AVENIDA PAULISTA

Por Thiago Borges
Data: 1 dezembro, 2012

AVENIDA PAULISTA

Editora: Quadrinhos na Cia.

Autor: Luiz Gê (roteiro e arte).

Preço: R$ 39,00

Número de páginas: 88

Data de lançamento: Fevereiro de 2012

 

Sinopse

Mesclando pesquisa histórica e iconográfica e o cenário de delírio e fantasia característico dos trabalhos de Luiz Gê, o álbum narra cem anos de transformações ocorridas na avenida que simboliza como nenhum outro lugar o desenvolvimento acelerado e caótico de São Paulo.

Da idealização de um boulevard em estilo europeu pelo engenheiro Joaquim Eugênio de Lima, passando pela construção dos grandes casarões, o início da verticalização da cidade e os ambiciosos projetos urbanísticos que nunca saíram do papel até chegar ao cenário atual de engarrafamentos e grandes arranha-céus envidraçados.

Positivo/Negativo

Como toda obra de arte com valor acima do comum, Avenida Paulista não pode ser considerada um trabalho concreto, com fim em si mesmo. Na verdade, é um ser mutante, carregado de simbolismos e subjetividade, cujo sentido só se completa na visão do leitor.

Lançada em 1991, pode-se dizer que ainda está em processo de feitura – para esse relançamento, Luiz Gê acrescentou informações em alguns dos textos que apoiam os quadrinhos -, fato que a permite ser tão atual e contundente quanto há mais de 20 anos.

Não seria má ideia se, a cada década, Gê atualizasse para as novas gerações a sua visão sobre São Paulo – e (por que não?) sobre o nosso país – a partir de um dos principais símbolos da capital paulista.

O projeto original, sob o título Fragmentos completos, foi publicado na Revista Goodyear, distribuída a clientes e revendedores da empresa automotiva, para comemorar o centenário da construção da via. A edição com a HQ recebeu o maior número de cartas com pedidos de exemplares da história da publicação – cerca de 30 mil -, mas era óbvio que um relançamento em livrarias se fazia necessário.

A Quadrinhos na Cia. fez um belo trabalho ao encadernar a HQ, acrescentando uma longa introdução de Gê explicando sua relação pessoal com o tema e detalhes do processo de criação, um posfácio do arquiteto e urbanista Nabil Bonduki e uma linha do tempo com os principais fatos da história da avenida.

De qualquer modo, é inadmissível que o mercado editorial nacional tenha relegado o álbum ao ostracismo por tanto tempo.

Apesar do trabalho hercúleo de apuração histórica, sua abordagem trafega entre o factual e a ilusão com facilidade e destreza. A história da avenida já está escrita, nunca será alterada. Contudo, pode ser interpretada a bel-prazer. O autor, ao mesmo tempo em que narra o que ela foi e o que se tornou, ousa imaginar o que poderia ter sido.

São essas multifaces, e seus múltiplos tempos verbais, que transformam a obra em uma poderosa análise do presente por meio dos erros do passado, sem jamais deixar de se questionar a respeito do futuro.

A linha narrativa é clara: vai desde antes do nascimento da via, quando a região ainda era conhecida como Alto do Caaguaçu, passa pela idealização de seu projeto, surgido graças ao empreendedorismo de Joaquim Eugênio de Lima, que viu ali um reduto perfeito para a pujante burguesia paulistana do fim do Século 19; por sua inauguração, em 8 de dezembro de 1891; lembra a industrialização da cidade, em grande parte ocorrida pelas mãos de Francisco Matarazzo; a construção do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, assim como o início da especulação imobiliária; e a destruição dos antigos casarões para o erguimento de arranha-céus corporativos.

Tudo isso buscando projetar dois futuros distintos: um distópico, com a região dominada por empresas orwellianas sedentas por lucro, e outro otimista, acreditando na evolução do pensamento humano como forma de suprir as necessidades da população de uma metrópole como São Paulo.

Avenida Paulista oferece muita informação ao leitor – a cada duas ou três páginas de quadrinhos recheados com nomes, datas e citações, um texto de apoio oferece informações sobre o período abordado.

É no que está subentendido, entretanto, que seu tom politizado-surrealista-psicodélico emerge. Gê, então, capricha nas relações fantásticas para narrar os fatos. Quando fala sobre a Belle Époque paulistana nos primeiros anos do Século 20, tempo em que enormes casarões foram construídos por cafeicultores e comerciantes estrangeiros, o leitor vê castelos com cavaleiros, anões, faunos, tapetes voadores. No momento em que a força do império econômico dos Matarazzo começa a falar alto, gigantes são avistados caminhando pela cidade. Ou então, a partir dos anos 1970, com a construção de prédios comerciais, se presencia esses empreendimentos literalmente surgindo do chão, destruindo tudo o que existia em seus arredores.

Se a arte é essencial a qualquer quadrinho, aqui a cor também se transforma em elemento de narração. Nas já citadas décadas de 1910 e 1920, a mais rica paleta de cores da obra ilustra a exuberância econômica do período. Por outro lado, na projeção pessimista do futuro, tudo se carrega de monocórdicos tons frios. Até mesmo movimentos artísticos como o Futurismo e a Pop Art estão representados na colorização de episódios específicos.

Portanto, se Avenida Paulista é essa mistura de realidade, devaneio e ficção, por que ainda se faz relevante? Justamente pela postura de Gê. Seu trabalho não somente homenageia o tema abordado, mas faz questão de questionar se a região não poderia ser diferente – e, óbvio, poderia.

Existem espaços muito importantes por ali, como o principal museu da América Latina (Masp) ou o Parque Trianon. Porém, é pouco: a avenida tinha por obrigação ser o marco de São Paulo por excelência, assim como a Champs-Élysées está para Paris, ou a Times Square para Nova York, fugindo do concreto e do ferro que tomou conta de si.

E ideias para isso não faltaram ao longo dos anos. São mostrados numerosos projetos arquitetônicos e de reurbanização para a região – jamais utilizados. Inclusive o desenho original do Metrô, que previa a criação de duas pistas para carros, uma delas expressa, em níveis diferentes -, engavetados para sempre nos arquivos da burocracia estatal.

O quê isso prova, afinal? Talvez a falta de compromisso das autoridades brasileiras com o mínimo de planejamento, a preguiça de pensar adiante, de buscar o bem-estar da população.

A Paulista – como é intimamente chamada pelos paulistanos -, diferentemente do que já foi, representa hoje um espaço democrático em meio à megalópole atribulada, sendo palco para todo tipo de cultura, cor, religião, estrato social.

Talvez seja a isso que a utopia encontrada ao final da obra de Gê se refere: a vontade de transformar, de mudar para melhor, nunca morre. Grandes obras, como Avenida Paulista, também servem para apontar caminhos para o homem e a sociedade.

 

Classificação:

4,0

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