A PLAYBOY

Por Diego Calazans
Data: 1 dezembro, 2005


Título: A PLAYBOY (Conrad
Editora
) – Edição especial
Autores: Chester Brown (texto e arte)

Preço: R$ 22,00

Número de páginas: 84

Data de lançamento: Abril de 2001

Sinopse: Chester Brown, o quadrinhista canadense, conduz seus leitores à adolescência de Chester Brown, o paranóico leitor de Playboy.

Positivo/Negativo: Foi nos relatos autobiográficos que a HQ alternativa encontrou seu nicho. Embora Eisner (entre outros) já houvesse explorado o filão, foi com Robert Crumb e cia. que se tornou comum criadores de gibis falarem de si mesmos, e atingir seus semelhantes.

Assim, a honestidade com que os autores exibiam seus complexos ganhou a simpatia, a devoção e as estantes de indivíduos que se sentiam absolvidos pelo consumo expurgatório de Crumb, Spain Rodriguez ou da American Splendor.

Em tempos mais recentes, isso pode ser observado, dentro da estética underground, no lirismo de Adrian Tomine, no nonsense de Daniel Clowes, no jornalismo de participação empreendido por Joe Sacco e nas revelações de Marjane Satrapi.

Obviamente, nenhum autor voltou-se tanto para si que tenha eliminado o que lhe fosse exterior. O Eu e o Outro, nos quadrinhos, em todas as artes e na própria vida, mantém-se coligados, indissociáveis.

Em A Playboy, o Outro e o Eu coexistem em dimensões entrelaçadas. Chester é ambos, entes distintos de um mesmo ser.

A vida do protagonista serve de palco para a contínua batalha interna entre os desejos orgânicos e os valores católicos. Brown introjetou de tal forma os preconceitos de sua sociedade, que não precisa receber sanções dos indivíduos que a ela pertencem; nem de Deus. Cabe a ele mesmo o papel de réu, júri e carrasco.

Em Minhas Mulheres (L±, 1990), Robert Crumb diz: “Por que eu tenho esta tendência à confissão? Certamente minha educação católica…”

Como o “papa” do underground, Chester Brown também teve uma educação católica num país em que a Igreja, minoritária no coração dos fiéis, compensa enrijecendo o discurso. Para garantir seu rebanho, ferra-lhe a culpa, um dispositivo engenhoso que ata para sempre a alma do crente à cruz.

Então, o peso da culpa gera a necessidade de expiação. E, para ganhá-la, basta relatar de joelhos seus pecados, assumir seu erro, mostrar arrependimento, jurar que não vai reincidir, pedir perdão e pagar o peso do vício em orações.

Não foram poucos os católicos que saíram da Igreja, mas nenhum, que se saiba, conseguiu que a Igreja saísse de si.

O que se aprende na infância permanece em algum abismo secreto, eclodindo a despeito de nossos esforços. É, até certo ponto, o que se vê A Playboy. Mas Brown vai além: separou-se em dois: o protagonista adolescente e o narrador “cartunista”, uma criatura alada, do tamanho de um morcego e à semelhança de um diabinho.

O narrador toma a iniciativa de “voltar alguns anos” e mostrar o jovem Chester, que distrai durante a missa, a lembrá-lo da Playboy que vira pouco antes, e estava tentado a adquirir. O Brown adulto, está sempre presente para os leitores, analisando as ações e os pensamentos do protagonista, mas não tem qualquer meio de interagir com os acontecimentos, por serem fatos passados.

Ele é um espírito que vaga, liberto, pela linguagem dos quadrinhos. Tem consciência das intenções contidas em seus menores gestos e pode até rir das aflições infundadas que tanto o perturbaram outrora. É um ser dividido, duas dimensões narrativas em comunicação unilateral.

Um está no plano humano, patético. O outro está num plano metalingüístico, de olhar crítico, um pequeno deus no núcleo disperso de um universo sem centro.

O Chester humano teme a idéia de que o vão repreender por expressar seu desejo proibido. Porém, mais que assustado, aguarda ansioso que algo o puna por seus desvios de conduta. Como todo bom paranóico, anseia pela confirmação de seus temores.

Não haver uma resposta de Deus para seus atos o frustra. O jovem saca que nada do que fizer será grande o bastante para chamar-Lhe a atenção. Esse silêncio metafísico que perpassa A Playboy, põe seu autor numa ânsia de escancarar-se até as portas do Infinito. Chester procura por Deus. Mas Deus não retorna as ligações.

Os coadjuvantes da trama não têm propósito distinto, existem em função do protagonista, representam não mais que uma possibilidade de ele ser “pego”, de receber o devido “castigo” por seu “crime”.

Sem castigo, ele está livre para cometer o crime. Mas a liberdade total demanda um peso demasiado para ombros tão frágeis. Não foi para isso que o criaram.

Chester Brown percebe-se, então, como um indivíduo perdido num universo sem sentido. Sente a solidão de existir desconexo. Segue seus hábitos e busca a expiação, não com um sacerdote, mas com uma massa de leitores, o Outro físico que venha a compensar a ausência do Outro metafísico.

Mas Chester não se arrepende, nem pleiteia a redenção. Apenas se abre para escapar de si.

 

Classificação:

4,0

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