ASSASSIN’S CREED – A QUEDA

Por Thiago Borges
Data: 1 dezembro, 2012

ASSASSIN'S CREED - A QUEDA

Editora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Karl Kerschl e Cameron Stewart (roteiro e arte) – Publicado originalmente em Assassin’s Creed: The Fall # 1 a # 3 e Assassin’s Creed: The Fall – Epilogue.

Preço: R$ 14,90

Número de páginas: 104

Data de lançamento: Abril de 2012

 

Sinopse

No fim do século 19, Nikolai Orelov, um membro russo da Ordem dos Assassinos, luta contra os Cavaleiros Templários para garantir a posse de um mítico e poderoso artefato.

Mais de cem anos depois, no início da década de 2000, Daniel Cross, descendente de Orelov, assume a centenária batalha de sua família contra os templários, representados nesses novos tempos pelas misteriosas Indústrias Abstergo.

Positivo/Negativo

Assassin’s Creed é uma das séries de videogame mais aclamadas por público e crítica dos últimos tempos. Unindo ficção científica, ação furtiva e uma extensa e detalhada recriação de períodos históricos (como o Oriente Médio das Cruzadas e a Itália renascentista), seus quatro jogos lançados até então – Assassin’s Creed, Assassin’s Creed 2, Assassins’s Creed Brotherhood e Assassin’s Creed Revelations – já venderam dezenas de milhões de unidades ao redor do mundo.

Seria ingenuidade, então, achar que a desenvolvedora francesa de games Ubisoft não levaria um de seus mais famosos produtos para outras mídias. Hoje, já há livros e curtas-metragens ostentando a marca. Os quadrinhos, claro, não ficariam de fora.

E a surpresa quando da leitura de A Queda é genuína: a série – publicada nos Estados Unidos em três edições, mais um prólogo, todas presentes no lançamento da Panini – está muito longe de ser um mero caça-níquel.

Com bela arte e roteiro maduro – não só pela trama sólida, mas pela inteligente diagramação que dita o ritmo da trama em várias sequências -, A Queda não se limita a copiar os conceitos apresentados nos jogos, e consegue inserir novas ideias em um universo já cheio de particularidades.

Vale lembrar que os games de Assassin’s Creed narram a milenar batalha entre a Ordem dos Assassinos, defensores do conhecimento e do livre arbítrio, e os Cavaleiros Templários, irmandade que busca instaurar uma nova ordem mundial baseada no terror e na escravidão.

Nos dias atuais, as misteriosas Indústrias Abstergo, representantes dos templários, descobrem ser possível reviver memórias de antepassados graças à manipulação do DNA humano. O conceito é claramente inspirado no filme Matrix, de 1999: uma pessoa é conectada a uma máquina – no caso, o Animus – e percorre, passo a passo, a vida de gerações passadas.

Isso tudo serve para a empresa encontrar o paradeiro de artefatos místicos poderosos, os Pedaços do Éden, que os ajudarão em seus interesses escusos. Na pele de um assassino dos tempos modernos, o objetivo do jogador é impedir a Abstergo de atingir esse objetivo.

Karl Kerschl e Cameron Stewart, que dividem roteiro e arte de A Queda, apostam em não explicar todo o background construído ao longo de quatro games. Os não familiarizados com o modus operandi de Assassin’s Creed talvez tenham alguma dificuldade em entender o que se passa – mesmo assim, é possível interpretar a HQ como um interessante sci-fi alucinógeno.

Essa aposta se transforma, da forma mais contraditória possível, no único erro e também no principal acerto dos autores. Erro, já que a base de leitores pode ficar restrita aos fãs dos jogos; e acerto, pois a trama é direta, focada, sem tempo para exposições.

Nenhum dos três personagens principais dos jogos aparece aqui – o barman norte-americano Desmond Miles; o árabe Altaïr Ibn-La’Ahad; e o italiano Ezio Auditore da Firenze. O leitor acompanha Daniel Cross, jovem estadunidense de ascendência russa. Viciado em drogas, ele é um garoto problemático: viu a namorada morrer por overdose, não consegue emprego fixo e toma remédios para controlar visões ininteligíveis.

Daniel se descobre, então, mais um da linhagem dos assassinos, bisneto de Nikolai Orelov, membro da ordem que viveu na Rússia no fim do Século 19 e começo do 20, participando, inclusive, da Revolução Russa em 1917.

A narrativa se divide entre o presente – Daniel tendo os primeiros contatos com outros assassinos – e o passado – Nikolai tentando assassinar o czar templário Alexandre III para roubar seu cajado, forjado a partir de Pedaços do Éden.

As duas histórias se intercalam de forma natural, sempre a partir das visões de Daniel. E é esse modo de narrar a principal virtude da obra. As sequências de ação física são frenéticas, velozes, graças à distribuição de pequenos quadros pelas páginas, mostrando momentos pontuais, como golpes com lâminas, socos etc.

Esses quadros menores que ilustram certas ações dos personagens podem ser vistos em diversos pontos ao longo da trama e conferem a ela o dinamismo necessário para uma história cheia de intrigas.

A diagramação inteligente chega ao ápice no uso das splash pages: são poucas, mas todas essenciais e belas, como na explosão da Torre Wardenclyffe, construída pelo inventor russo Nikola Tesla, ou quando se revela toda a verdade por trás das frases, imagens e flashbacks desconexos apresentados ao leitor – um momento de verdadeiro choque, algo que faz falta em muitas HQs por aí.

Stewart e Kerschl acertam a mão na forma de narrar os fatos em quadrinhos – o elogio se estende para a arte, que cumpre muito bem seu papel, e a realista iluminação dos ambientes, com perfeita reprodução dos raios de sol atravessando janelas entreabertas, por exemplo.

Assassin’s Creed – A Queda tinha tudo para ser uma HQ ruim, com o único intuito de faturar em cima de uma marca conhecida mundialmente. Felizmente, seu conteúdo é bem mais do que isso: apresenta uma trama madura, com uma brilhante reviravolta no final.

Mesmo para quem não conhece o universo de Assassin’s Creed é uma boa opção de leitura, pois histórias bem contadas são sempre universais.

A edição da Panini traz um glossário de referências, em que a dupla de artistas contextualiza os acontecimentos reais e os personagens históricos mostrados em A Queda. De brinde, o leitor ganha um código para download de conteúdo exclusivo, destinado somente ao XBOX 360, do jogo Assassin’s Creed Revelations.

 

Classificação:

4,0

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