ALMANAQUE DE BATMAN BIG 66

Por Toni Rodrigues
Data: 4 outubro, 2009


Autores: John Broome, Bill Finger, David V. Reed, Bob Haney e Jack Miller (texto), Bob Kane, Sheldon Moldoff, Dick Sprang, Lew Sayre Schartz, Charles Paris, Stan Kaye, Jim Mooney, Ramona Fradon, George Papp, Lee Elias (desenhos) e Alcebíades Monteiro Filho (capa).

Preço: Cr$ 1.000,00 (preço da época)

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Dezembro de 1965

Sinopses: A hora final do mundo – Batman e Robin se defrontam com a Hydra, um poderoso sindicato do crime que pretende chantagear a ONU com a ameaça de provocar uma guerra entre dois países asiáticos.

O agente de publicidade de Batman – O publicitário Mike Whalen é contratado pela prefeitura de Gotham City para fazer uma campanha para tornar Batman e Robin ainda mais temidos pelos criminosos.

O júri do Coringa – O Palhaço do Crime arma uma arapuca para a Dupla Dinâmica, prendendo os heróis e promovendo um julgamento em que serve de juiz para um júri de criminosos. Os heróis são salvos graças à sua astúcia e à intervenção de Mulher-Morcego e Menina-Morcego.

Batman se apaixona – O herói deixa Gotham inteiramente à mercê do crime por estar completamente apaixonado pela fabulosa Magda Luvesca, uma beleza internacional que ele deve proteger. E só depois de muito esforço é que Vicky Vale e Robin conseguem trazê-lo de volta ao bom combate.

A caçada à identidade secreta de Batman – O Cruzado Encapuzado às voltas com o Homem-Espelho, vilão que consegue ver remotamente a imagem de todos os espelhos de Gotham, incluindo os da Mansão Wayne e da batcaverna.

Os dias de universidade de Batman – Durante um cruzeiro, Bruce Wayne rememora os dias em que ainda se preparava para se tornar o Batman jogando beisebol e praticando esgrima e luta livre. Então, acontece um roubo no navio, cometido justamente por um ex-colega dos tempos de escola.

O ataque dos soldados de Homem Submarino – O herói dos sete mares e seu amigo Rapaz Submarino comandam os seres do mar contra a quadrilha do gênio criminoso Professor Snark, que ataca os navios incautos com seu submarino-baleia.

Sua majestade, o Rei Batman – Batman troca de lugar com o Rei Eric, da Norânia, para impedir que ele sofra um atentado. Mas os problemas realmente aparecem quando o monarca resolve agir como o Batman combatendo o crime ao lado de Robin.

Os safáris condenados – Congo Bill e seu fiel companheiro Janu, o menino das selvas, tem que transformar rudes recrutas em hábeis exploradores.

As estátuas dos Sete Mares – O Homem Submarino precisa descobrir por que as estátuas erigidas em sua homenagem estão sendo vandalizadas.

O arqueiro de história em quadrinhos – Arqueiro Verde e Ricardito se esforçam para repetir na vida real os feitos do personagem de histórias em quadrinhos Arqueiro Mágico.

A ameaça ao Canal 14 – Batman contra uma quadrilha que se apodera de um estúdio de televisão e ameaça matar todo mundo lá dentro se seu chefe, condenado à morte, não for libertado.

Positivo/Negativo: Batman é publicado no Brasil desde os anos 40,
suas primeiras histórias saíram em O Lobinho e depois saiu também
no Globo Juvenil, no qual chegou a ser chamado de Homem Morcego
e ter como identidade secreta Bruno Dias.
A Ebal começou a publicar suas histórias logo nos primeiros números de Superman, sendo que, em alguns deles, Batman apareceu com mais destaque do que o Homem de Aço.

O Morcego ganhou revista própria em março de 1953, mas custou muito para ganhar seu próprio almanaque anual, o que só aconteceu em 1964.

A tradição das edições anuais de revistas infanto-juvenis no Brasil começou com as famosas Edições de Natal d’ O Tico Tico, ainda na década de 1920. Esses títulos costumavam ser um presente de final de ano bastante aguardado por muitas crianças.

Havia também edições especiais de meio de ano, às vezes chamadas de Almanaque de Férias ou Edição de São João, mas a mais cobiçada mesmo era a anual.

Superman ganhou seu primeiro almanaque em 1950 (saiu em dezembro de 1949), em formato gigante, com vários heróis convidados, como Homem Submarino (Aquaman), Arqueiro Verde, Joel Ciclone (Flash), Zatara e Batman.

Tal qual como acontecia na revista Superman, Batman passou a ser uma constante no almanaque anual do Homem de Aço, compartilhando a capa com ele em vários deles, até merecer seu próprio almanaque.

Mas o “alvo” desta resenha é o de 1966, publicado no final de 1965. Isso porque a safra de almanaques da Ebal naquele ano foi especial. Todos (Superman, Tarzan, Batman, Zorro, Princesinha e Papai Noel) foram no mesmo formato gigante daquele de Superman em 1950, publicado 16 anos antes.

E todos, menos Tarzan e Superman, mereceram capas lindíssimas de um dos maiores ilustradores brasileiros de todos os tempos: Alcebíades Monteiro Filho, na época diretor de arte da Ebal (só para constar, a capa do Almanaque de Tarzan foi uma bela ilustração de Moe Gollub; e a do de Superman foi de Eugênio Colonnese, recém-chegado da Argentina).

Esta capa é um trabalho lindo, no qual o traço, feito com pena, teve suas cores alteradas no processo de manufatura dos fotolitos, com filmes e máscaras, um feito simplesmente incrível naqueles anos em que algo como o Photoshop não podia ser concebido nem pelos escritores de ficção científica.

Um trabalho de alguém que conhecia profundamente o processo gráfico de separação de cores e era capaz de intervir nele. Mas, como mesmo os grandes cometem erros, estranhamente Monteiro Filho desenhou unhas nas luvas do Batman, um personagem que já havia feito antes. Certamente foi um momento de distração.

A primeira história da revista traz o Batman da fase new look, editada por Julius Schwartz, uma grande novidade então, pois essas aventuras só começaram a sair em 1964, um ano antes deste almanaque.

Não chega a ser um grande momento do Morcego, mas o curioso fica por conta da organização criminosa chamada Hydra, que precede em um ano sua homônima da Marvel. E a filosofia de ambas é a mesma: corte uma cabeça e outras sete nascerão, como o monstro mitológico.

A única diferença é que na Hydra das histórias de Nick Fury as cabeças renascidas são duas e a turma usa uniforme – a da DC é composta de bandidos em roupas civis.

Esta história foi escrita por John Broome e desenhada por Sheldon Moldoff, um dos muitos ghost artists de Bob Kane, nessa época emulando o estilo lançado por Carmine Infantino.

Todas as outras aventuras de Batman são de uma fase anterior, dos anos 50, editadas no original por Jack Schiff, com textos de Bill Finger (cocriador do herói) e David V. Reed.

Os desenhos são de Dick Sprang, Lew Sayre Schwartz e Sheldon Moldoff (num outro estilo), com arte-final de Charles Paris ou Stan Kaye, dependendo da história. Estes foram os ghosts que emprestaram seu traço a Bob Kane (que não fez praticamente nada do personagem desde o final dos anos de 1940).

Todas as histórias são bastante movimentadas, inocentes e meio ridículas para os padrões atuais, mas ainda divertem bastante. É aquele Batman que resolve tudo no último quadrinho e que antes de chegar a isso percorreu com Robin algum cenário bizarro, cheio de máquinas de escrever gigantes e coisas do gênero.

Há duas aventuras do Homem Submarino (Aquaman) neste almanaque, ambas de períodos diferentes. A primeira é do começo dos anos 1960 e foi escrita por um dos melhores roteiristas da DC no período, o hoje injustamente esquecido Bob Haney, que viria a roteirizar algumas das melhores HQs do Batman para a revista The Brave and The Bold anos depois.

Os desenhos são de Jim Mooney, artista competente que teve uma longa carreira iniciada no final da década de 1940 e chegou a desenhar o Homem-Aranha para a Marvel até o início dos anos 80. Ele tinha um estilo agradável e certinho, porém um tanto sem graça.

A segunda aventura é de autoria de Jack Miller, também um dos editores da DC até meados dos anos 1960. Ele escreveu boa parte das HQs de Aquaman desenhadas por Ramona Fradon, como esta.

Ramona foi uma das raras mulheres a desenhar quadrinhos nos anos 50 e tinha um trabalho muito bonito, com grande influência de Milton Caniff, mas também com muita personalidade. Vale a pena conhecer melhor o trabalho desta artista, que trabalhou na indústria dos quadrinhos até 1995 e foi indicada a figurar, merecidamente, no Comics Hall of Fame em 2006.

As duas histórias do Homem Submarino são bem divertidas; e o fato de aparecerem na mesma revista sem nenhuma preocupação com ordem cronológica (como as de Batman) são o retrato de uma época em que ninguém ligava pra isso. Afinal, todas as histórias eram completas, não havia arcos, subtramas, nada disso.

A HQ do Arqueiro Verde tem desenhos de Lee Elias, um dos heróis anônimos dos quadrinhos. Também seguidor da escola caniffiana, teve uma longa carreira e desenhou para todas as editoras americanas dos anos 50, como Dell, Timely, DC, American, MLJ etc.

O autor do texto é desconhecido, mas a história tem uma trama metalinguística interessante e, em sua época, pouco explorada.

Por fim, uma história de Congo Bill, herói criado por Whitney Ellsworth e Gerge Papp que teve uma longa carreira como personagem de histórias complementares em vários títulos da DC, entre 1940 e 1961. E foi desenhado pelo ótimo John Smalle, pelo sensacional Fred Ray e, claro, pelo competente George Papp, que assina a fraca aventura deste almanaque.

A edição é complementada por um monte de curiosidades espalhadas pelos espaços disponíveis ao longo das páginas. Elas abordam todo tipo de assunto, desde os olhos do camaleão (que se movem independentemente um do outro) ao nome do quartel do exército do General San Marti em Buenos Aires (que se chamava Campo de San Carlos). Afinal, uma revista em quadrinhos pode ser divertida e educativa, como o próprio Adolfo Aizen diria.

Este almanaque é bastante raro, mas de vez em quando aparece algum exemplar nos sites de leilão. Para quem curte o Batman atual, talvez não valha a pena o desembolso necessário para comprar.

No entanto, para quem coleciona ou para aqueles que eram crianças na época de seu lançamento, é um dos mais valiosos. Afinal, memória afetiva não tem preço.

 

Classificação:

4,0

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