A Novela Gráfica

Por Milena Azevedo
Data: 19 julho, 2013

A Novela GráficaEditora: Martins Fontes – Livro teórico

Autor: Santigo García

Preço: R$ 69,90

Número de páginas: 344

Data de lançamento: Agosto de 2012

Sinopse

Santiago García examina a história da arte sequencial desde o Século 19 até hoje, elaborando um relato que revela como e por que os quadrinhos estão se tornando um dos meios de expressão mais vivos do novo milênio.

Positivo/Negativo

Neste primeiro decênio do Século 21, trabalhos teóricos sobre quadrinhos voltaram a ter espaço nos catálogos das editoras brasileiras.

Além da Marca de Fantasia, Peixe Grande, Kalaco, Devir e da Cia. das Letras, a Martins Fontes também está investindo em livros que analisam a produção de quadrinhos dentro e fora do Brasil.

Se Gonçalo Junior vem se consolidando como o grande pesquisador brasileiro do tema, o jornalista e roteirista madrilenho Santiago García já o é na Espanha, há mais de 20 anos.

Em A Novela Gráfica, lançado em 2012 pela Martins Fontes, García apresenta uma reflexão histórica de como a sociedade e os quadrinhistas entendem as HQs, e de como elas passaram a ser aceitas como “uma forma artística com entidade própria”, ao incorporar uma abordagem mais adulta e literária.

Levando em consideração as classificações feitas por David Kunzle e Daniel Clowes, García analisa, em seis capítulos, as mudanças formais, estruturais e de conteúdo pelas quais passaram os quadrinhos desde meados do século 19 até os dias de hoje, nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, mostrando que o principal problema enfrentado pela mídia em questão, em sua busca por respeitabilidade, começou nos termos pelos quais fora inicialmente batizada.

O suíço Rodolphe Töpffer, por exemplo, não levava a sério seus desenhos cômicos seriados, referindo-se a eles como “bobagens gráficas”. As tirinhas publicadas nos jornais norte-americanos ficaram conhecidas como comic strips, mesmo aquelas com temática aventuresca ou dramática. E até mesmo o francês bande dessinée, considerado por García como o termo mais “asséptico”, só foi empregado no final da década de 1960.

A partir daí, García foca a importância do movimento underground dos comix norte-americanos da segunda metade da década de 1960, quando aconteceu a primeira grande ruptura com a indústria dos comics de aventura e de super-heróis – naquele momento, relacionados a um produto barato, descartável e infantil –, passando-se a produzir quadrinhos especificamente para o público adulto, com o autor tendo total controle de sua obra, em um novo sistema de comercialização, no qual a consignação foi substituída pela venda direta. Isso fez surgir a necessidade da criação de novos termos para diferenciar os comix dos comics. E eles foram: picture novel, graphic album, visual novel, illustrated novel, novel-in-pictures e graphic novel.

Delineando os precursores da novela gráfica contemporânea, ele segue analisando seus vários momentos: da vanguarda do quadrinho alternativo do começo dos anos 1980, que rompeu com o underground e os comics (afastando-se da narrativa cinematográfica e abraçando a literatura), procurando equilibrar os conteúdos das tramas com a plasticidade das páginas, passando pela incorporação do novo “modelo” pelas editoras de comics (criando a padronização do quadrinho de luxo com uma história autoconclusiva, sem necessariamente respeitar a cronologia oficial dos personagens), até a relação dos quadrinhos com o world cinema do século 21, em que o exotismo de outras culturas e os relatos autobiográficos imperam, mostrando que a novela gráfica tem grande capacidade para absorver tendências distintas e se renovar, e, portanto, não deve ser vista como um gênero, com formato e conteúdo específicos.

Com bastante propriedade, García ainda critica o abrangente conceito de história em quadrinhos de Scott McCloud, e o termo “arte sequencial”, de Will Eisner; aponta as diferenças ideológicas entre as teorias que tomam Rodolphe Töpffer como o pai dos quadrinhos (pleiteiam a erudição da novela gráfica) e àquelas que defendem seu nascimento nas tirinhas de jornais norte-americanos do final do Século 19, tomando como expoente o Yellow Kid (veem os quadrinhos como cultura de massa); e fundamenta o emprego do primeiro balão numa história em quadrinhos, recurso narrativo utilizado desde o final do medievo, mas que em 1896, numa tira em que o Yellow Kid dialoga com um fonógrafo, aparece como a integração “do espaço com o som no ar” (o que aproximou os quadrinhos da cultura audiovisual e fez com que fossem vistos desde sua base como “antiliteratura”).

 A Novela Gráfica faz uma síntese de estudos clássicos e atuais sobre os quadrinhos, com um texto ágil, direto e ricamente ilustrado com exemplos das HQs citadas, atuando como um material de referência encorpado para pesquisadores e entusiastas da nona arte.

Classificação

5

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