Asterios Polyp

Por Delfin
Data: 15 janeiro, 2010

Asterios PolypEditora: Pantheon – Edição especial

Autor: David Mazzucchelli (texto e arte).

Preço: US$ 29,95

Número de páginas: 344

Data de lançamento: Julho de 2009

Sinopse

No dia do seu aniversário de 50 anos, o renomado arquiteto e professor Asterios Polyp é vítima de um evento que o fará repensar a sua vida, seus dogmas e, principalmente, o seu grande amor.

Positivo/Negativo

No Brasil, não se ouve falar com destaque de David Mazzucchelli desde o lançamento, em 1994, de sua adaptação em quadrinhos do livro Cidade de Vidro de Paul Auster.

Então, após 15 anos, encontrar um material tão diferente e de apresentação tão inusitada comoAsterios Polyp deveria mesmo ser algo muito especial. O difícil, depois de ler este álbum, é fazer uma sinopse suficientemente neutra, pois a saga do arquiteto cinquentão é, pelo menos, a melhor história gráfica publicada nos Estados Unidos em 2009.

Antes de falar da trama, porém, vale uma investigação sobre o estranho título do álbum, que é o nome do personagem principal. Primeiro, o sobrenome Polyp, termo em inglês para pólipo, que é usado para denominar os organismos invertebrados como a anêmona do mar e os corais em geral – uma forma transitória entre as plantas marinhas e os animais. Mas o termo deriva do francês poulpe, que significa polvo, por conta de seus tentáculos.

Já Asterios vem diretamente de Asterion, antigo rei de Creta, cujo nome significa “mestre das estrelas” ou “estrelado”, que foi transformado em touro após ter desposado Europa, amante de Zeus.

Outra história dita que um dos netos de Europa, também chamado Asterios, ficou mais conhecido como o famoso Minotauro das lendas gregas. O touro é presença constante nas histórias antigas envolvendo Creta, cidade-estado da qual deriva a mais antiga civilização grega.

Creta possuía uma cultura rica e diversificada, muito particular. Chega a ser quase irônico que não seja de seu nome que derive a palavra que define o conceito de “concreto”. A ironia e a dualidade entre o que é perceptível aos sentidos e o que não é, aliás, são presenças constantes em Asterios Polyp.

No começo do álbum, o leitor conhece um homem solitário, entregue, em seu apartamento desleixado. Após a queda de um raio, o prédio em que mora fica em chamas. Ele, em seu instinto de sobrevivência, tem apenas tempo para se vestir e salvar três objetos: um isqueiro, um relógio de pulso e um canivete suíço.

Em pouco tempo tudo o que ele conhece como vida estará destruído. Novamente. É nessa situação que Asterios é apresentado, exatamente no seu aniversário de 50 anos.

Asterios Polyp é um arquiteto conhecido pelo design de suas construções elaboradas. No entanto, nenhuma delas nunca foi construída. Ainda assim, ele é renomado e vencedor de diversos prêmios. É autor de diversos livros e professor numa universidade, após ser considerado um aluno brilhante por onde passou.

É uma pessoa com um senso prático muito forte, que acredita que qualquer coisa pode ser classificada em apenas duas categorias, não importam os critérios escolhidos. Para Asterios, tudo é apenas preto ou branco. A dualidade não admite nuances. É assim desde seu nascimento. É como o seu mundo foi construído.

Como professor, ele pode influenciar outras pessoas a enxergarem esse mundo. Mas nunca nenhuma delas consegue alcançá-lo para mudar a sua percepção. Até ele conhecer, numa festa de universidade, a jovem artista Hana Sonnenschein.

Hana, é bom que se diga, é um nome que significa genericamente “flor” em japonês. É a real origem de seu nome. Sonnenschein é a palavra alemã para “luz do sol” ou “raios do sol”. Guarde essa informação.

É isso o que você precisa saber sobre a história para se interessar pelo roteiro de Asterios Polyp. Na verdade, há um pouco mais, que será tratado com cuidado até o fim desta resenha, tentando não estragar nenhuma surpresa. Como o fato de a trama ser narrada pelo irmão gêmeo de Asterios, Ignazio. Cujo nome deriva da palavra grega para “fogo”.

Os nomes têm um grande poder narrativo em Asterios Polyp. Mesmo os secundários. Asterios, por exemplo, é uma pessoa envolvente e atraente, mesmo não sendo sempre agradável. Um astro em torno do qual tudo gira. Ele é o mestre de seu mundo, até ser atingido pela luz de outra estrela e seus mundos colidirem, minando as certezas de cada um. Ao ler, pense nos outros personagens. Já há algumas dicas acima.

A narrativa não é linear. É entrecortada entre o presente e os vislumbres não lineares do passado do protagonista, como seria narrado pelo seu irmão, se isso fosse possível. Sim, pois o impossível, o improvável e o imponderável também fazem parte desta história permeada de fatos e certezas. Esteja pronto para tudo. Ler Asterios Polyp é ser surpreendido muitas vezes no decorrer das páginas.

Não é um livro fácil, deve-se admitir. As propostas narrativas de Mazzucchelli são intrincadas e merecem atenção. Há um grande jogo autorreferencial, o que fará com que o leitor retorne de modo inevitável a trechos anteriores da história em algum momento.

Ao mesmo tempo, Mazzucchelli é preciso: a diagramação e as cores (quase sempre apenas duas por página) trabalham sempre a favor da trama. Nada fica sobrando ou é supérfluo, algo que se poderia dizer de outras narrativas recentes, como Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Retalhos, de Craig Thompson.

Também é de se elogiar o fato de Asterios Polyp ir contra a maré das HQs autobiográficas, como as citadas no parágrafo anterior. É um universo contido e uma história com seus próprios mitos. Um conto de ascensão, queda e redenção. E o resultado final de tudo que é proposto pelo autor.

Falando em mitos – e como não falar deles? -, o uso deles permite uma nova leitura. A saga de Odisseu na Odisseia narrada por Homero, a lenda de Orfeu e Eurídice, a criação do homem segundo Aristófanes, dentre vários outros, permeiam boa parte da construção narrativa deAsterios Polyp.

A origem do personagem reforça tal construção. Esses mitos, reconstruídos e aplicados em favor do roteiro, fazem com que a história se fortaleça em significado e significância. Também há filosofia em profusão. E é feito bom uso dela.

Há de se ressaltar o enorme crescimento gráfico de David Mazzucchelli como artista. Assim como nada é gratuito em roteiro, uso de cores e disposição de páginas, também toda a técnica que ele utiliza no trato de cada personagem, cada cenário e cada situação é impecável e exemplar. Não é um traço realista. Chega a ser cartunesco em diversos momentos.

É um tanto quanto complexo, de fato, explicar em palavras o impacto que as linhas de cada personagem têm sobre o leitor. Mas é impossível não perceber a impassividade nos traços de Asterios, ou certa candura e calor nos de Hana. Isso é válido com todos os personagens. Acredite.

Em dado momento, o protagonista procura justificar a sua visão de mundo, baseada na dualidade, com exemplos retirados de obras literárias: Narciso e Goldmund (Herman Hesse), O visconde partido ao meio (Ítalo Calvino), O príncipe e o mendigo (Mark Twain), O médico e o monstro(Robert Louis Stevenson), A queda da casa de Usher (Edgar Allan Poe), entre outros.

Contudo, talvez uma resposta melhor e menos óbvia seja encontrada em A casa de Asterion conto incluído no livro O Aleph, de Jorge Luis Borges. Nele, revisita-se a lenda do Minotauro, mas contada pelo próprio. Ao final, Teseu conta para uma Ariadne aparentemente incrédula: “O Minotauro apenas se defendeu”. Exatamente como Asterios, se pararmos para pensar no complexo labirinto elaborado à sua volta, justamente para que não possa ser atingido.

Não se precisaria ir tão longe para observar a dualidade, seja formal ou estética. O livro possui 22 capítulos. Asterios nasceu num dia 22. Além disso, o conflito entre duas ideias e conceitos está em todo lugar. Como foi dito antes, há muitas pistas. É bom que cada um consiga investigar as suas. Isso só vai dar a cada leitor um gosto ainda maior pela história.

Pode-se dizer, sem dúvida, que, apesar de não se ter visto nenhum trabalho significante de Mazzucchelli desde Cidade de Vidro, ele se manteve muito ocupado. Pois este é um romance gráfico digno deste nome. Não foi escrito às pressas. Foi composto lentamente, trabalhado em minúcias. Pesquisado. Esmiuçado. Como uma grande obra deve ser.

A edição da Pantheon apenas reforça a importância da obra. O design da obra é todo de Mazzucchelli, incluindo minúcias como a cor do tecido protetor da costura do álbum. Foi impresso na China, que possui um dos melhores parques gráficos do mundo, inteiramente em papel reciclado – algo que confere às cores algo mais de clássico.

Peço aqui uma licença especial para utilizar primeira pessoa numa resenha (algo que o UHQ não costuma adotar), é necessário. Esta é uma das obras mais maduras que este jornalista leu na vida. Não foram poucas. E a referência (e reverência) não é apenas aos quadrinhos. David Mazzucchelli atingiu um nível de excelência conseguido por poucos de seus pares. Esteticamente, esta é o trabalho mais importante dos quadrinhos americanos desde Jimmy Corrigan, recentemente lançado no País.

Em outros tempos, seria difícil acreditar que uma HQ desta envergadura chegaria um dia às livrarias nacionais. Mas hoje é difícil crer que uma obra que esgotou a tiragem inicial de 18 mil exemplares nos Estados Unidos em três meses, de tamanha qualidade e sensibilidade, não chegará aos leitores brasileiros. Talvez mais breve do que se imagine.

Pois, diferente de Asterios, nós podemos.

Classificação

5,0

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