Batman & Spirit

Por Eduardo Nasi
Data: 14 agosto, 2008

Batman & SpiritEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Jeph Loeb (texto), Darwyn Cooke (desenhos), J. Bone (arte-final) e Dave Stewart (cores).

Preço: R$ 5,90

Número de páginas: 48

Data de lançamento: Fevereiro de 2008

Sinopse: Os vilões de Gotham e Central City vão para o Havaí, onde se realiza uma conferência de policiais. Lá, topam não só com os comissários Gordon e Dolan, mas também com os heróis locais: Batman e Spirit.

Positivo/Negativo: Em pleno Renascimento, Leonardo da Vinci pintou La Gioconda, também conhecida como Mona Lisa, tida por muitos como a obra-prima de uma alma absolutamente genial. Ao longo dos séculos, o quadro ultrapassou os limites de sua própria moldura e se tornou antológico. Virou o centro e a alma do museu mais popular do mundo, o Louvre.

Simultaneamente, foi copiado milhões de vezes em reproduções pintadas, livros, jornais, filmes e pôsteres. Ganhou também novas formas: caneta, caneca, calendário, camiseta, e isso pra ficar só nos itens que começam com a letra “c”. A força dos clones foi diluída à exaustão, reforçando o poder do original.

Há quase cem anos, porém, uma reprodução barata de La Gioconda mostrou que a imagem ainda podia abalar o mundo das artes: L.H.O.O.Q. 1919, a Mona Lisa com bigodes do francês Marcel Duchamp.

O quadro era basicamente o mesmo, ainda que piorado pela qualidade ridícula da cópia que lhe serve de base. A diferença estava, sim, no bigodinho debaixo do nariz. Mas o detalhe, pleno de significados, trazia em si uma marca forte e pessoal do autor, que revigorou a imagem batida.

Depois dele, vieram outros recriadores notáveis de La Gioconda: Andy Warhol a serigrafou, Salvador Dali usou-a de base para um auto-retrato e Fernando Botero pintou-a gordinha. Cada um vestiu o ícone com seus próprios trajes.

L.H.O.O.Q. 1919 tem muito a dizer sobre o encontro de Batman e Spirit. Fala não só do resultado do crossover, mas principalmente do seu potencial.

No mundo dos quadrinhos, o Spirit de Will Eisner é uma obra-prima de porte significativo. Mais do que isso: é canônico e, portanto, traz algo de sagrado. Mas, como a pintura de da Vinci, não é intocável.

Há alguns anos, por sinal, Alan Moore e Rick Veitch fizeram na série Greyshirt uma recriação memorável do detetive. Os dois seguiram a grande lição que Duchamp ensinou: para mexer com um ícone, não precisa fazer muita coisa – basta deixar uma marca indelével.

Eis o grande erro de Loeb. O roteirista tenta meramente seguir os passos de Eisner. Na melhor das hipóteses, é um copista medíocre. Ali e acolá, tenta emular a narrativa policial vertiginosa mesclada com humor. Mas, com tantos personagens, principalmente uma imensa galeria de vilões, a trama fica grandiosa e perdida. O resultado é pífio.

Outro problema é a estrutura da própria HQ. Com Batman e Spirit nas mãos, Loeb tinha tudo para fugir dos clichês, mas acabou chafurdando nos chavões dos crossovers. Convenção do crime tem até o indefectível combate entre os dois mocinhos!

É na arte de Cooke que Batman & Spirit tem o seu melhor: o criador de DC – A nova fronteira impõe à HQ um clima retrô, responsável por uniformizar os personagens dos dois protagonistas e colocá-los para viver em um mesmo universo plausível.

Sem grandes arroubos, sem ser vertiginoso como Eisner, Cooke ao menos faz diferença com seu traço belamente estilizado. Como é ele quem cuidará de texto e arte da série em seis partes do personagem, que a Panini põe nas bancas a partir de março, é prudente deixar claro que o nível das histórias pode ser bem melhor.

E, por falar em questões editoriais, cabe fazer uma correção à biografia de Eisner publicada no fim da revista. Ao contrário do que o texto dá a entender, o livro teórico Graphic Storytelling não é inédito no Brasil. Ele se chama Narrativas Gráficas na versão nacional da Devir – casa que divide com a Companhia das Letras a publicação dos Eisner autênticos por estas bandas.

Aliás, uma pena que a Panini tenha omitido os nomes de todas as editoras que publicaram no Brasil as obras de Eisner mencionadas nesse texto.

Enfim, parafraseando a própria abertura de Batman & Spirit: algumas histórias são para ser contadas diversas e diversas vezes, e outras, por razões óbvias, simplesmente deveriam ser contadas de outra forma.

Classificação

2,0

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