ARZACH

Por Eduardo Nasi
Data: 1 dezembro, 2011

ARZACH

Editora: Nemo – Edição especial

Autor: Moebius (texto e arte).

Preço: R$ 42,00

Número de páginas: 56

Data de lançamento: Julho de 2011

 

Sinopse

Antologia de histórias curtas do quadrinhista francês Moebius que foca especialmente em Arzach, um guerreiro que monta um animal alado que evoca um pterodátilo.

Positivo/Negativo

Primeiro álbum adulto a sair do prelo pelo selo Nemo, Arzach chegou às livrarias cercado de expectativas. Afinal, o boom dos quadrinhos nesse nicho é imenso e dá conta de super-heróis, mangás, alternativos, adaptações literárias, autores brasileiros aos montes… Mas a presença dos europeus ainda parece desproporcional em relação ao tamanho do mercado do Velho Mundo – e também à sua qualidade. Não que não haja lançamentos, pois há. A sensação que paira é de que deveria haver bem mais.

Aí a Nemo surgiu prometendo dar conta ao menos de parte desse lapso. De cara, não é qualquer coisa: com Hugo Pratt (a sair) e uma coleção de Moebius – da qual Arzach é a estreia.

A primeira impressão que a casa provoca é boa: ao segurar o volume na livraria, vê-se que até fisicamente Arzach parece um álbum europeu. Tem capa dura, formato 24 x 32 cm, impressão em boas cores, papel de qualidade, brilhoso. É uma estreia promissora graficamente.

Resta ao acabamento fazer jus ao conteúdo. E aí depende do freguês.

Moebius é um autor de qualidades imensas, um desenhista cuja influência ultrapassa o limite dos quadrinhos, que é epicentro visual de filmes que mudaram a forma como o mundo retrata seu futuro. Longas-metragens como Aliens, Tron, Star Wars, Blade Runner carregam o francês nas costas. Não é possível rebaixá-lo deste nível.

Até aí, tudo bem. Mas talvez um detrator qualquer pensasse em desqualificar Arzach dizendo ser uma obra menor, que nela Moebius brilha muito menos do que em outros trabalhos. E pode até ser verdade: o autor tem HQs melhores.

(Pra encerrar o assunto, sugere-se: Incal e A garagem hermética.)

Mas, aqui, usar o currículo de seu autor não é mero adjetivo. Não se trata de dizer que A é maior ou melhor que B. E sim de explorar Arzach, de tentar ampliar a percepção do leitor, de ajudá-lo a encontrar o Moebius que verdadeiramente importa.

E aí o poder do artista de ser uma espécie de gerador de tendências visuais deve ser evocado, ainda mais quando se trata de uma HQ da década de 1970, que é quando esse poder esteve no auge.

A série Arzach é prioritariamente visual. Tem poucas palavras, e em apenas duas das sete histórias. Os textos ainda são instáveis: de propósito, a grafia de Arzach muda, vira Harzakc, Harzac, Harzack, Arzak… A pronúncia se mantém – não é o termo escrito que importa, é o som, justamente em uma arte como as HQs, que não tem o hábito de ser sonora, salvo eventualmente por conta de uma trilha sugerida (ou, mais recentemente, forçada).

Nas imagens, se vê um guerreiro: Arzach. O leitor não sabe nada sobre ele. A rigor, nem que é um guerreiro. Mas a leitura é indicial, e fortíssima: sua postura austera, sua capa, o punhal na cintura e as botas. E mais: o traje parece resistente, de quem está passando por uma longa jornada, com espaço para apetrechos, até com uma pochete. O peito carrega símbolos: primeiro, uma caveira com chifres; mais tarde, formas geométricas.

Como todo guerreiro, Arzach tem um cavalo. No seu caso, é uma espécie de pterodátilo gorducho voador. Mas é branco, como os cavalos dos príncipes dos contos de fada. Um animal que parece forte, companheiro, fiel.

Na primeira vez aparece voando, está se aproximando de uma estrutura avermelhada. Lembra uma torre, um castelo… Se aproxima de um ser grande. Lembra um homem. Sem camisa, cabeça e mãos grandes, mostra músculos. Parece um selvagem. Certamente não é tão nobre quanto Arzach.

Na segunda história, Arzach sobrevoa um campo esverdeado, com estruturas que parecem tentáculos. Logo o leitor descobre que são – um dos bichos voadores é perdido ali. Em seguida, o protagonista enfrenta um ser avermelhado gigante. Parece irracional: o corpo lembra o de um gorila, o pênis descoberto sacode pra todo lado…

Mais uma aventura: em um lugar que parece um deserto, um homem verde com roupas de piloto anda num calhambeque. Chega a um templo habitado por outros seres verdes, mas que não estão vestidos.

Nos parágrafos acima, foi difícil poupar, em nome da precisão, verbos como “lembrar” e “parecer”. No mundo de Arzach, é difícil afirmar muita coisa com certeza. Mas, mesmo assim, pode-se ler as histórias, entender o que está acontecendo, deduzir quem tem qual papel.

Mesmo quando Moebius passa a usar palavras, nas últimas histórias, dá para saber o que são “crafdfembrizens”.

Esse é justamente o grande barato desta série de histórias curtas de Moebius: ler ideias visuais instáveis, mas que, de tão fortes, de tão arquetípicas, o leitor consegue reconhecer e compreender, encaixando-as em uma narrativa.

Para funcionar, Arzach faz uma ligação direta com o inconsciente. Traz sonhos e delírios para o mundo desperto. Altera a percepção da realidade: faz ver sentido onde, a priori, não haveria nenhum.

É por isso que O desvio, história que abre a antologia, faz tanto sentido dentro deste álbum. Não tem Arzach, é em preto e branco, com um traço bem mais hachurado, e provavelmente tem mais palavras por página do que todo o resto do volume. Mas a temática é a mesma.

Arzach pode não ser um dos álbuns canônicos de Moebius, daqueles cuja fama precede a leitura, e que tem ideias elaboradíssimas. Nele, o autor está mais cru – e, no caso do francês, isso é bom. Sua visão de mundo fica mais transparente. Dá para ver suas ideias se formando, ganhando peso, volume, textura e significado.

E enxergar com clareza esse processo em um autor com a influência que Moebius tem não é pouca bobagem.

Classificação:

4,0

• Outros artigos escritos por

.

.

.