The Alcoholic

Por Zé Oliboni
Data: 18 fevereiro, 2011

The AlcoholicEditoraDC Comics / Vertigo – Edição especial

Autores: Jonathan Ames (roteiro) e Dean Haspiel (arte).

Preço: US$ 14,99

Número de páginas: 136

Data de lançamento: Setembro de 2008

Sinopse

Jonathan A. é bêbado, usuário de cocaína, sexualmente confuso e irremediavelmente romântico. Para ele, escrever e beber é fácil. As partes difíceis da vida são o amor e a esperança.

A sua vida se divide entre fantasmas de seus relacionamentos fracassados, as conversas com sua tia-avó e os problemas que arranja nas suas noites alcoolizadas.

The Alcoholic é um relato sincero que foge dos clichês sobre o abuso de álcool e drogas e discute este e outros problemas sem nunca colocar o narrador na posição de vítima ou buscar uma moral para a história.

Positivo/Negativo

Jonathan Ames é um dos brilhantes escritores norte-americanos que o mercado editorial brasileiro ainda precisa descobrir.

Até o momento, o único material dele disponível por aqui é a primeira temporada da divertidíssima série televisiva Bored to Death, produzida pelo canal HBO. Ainda faltam seus romances, ensaios e, claro, a HQ The Alcoholic, publicada pela DC/Vertigo.

Ames estreou nos quadrinhos diretamente no mainstream com esta belíssima e surpreendente história quase autobiográfica sobre um escritor alcoólatra.

Vale começar explicando o lado autobiográfico da trama. Assim como na série Bored to Death, Ames pega uma faceta de sua personalidade (no caso, o alcoolismo) e preenche o restante com ficção criando um personagem que é parcialmente ele.

Outra prática do roteirista é inserir experiências marcantes da sua vida no contexto da história – tanto que algumas situações vistas na HQ acontecem na série de TV de formas diferentes.

Mas o que é verdade ou não é apenas uma curiosidade que o leitor pode ter, um algo mais para descobrir ou discutir, pois o principal mérito de Ames é a sua voz narrativa, que faz toda a história parecer extremamente sincera.

A HQ é narrada em primeira pessoa e, juntando os recordatórios, tem-se um honesto relato do personagem central sobre a sua vida como alcoólatra. Inspirado em autores como Charles Bukowski e Jack Kerouac – também famosos pelo abuso de álcool e outras drogas -, o texto de Ames é direto e releva tanto sobre o lado obscuro e constrangedor do personagem, que, em nenhum momento, o leitor tem motivos para duvidar ou achar que ele está escondendo algo.

Abuso de álcool, cocaína, experiências homossexuais, sofrimento interminável por causa de uma garota e até problemas de incontinência são narrados naturalmente. Nada tem um grande destaque, nada é piegas, apelativo.

Com seu texto tranquilizante, o autor não quer comover, fazer graça, talvez nem mesmo entreter, apenas relatar a história e os sentimentos envolvidos. Não há juízo de valores, moral, certo ou errado; é tudo parte da vida, como realmente é.

O alcoolismo do personagem é o fio condutor da trama, mas não espere um grande drama social por isso, nem uma belíssima história de redenção.

Vale notar duas escolhas do autor: o nome do personagem é sempre grafado como Jonathan A. – remetendo aos crachás usados nas reuniões dos Alcoólicos Anônimos – e o texto é um relato de vida, algo comum nesses encontros.

Contudo, ele não se junta ao grupo e, caso o fizesse, não seria exatamente uma história de sucesso. Jonathan até se interna em uma clínica de reabilitação e para de beber por um tempo, mas isso é tratado como uma etapa da vida que termina naturalmente quando ele volta ao álcool.

Sobre a arte, não há como negar que Dean Haspiel é um ótimo desenhista. Em certos momentos, ele mostra ser também um bom narrador visual, pelo design de suas páginas.

No entanto, Ames é principiante nos roteiros de quadrinhos e não tem todo o traquejo necessário para aproveitar o fato de a história estar sendo narrada visualmente. Haspiel se esforça e cabem pouquíssimas críticas ao resultado final, mas, inevitavelmente, há momentos em que o texto e a imagem se tornam redundantes.

Não é necessário – e nem seria justo com futuros leitores – contar tudo que acontece com o personagem, pois a trama a cada momento revela situações e discute temas inesperados.

Só resta dizer que The Alcoholic é uma leitura excelente. E fica a dica para os editores brasileiros sobre a qualidade do trabalho multimídia de Jonathan Ames.

Classificação

5,0

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