Angela Della Morte

Por Liber Paz
Data: 14 dezembro, 2012

Angela Della Morte Editora: Zarabatana – Edição especial

Autor: Salvador Sanz (roteiro e arte).

Preço: R$ 39,00

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Outubro de 2012

Sinopse

Angela Della Morte trabalha nos Laboratórios Sibelius, onde realiza uma inusitada função: enganar o próprio corpo simulando a morte de modo a liberar sua alma que pode se apossar de pessoas “desalmadas”.

Assim, Angela pode assumir outros corpos, outras identidades, e realizar estranhas missões. Os cinco primeiros episódios presentes neste volume possuem cronologia entre si, mas também podem ser lidos como três tramas independentes.

Desalmada é a história de apresentação de Angela, dos laboratórios Sibelius e da realidade em que vivem esses personagens: um mundo onde a alma humana é estudada cientificamente e se sabe que a morte são criaturas que farejam e se alimentam das almas que permanecem afastadas de seus corpos por mais de 35 minutos.

O Perecedor apresenta Bruno, ex-namorado de Angela, um ex-agente dos Laboratórios Sibelius que, ao ingressar na misteriosa organização chamada Governo Fluo, passa por um procedimento que o transforma em um assassino fantasmagórico capaz de matar com um toque.

Em Soltar a fera, os cientistas do laboratório Sibelius descobrem como remover cirurgicamente o Mal da alma humana. Após se submeter ao processo, Angela passa por um período de quarentena na lua, onde vive um terrível incidente.

Positivo/Negativo

Angela Della Morte é o terceiro volume da série Coleção Fierro e o segundo de autoria do argentino Salvador Sanz.

Assim como Noturno, trata-se de uma história de fantasia com uma atmosfera sinistra e pitadas de melancolia e existencialismo.

Entretanto, Noturno era uma história fechada, que se concluía em um só volume. Angela Della Morte são aventuras seriadas que ainda estão sendo produzidas e publicadas na revista Fierro – uma informação que faz falta na edição nacional.

Angela Della Morte tem semelhanças com a série animada dos anos 1990, Aeon Flux. As duas protagonistas são uma espécie de “agentes secretas” que vivem missões em que a ação empalidece diante da estranheza da realidade extraordinária em que vivem.

Mas, ao contrário da curvilínea atleta Aeon, Angela é uma moça comum, com alguns quilinhos a mais e mora em uma Buenos Aires contemporânea.

O álbum começa com a curta história de abertura, na qual são explicadas as regras do mundo de Angela, em que a alma e a morte possuem materialidade. A seguir, há duas tramas distintas que se dividem em dois episódios cada.

Embora a ação e o clima de espionagem estejam presentes em todo o álbum, o estilo de narrativa, o ritmo e a própria arte de Salvador Sanz valorizam muito a paranoia, a introspecção e a reflexão.

Os desenhos são detalhados, realistas, e o uso de sombras e tons de cinza reforça a ideia de ambientes escuros e claustrofóbicos, iluminados apenas por uma lanterna ou uma lâmpada.

A história está cheia de detalhes instigantes, como a aparência do aparelho que simula a morte de Angela, que dá a impressão de ser uma forca. O corpo da moça é suspenso violentamente para depois balançar inanimado.

A Vênus de Willendorf é uma pequena estátua de milhares de anos que representa uma imagem feminina de fartos seios, quadris e barriga. Acredita-se que tenha significados relacionados com fertilidade, o que faz a repetição de sua imagem em certos painéis das histórias contrastar ou, às vezes, evidenciar a ideia constante de morte.

Esse tipo de escolha de imagens e representações enriquece demais a obra e amplia a possibilidade de leituras visuais.

Sanz elabora tramas com ritmo e velocidade, mas com espaço para reflexões despretensiosas sobre morte, alma, identidade, amor e o Mal. Será que tais coisas poderiam ter materialidade? E se tivessem, como seria?

Ao contrário de Noturno, que era ambientado em um mundo mais próximo do real, as referências visuais de Angela Della Morte evocam pouca coisa da Buenos Aires verdadeira. Em um painel é mostrado o sofisticado monumento Floralis Generica, que pela sua natureza fantástica acaba combinando com os cenários de ficção científica dos Laboratórios Sibelius.

Uma forte referência ao mundo real acaba se construindo principalmente pelas roupas que a personagem usa: casacos, pulseiras, cintos, calças desenhadas em detalhes de maneira muito convincente.

No mais, Angela caminha por um mundo extraordinário, onde a morte é uma criatura que pode ser aprisionada numa gaiola e o Mal, uma substância que pode ser extraída da alma.

Aliás, a terceira trama do álbum, Soltar a fera é talvez a mais instigante. Ambientada na lua, traz muitas referências a filmes como Alien e 2001 – uma odisseia no espaço. Termina com uma ponta solta que, embora não signifique uma falta de conclusão para os eventos do álbum, deixa vontade de ver o que acontecerá com Angela nos próximos episódios.

Salvador Sanz firma-se com Angela Della Morte como um notável autor de fantasia e ficção científica, apresentando uma série com boas sequências de ação, excelente visual e temas instigantes.

Vale ressaltar também o bom trabalho da Zarabatana, que proporcionou uma ótima apresentação gráfica à obra. E o formato maior da edição brasileira de Angela Della Morte valoriza a detalhada arte de Sanz.

Classificação

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