BANDO DE DOIS

Por Sidney Gusman
Data: 1 dezembro, 2010

BANDO DE DOIS

Editora: Zarabatana – Edição especial

Autor: Danilo Beyruth (roteiro e arte).

Preço: R$ 36,00

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Setembro de 2010

 

Sinopse

Tinhoso e Caveira de Boi são os dois únicos sobreviventes de um bando que era composto por 20 cangaceiros.

Ferido, Tinhoso tem uma visão de seu comandante e seus companheiros mortos pedindo que os ajudasse, que os levasse para o descanso. Ele decide, então, partir em busca das cabeças decepadas de todos eles, que estão com a volante do tenente Honório.

Para isso, contará com a ajuda de Caveira de Boi, que aceita a empreitada, mas por um motivo bem menos nobre…

Juntos, os dois decidem enfrentar um exército. Literalmente.

Positivo/Negativo

Muitos fãs de quadrinhos têm por hábito, antes de iniciar a leitura, conferir os textos da quarta capa de uma edição em formato livro. A deste álbum traz o texto abaixo.

“Paisagens desoladas, bandidos mal-encarados, povoados miseráveis no deserto, tesouros escondidos e trens carregados de dinamite. Não. Não estamos falando de um filme de Sergio Leone. Bando de Dois, de Danilo Beyruth, leva para o cangaço o clima dos westerns italianos, resgatando a aventura nas histórias em quadrinhos brasileiras.”

Pois, ao chegar à última página do álbum, o leitor atestará que lhe foi entregue exatamente o que o texto da quarta capa anuncia. E com sobras.

Bando de Dois, um dos trabalhos de quadrinhos contemplados em 2009 pelo ProAC – Programa de Ação Cultural, da Secretaria da Cultura do governo do estado de São Paulo, realmente investe num gênero que vem sendo pouco abordado nas publicações nacionais destinadas às livrarias. E o faz com categoria. É aventura, das boas, da primeira à última página.

O roteiro, movido pelas diferentes motivações de Tinhoso e Caveira de Boi, é muito bem conduzido. No velho e eficiente esquema de histórias com começo, meio e fim, prende o leitor e se desenvolve num ritmo que lembra mesmo os filmes de faroeste de Sergio Leone.

Aliás, nas aberturas de capítulos sempre com cenas “mudas” e planos amplos, a sensação que se tem é que, a qualquer momento, se ouvirá uma daquelas trilhas instrumentais típicas do gênero, quem sabe tocada por Ennio Morricone.

Não seria exagero dizer que a história de Bando de Dois daria um bom filme de western brasileiro. A sequência da batalha sob as badaladas do sino da igreja que o diga: é totalmente cinematográfica.

O único senão do roteiro é o sumiço do coadjuvante Zeca, que estava acompanhando os cangaceiros, sem qualquer explicação. Além disso, outro detalhe chama a atenção: em alguns balões de texto, o sotaque nordestino deveria ter sido mais enfatizado. Um personagem que fala “reabastecê”, certamente não diria “poder” em seguida.

Mas isso passa despercebido ante a arte estupenda de Danilo Beyruth. Se em Necronauta ele usa mais o preto, porque as cenas são quase sempre noturnas; em Bando de Dois, tudo se passa sob o sol escaldante do sertão. E o autor esbanja competência no jogo de claro e escuro, sem jamais exagerar. A cena da página 63, em que o tenente está de frente para a igreja, por exemplo, é um primor nesse sentido.

Além disso, a arte de Beyruth “dosa” o ritmo da leitura na velocidade exata pedida pelo roteiro. Com tomadas de câmera ousadas, uma diagramação de páginas arejada, um traço detalhadíssimo e um trabalho incrível na expressão facial dos personagens, ele deixa o leitor indeciso entre virar logo a página ou apreciar cada minúcia retratada.

Isso sem contar a capa do álbum, a melhor deste ano de 2010 até o momento, e a arrebatadora sequência final.

Beyruth acha espaço até para fazer uma bem-humorada homenagem a Henfil, no meio de uma cena de pura ação: quando o tenente Honório leva um golpe no rosto, em torno da sua cabeça aparecem graúnas voando. Muito apropriado, já que a personagem vivia suas aventuras no Nordeste brasileiro, ao lado do bode Orelana e de Zeferino.

No aspecto editorial, o álbum é outro belo trabalho da Zarabatana. A única escorregada, de revisão, acontece na página 50: na frase “nada de mal vai acontecer”, o correto seria usar “mau”.

Num ano que tem sido ótimo para os quadrinhos nacionais, Bando de Dois é mais um álbum que, certamente, brigará por prêmios em 2011. E o melhor: Danilo Beyruth deixou o caminho mais do que aberto para novas aventuras de Tinhoso e Caveira de Boi. Que venham outras!

Classificação:

4,0

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