Alceu Penna e as garotas do Brasil – Moda e imprensa – 1933 a 1975

Por Milena Azevedo
Data: 3 julho, 2015

Alceu Penna e as garotas do Brasil - Moda e imprensa - 1933 a 1975Editora: Amarilys – Livro teórico

Autor: Gonçalo Junior

Preço: R$ 49,00

Número de páginas: 352

Data de lançamento: 2011

Sinopse

O livro narra a trajetória de Alceu Penna até se consagrar como o ícone de uma época de grande prosperidade e sonhos para os brasileiros, devido ao sucesso de sua coluna As Garotas, na revista O Cruzeiro.

Positivo/Negativo

Ao tomar conhecimento do vasto e superorganizado arquivo que Dona Terezinha havia guardado sobre o irmão Alceu Penna, o jornalista Gonçalo Junior entendeu ser mais do que necessário fazer uma biografia do desenhista mineiro, que durante 30 anos encantou e seduziu os brasileiros com suas Garotas.

Neste livro, Gonçalo Junior revela uma porção de curiosidades sobre a vida profissional e pessoal de Alceu, pois teve acesso a cartas e documentos, assim como colheu depoimentos de Dona Terezinha e de alguns amigos e colegas, dentre eles Ziraldo, além de ter feito uma profunda pesquisa em livros, artigos e na Dissertação de Mestrado da sobrinha do desenhista, Gabriela Ordones Penna (como pode ser vista na bibliografia citada).

Para contar toda a trajetória do sobrinho-neto do ex-presidente da República Afonso Penna, Gonçalo Junior fez um apanhado da imprensa brasileira do final da década de 1920 até meados dos anos 1970, mostrando a ascensão e queda dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand – então o segundo maior grupo editorial do Rio de Janeiro, precedido apenas pela Sociedade O Malho, que publicava as revistas O Tico-Tico e O Malho –, com foco na revista O Cruzeiro.

A primeira edição de O Cruzeiro chegou às bancas em dezembro de 1928, após uma inusitada estratégia de marketing. A publicação teve seus altos e baixos, sofrendo constantes processos de reformulação, até encontrar uma identidade própria.

Após mudanças orquestradas por Accioly Netto, tornou-se a revista mais vendida do Brasil durante quase duas décadas (entre 1940 e 1960). E um dos responsáveis pela ampliação das vendas foi justamente o jovem desenhista Alceu Penna, quando sua coluna As Garotas virou uma febre nacional, incentivando a emancipação feminina.

Leitor de O Tico-tico, Alceu Penna adorava histórias em quadrinhos. Quando criança, desenhava com giz ou carvão na calçada, esperando a chuva “apagar” a arte para poder fazer outra.

No colégio, suas artes com mulheres em trajes mínimos e poses sensuais lhe renderam popularidade entre os meninos. E, apesar de ter começado o curso de Arquitetura, sendo contemporâneo de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, sabia que seu futuro estava no desenho.

Em 1937, somou forças a Antônio Callado e Nelson Rodrigues no suplemento O Globo Juvenil (mesmo sendo do concorrente Roberto Marinho, ele não podia perder a oportunidade, uma vez que, até aquele momento, era apenas o responsável pelas capas de O Cruzeiro, e o pagamento só chegava com bastante atraso).

Segundo Gonçalo Junior, Alceu Penna chegou a fazer mais de cem edições do referido suplemento, fosse assinando capas, desenhando algumas histórias avulsas e séries de quadrinhos ou ajudando Nelson Rodrigues com as traduções e as letras.

Anos depois, Alceu convidou Millôr Fernandes para fazer parte dessa equipe, bem como a escrever as legendas para As Garotas.

Outra série de quadrinhos bastante popular foi Marido de Madame, que Alceu desenhava e Accioly Netto escrevia, sob o pseudônimo de Álvaro Armando. Foi publicada na revista A Cigarra (que fazia parte dos Diários Associados), durante a década de 1950.

No entanto, Alceu gostava mesmo era de desenhar mulheres.

Mulheres e moda eram um prato cheio para ele. Fã de J. Carlos e Erté, foi aprimorando seu traço e, em 1938, com 23 anos, após receber um pedido de Accioly Netto para pensar em algo similar às Gibson Girls, que Charles Dana Gibson fazia para o jornal The Saturday Evening Post, Alceu criou a coluna As Garotas, na qual abordava temas diversos, num tom de conversa entre belas, ousadas e ultramodernas meninas (que estavam longe de ser vulgares).

As garotas de Alceu mostravam o charme e uma certa malícia da mulher brasileira (leia-se carioca), forjando um ícone de beleza, moda e comportamento que fora idealizado não só pelo sexo feminino, mas por muitos homens também.

A coluna era tão popular que, mesmo em sua primeira temporada nos Estados Unidos (entre 1939 e o início de 1941), Alceu nunca interrompeu a produção. E nessa viagem à América do Norte, ele até flertou com a ideia de trabalhar nos Estúdios Disney, mas acabou sendo o primeiro brasileiro a publicar na prestigiada revista masculina Esquire.

No tocante à moda, Alceu chegou a participar de concursos de fantasias carnavalescas, desenhou uma porção de cenários e figurinos para os espetáculos do Cassino da Urca e criou figurinos para Carmen Miranda e seu Bando da Lua, além da miss Martha Rocha. Nos dois últimos capítulos do livro, Gonçalo enfoca justamente o Alceu “estilista”, quando passou a criar figurinos exclusivos para a empresa Rhodia, tomando como base seus anos de contato com a retomada da moda parisiense, quando havia coberto desfiles e assinado editoriais de moda direto da Europa.

Devido à sobrecarga de trabalho, Alceu saiu de O Cruzeiro em 1968 (com certa mágoa, pois nos 35 anos em que trabalhou lá, somente fora creditado como “colaborador”, sem demais vínculos empregatícios). Nesse período, a revista já estava brigando com a forte concorrente Manchete e com a novíssima Veja.

Em meados da década de 1970, tanto O Cruzeiro quanto Alceu ficaram doentes. Enquanto a revista ficou ultrapassada, Alceu estava literalmente ditando moda, mas os limites do corpo o fizeram parar. Após sofrer um primeiro derrame, perdeu a precisão da mão para desenhar e, em janeiro de 1980, ganhou o merecido descanso eterno.

O livro é finalizado com as gentis palavras de Ziraldo sobre o legado de Alceu Penna, e sua homenagem a ele ao desenhar a Professora Maluquinha.

Alceu Penna e as garotas do Brasil – Moda e imprensa – 1933 a 1975 é uma edição ampliada da que havia sido impressa pelo Clube dos Quadrinhos, de São Paulo, em 2004. O selo Amarilys, da Editora Manole, se esmerou para publicar, em 2011, um livro à altura do talento de Alceu: capa dura, papel couché e um riquíssimo acervo ilustrado, trazendo alguns inéditos esboços e ilustrações publicitárias vetadas (devido ao decoro da época).

A edição da Amarilys ganhou merecidamente o Prêmio Jabuti, na categoria Biografia, em 2011.

Classificação

5,0

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