ADEUS TRISTEZA – A HISTÓRIA DE MEUS ANCESTRAIS

Por Eduardo Nasi
Data: 1 dezembro, 2012

ADEUS TRISTEZA – A HISTÓRIA DE MEUS ANCESTRAIS

Editora: Quadrinhos na Cia. – Edição especial

Autores: Belle Yang (texto e arte).

Preço: R$ 38,50

Número de páginas: 248

Data de lançamento: Maio de 2012

 

Sinopse

Depois de sofrer uma grande violência, a norte-americana filha de chineses Xuan busca reconstituir a história de sua família a partir das memórias de seu pai.

Positivo/Negativo

Pouco depois da metade de Adeus Tristeza, um personagem arranca a página de um livro antigo e a transforma em um palito de papel. Na ponta do palito, acende uma pequena chama, que usa para acender o tabaco em seu narguilé.

Seu sobrinho estranha. Afinal, tinha aprendido a valorizar os livros.

– Sobrinho, num livro de cem páginas – explica o tio – você terá sorte se encontrar dez que tragam alguma verdade. Pense nisso: dez, se o livro for excelente. Geralmente, você só vai tirar algumas poucas frases úteis. O resto são palavras desperdiçadas. Se você vai ler um livro, lembre-se apenas das partes úteis. Não se dê ao trabalho de guardar as tolices. Quando acabar de ler, queime tudo. A verdade é que mesmo as partes que fazem sentido não são de todo úteis.

Decerto há um pouco de exagero nas palavras do tio. Mas também alguma razão. É virtualmente impossível memorizar um livro de 248 páginas como Adeus Tristeza, cheio de detalhes, tanto na narrativa quanto nos desenhos.

Mas algumas coisas ficam. Pela proporção estimada pelo tal tio, seriam umas 24 páginas. Na prática, não parece que se possa contabilizar.

Adeus Tristeza, afinal, não é uma tese e não tem ensinamentos. Está mais para uma busca, uma exploração que é compartilhada entre autora e leitores.

Nascida em Taiwan em 1960, filha de chineses, Belle Yang foi batizada como Xuan – que quer dizer “Adeus Tristeza”. (Daí o título do álbum, que marca sua estreia nos quadrinhos – depois de uma série de livros infantis e de uma carreira como artista.)

Na época, seus pais já estavam se afastando da China. Quando criança, ela passou uma temporada de sete anos no Japão e, logo depois, já estava em San Francisco, nos Estados Unidos, com cidadania norte-americana. Mesmo se formando no Ocidente, a influência chinesa em seu trabalho é imensa.

E essa é a busca de Adeus Tristeza: pelas raízes. E por si mesma.

A partir do relato de seu pai, Belle Yang reconstitui o passado de sua família. Volta ao bisavô, um fazendeiro, e mostra as disputas familiares para controlar os meios de produção. Não é nada fácil: ela mesma está machucada pelas agressões de seu ex-marido, e a história é imensamente melancólica.

Não é um formato inédito. Adeus Tristeza se filia a uma série de álbuns autobiográficos. Pelo diálogo com o pai, evoca Maus, de Art Spiegelman. O traço simples e profundamente expressivo em preto e branco lembra Marjane Satrapi, de Persépolis. O tom triste e a reação a um homem violento o conecta a outro álbum brilhante, embora pouco comentado: Mas ele diz que me ama.

Entre as disputas de irmãos e as sutilezas do cotidiano, a China contemporânea aparece como cenário, em plena formação. E isso pode até ser interessante para alguns leitores num mundo que está se tornando uma gigantesca Chinatown. Mas a verdade é que não é o ambiente sócio-econômico que importa.

Neste álbum (como em Maus ou Persépolis), culturas e histórias diferentes se mostram apenas um verniz. As fronteiras são casquinhas (que coçam, que dão vontade de cutucar até arrancar). O que fica é a ideia de que somos todos humanos, e que somos mesmo parecidos. Podemos não ser chineses, nem fazendeiros, talvez nem mesmo tenhamos famílias tão numerosas e briguentas. Mas os dramas de Adeus Tristeza, tão distantes, tão remotos, soam profundamente familiares.

Quando Belle Yang der adeus à sua tristeza, talvez possamos deixar um pouco da nossa própria tristeza ir embora.

(E aí, se tivermos que guardar só dez páginas do álbum, que sejam essas, as que nos redimem, as que nos salvam.)

 

Classificação:

4,0

• Outros artigos escritos por

.

.

.