acima do “normal” para uma HQ, a coisa é revelada como realmente séria. Foi o modo de explicar o não-envolvimento de outros seres com níveis de poder próximos ao de Kal-El na caçada a Apocalypse.

Aqui, aparecem os dois primeiros senões. Primeiro, a Liga resume-se a heróis do segundo escalão, oriundos da fase de Keith Giffen na direção da revista depois de serem recauchutados por Dan Jurgens, que minimizou o elemento cômico e trouxe o Super-Homem para liderar a equipe.

Besouro Azul, Máxima, Gelo, Bloodwynd, Fogo e um Guy Gardner armado com um anel energético amarelo compõem a equipe e nem de longe têm o carisma ou impacto que a formação “clássica” teria participando de um evento importante como a morte do Super-Homem.

O grupo serve apenas de “bucha de canhão”, mas é inegável que a forma impressionante como Apocalypse nocauteia todos tão rápida e violentamente é chocante.

Em segundo lugar, chega-se à essência da história. A trama foi arquitetada de forma extremamente simples: um monstro desconhecido aparece, causa muita destruição e termina por enfrentar e matar o Super-Homem. A verdadeira carta na manga era o que estava por vir depois, com seu funeral e, por fim, o retorno (ponto alto da saga).

Fica a impressão de que este “primeiro capítulo” foi estendido demais sem necessidade, apenas para permitir que cada uma das quatro equipes criativas, mais o time do título da Liga da Justiça (do qual Dan Jurgens também era roteirista) pudessem criar seu próprio episódio.

A luta entre Super-Homem e Apocalypse, apesar de mostrada sempre com sensacionais seqüências, socos, explosões etc., torna-se enfadonha e tem seu efeito um pouco minimizado quando chega-se ao clímax. Ainda assim, a caçada é sensacional e repleta de cenas que dificilmente cansam a leitura, principalmente dos leitores ocasionais.

A DC tinha planos para Apocalypse no futuro, mas quando a história foi criada, ele foi desenvolvido como – nas palavras de Dan Jurgens – “uma força da natureza”, um ser de pura brutalidade e desejo de destruição, só isso e nada mais.

Apesar do visual bastante assustador e de toda a fúria irracional que mostra (capaz de fazer inveja ao Hulk nos seus piores dias), o monstro tem a profundidade de uma porta. Não teria sido mais interessante que o intento fosse conseguido por obra de um de seus inimigos, como Luthor ou Brainiac? Ou ainda que eles estivessem por trás da criação de Apocalypse?

Aliás, esta não é a primeira “morte” do Super-Homem. Jerry Siegel, o co-criador do personagem em pessoa, escreveu um conto imaginário em 1948 no qual Luthor mata o herói e, por ser uma história que não entraria na cronologia, a sua morte lá é definitiva.

Hoje, Apocalypse ganhou mais complexidade como personagem, apesar de seu uso em aparições completamente desnecessárias e com o intuito de ganhar uns tostões a mais ter diminuído em muito toda a aura de impacto do único ser que conseguiu realmente matar o Super-Homem.

O mais discutível dos pontos é o fato do Super-Homem também “matar” Apocalypse. Isso fere o que, para a maioria dos fãs do herói, é seu mais precioso valor: o de jamais tirar uma vida, não importa a que preço.

É fato que esta versão do personagem já havia executado os três vilões da Zona Fantasma no último arco escrito por John Byrne, mas as repercussões foram seriíssimas para o Homem de Aço. Ele desenvolveu dupla personalidade para lidar com o remorso e se exilou no espaço quando descobriu a ameaça que podia representar. E jurou novamente jamais tirar outra vida simplesmente porque “o Super-Homem não deve matar”.

Na parte final da revista, Kal-El abandona as tentativas de refrear o monstro e parece obstinado em incapacitá-lo de forma definitiva, culminando nos dois se esmurrando até a morte.

Um grande furo do roteiro é na parte em que Apocalypse continua seu rastro de destruição quando vê numa TV de supermercado um anúncio de luta-livre que conclamava um “grande confronto” em Metrópolis. A partir daí, ele se dirige para a cidade e até esboça princípios de fala inarticulada.

Ora, para um ser alienígena e irracional, que só tinha ódio e fúria em sua mente, ele se saiu muito bem entendendo uma propaganda de TV em inglês e lendo uma placa de estrada (estava escrito Metrópolis). E ainda faz uma associação entre tudo isso (como observado pelo próprio Kal-El), resolvendo se dirigir para a cidade. A mancada foi tão abismal que em A Revanche, Dan Jurgens tentou por panos quentes na coisa e criou uma explicação bem mais verossímil para a seqüência.

A construção dos personagens sempre foi o ponto alto desse período nos títulos do Super-Homem, e Jurgens, Ordway, Stern e Simonson mantêm o padrão de qualidade. É interessante nota como o herói seguro e confiante desta edição, que afirma ao moribundo Guy “Não se preocupe, Guy, vou cuidar de tudo” (frase que resume a essência do seu comportamento obsessivo em ajudar o próximo e solucionar problemas), deu lugar ao personagem inseguro e cheio de dúvidas dos últimos anos.

Ainda sobra espaço para se explorar um pouco de Lois, Jimmy, Cat Grant, Bibbo, o professor Hamilton, a UCE e o projeto Cadmus. A profusão de personagens coadjuvantes das aventuras do Homem de Aço na época não chega a comprometer a história e até atenua o excesso desnecessário de páginas já citado, com suas aparições e a forma como procuram, cada um à sua maneira, ajudar o personagem.

Do ponto de vista artístico, A Morte do Super-Homem foi produzida numa época de excelência criativa. Dan Jurgens é tido até hoje como um dos melhores ilustradores do personagem em sua fase pós-Crise nas Infinitas Terras. Jon Bogdanove ostentava na época o título de “sucessor espiritual de Joe Shuster” por sua representação do Homem de Aço, que em muito se assemelhava à de seu co-criador. Tom Grummet também mantinha o bom nível dos títulos que cuidava. Jackson Guice era o único irregular. Ele possui uma tendência ao hiper-realismo bastante interessante e sabe trabalhar fisionomias, mas quando o assunto são cenas de ação, falha seguidamente em imprimir ritmo. E como são justamente estas que compõem 90% da história…

Jurgens ainda introduziu um elemento surpresa na edição 75 de Superman, apresentando toda a revista com páginas de splash, ou seja, um painel gigante por página, somando 22 que mostram a morte do super-herói da Terra.

É justamente este último capítulo o melhor de toda a revista. Repleto de tensão e senso de urgência, mostrando o Super-Homem desesperadamente tentando deter Apocalypse nas ruas de Metrópolis e sendo acompanhado por Lois e Jimmy. A decisão de focar a trama nos três personagens que são o alicerce das aventuras do kryptoniano há décadas é digna de aplausos e mostra como a história, realmente, poderia ter sido mais enxuta.

A unidade entre as equipes que cuidavam dos quatro títulos norte-americanos do personagem era orquestrada por Mike Carlin; e é a ele, sem dúvida, que se deve o crédito de coordenar tão bem a sinfonia de eventos e arcos que foi a grande saga da Morte eRetorno do Super-Homem. Se é verdade que alguns eventos poderiam ter sido mais condensados, é preciso lembrar do aspecto financeiro e da necessidade de vender mais revistas.

Era evidente que o Super-Homem voltaria, mas ninguém imaginava que sua morte era apenas o começo de uma longa saga editada no decorrer de um ano, com reviravoltas sensacionais e conseqüências que persistem até hoje tanto na história do Homem de Aço, quanto na de outros heróis, como o Lanterna Verde Hal Jordan. Além disso, apresentou uma série de novos personagens que se tornariam de relevância única para Kal-El e o Universo DC nos anos vindouros.

A Abril fez um trabalho ímpar na época. Enquanto passava o título mensal do Super-Homem para três histórias estreladas por ele para apressar a continuidade, antecipou o lançamento da Morte em um ano (com direito a uma providencial nota explicativa no começo da revista sobre fatos e personagens ainda inéditos na época).

Junto com a requintada edição especial, a começar pela capa que mostrava o “S” sangrando – símbolo da saga – em alto relevo e efeito metalizado e o miolo em papel LWC, vieram brindes. Era um pacote sensacional que, além da edição, trazia um fac-símile de Superman # 75 em formato americano mostrando os momentos finais e decisivos da luta entre Super-Homem e Apocalypse, uma revista Newstime sobre a morte do herói, com depoimento de celebridades e matérias, e além um belo pôster ilustrado por Dan Jurgens retratando o cortejo fúnebre do herói, acompanhado por todos os grandes personagens da DC.

Isso numa época em que a editora reduzira o número de páginas dos outros três títulos DCque publicava – DC 2000, Novos Titãs e Liga da Justiça – por conta da crise em que o país atravessava.

A editora apostou alto e o sucesso foi grande, a ponto de ela fazer um trabalho ainda superior no primeiro número de O Retorno do Super-Homem.

A edição serve também de curiosidade história por conter o preço tabelado, um recurso que a Abril usou durante meses antes de o Plano Real ser implementado e consistia em atribuir um código a cada publicação correspondente a um valor que variava mensalmente.

Nas páginas deste especial, o personagem ainda é chamado de “Super-Homem”, pois só em 2000, quando a editora mudou sua linha editorial de super-heróis do formatinho para a luxuosa Linha Premium, ele passou a usar o nome em inglês.

A Morte do Super-Homem seria ainda relançada duas vezes pela Abril. A primeira foi em outubro de 1994, quando a editora pôs nas bancas o primeiro número do Retorno, mas esta edição não vinha com o efeito metalizado no “S” da capa nem os brindes. A segunda foi pouco antes do cancelamento de seu trabalho com os heróis DC, em 2002, desta vez em formato maior e como uma minissérie em três partes, sendo a última com a famosa capa de Superman # 75.

A despeito de seus problemas, A Morte do Super-Homem é uma leitura obrigatória para qualquer fã do herói, assim como outras clássicas como O Homem que tinha tudo, Precisa haver um Super-Homem? etc.

Não foi a morte como muitos fãs gostariam de ler, com certeza, mas ninguém jamais se esqueceu dela nos últimos 12 anos e toda a sua repercussão e importância fazem da revista uma das mais importantes lançadas nos anos 90. Se não pela qualidade do texto, pelo impacto cultural e econômico que teve em toda uma geração de leitores, criadores e na mídia dos quadrinhos em si.

Classificação

3,5

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