Batman – A Piada Mortal

Por Gilberto M. M. Santos
Data: 14 agosto, 2004

Batman - A Piada MortalEditora: Editora Abril – Edição especial

Autores: Alan Moore (roteiro), Brian Bolland (arte) e John Higgins (cores).

Preço: R$ 4,50

Número de páginas: 48 páginas

Data de lançamento: Abril de 1999 (esta versão, pois a primeira é de 1988)

Sinopse

Tentando enlouquecer o comissário Gordon, o Coringa tortura o velho policial, infligindo-lhe o tormento psicológico de observar cenas na qual aleija e, aparentemente, sodomiza sua filha Barbara.

A intenção do maníaco é mostrar ao Batman que qualquer um pode enlouquecer se tiver um dia ruim. Uma história brutal, na qual o Coringa expõe o auge de sua insanidade.

A trama, além de uma profunda análise psicológica do Coringa e do Batman, traz uma nova visão para a origem do mais importante inimigo do Cavaleiro das Trevas.

Positivo/Negativo

A única coisa que se sabia do Coringa é que ele tinha sido o bandido conhecido como Capuz Vermelho. Ele era um ser sem passado. Alan Moore mudou isso. Desde o lançamento desta revista, o Palhaço do Crime tem um passado, uma família e uma tragédia. E isso tudo, aliado a seu espírito covarde, culminou na criação de uma nova personalidade, uma fuga, uma máscara para encarar a realidade.

Essa história quebrou alguns paradigmas dos quadrinhos. Em geral, a relação herói-vilão é simples e maniqueísta. O mocinho perfeito enfrentando seu contraponto imperfeito. Nos roteiros clássicos, a função do bandido é personificar as dificuldades, a força opositora que apresenta resistência ativa e, por isso, valoriza e enobrece os esforços do protagonista para atingir seus ideais.

Nos roteiros pouco mais elaborados e menos ortodoxos, o maniqueísmo ainda é presente, mas atenuado. O herói já não é visto como um arquétipo da perfeição, mas como qualquer pessoa. Ele tem problemas e conflitos internos, seu diferencial é a perseverança e a coragem de enfrentar os problemas, mesmo consciente de suas imperfeições. O vilão, por sua vez, passa a representar um elemento menos importante, embora mais complexo.

No roteiro de A Piada Mortal, que ainda hoje pode ser considerado de vanguarda, Moore rompe com as regras e fórmulas clássicas. A história é surpreendentemente complexa, exigindo uma análise difusa dos personagens, do simbolismo, e das tramas que ora convergem, ora correm paralelas uma as outras.

Alan Moore influenciou as HQs ocidentais mais que qualquer outro escritor contemporâneo. Trabalhos como Monstro do Pântano, V de Vingança, Watchmen, Tom Strong, Do Inferno, A Liga Extraordinária e, claro, A Piada Mortal atingiram o status de obras-primas.

Nesta aventura, Moore explora profundamente o aspecto psicológico de dois dos maiores pilares dos quadrinhos de super-heróis, Batman e seu antagonista, o Coringa. Há três tramas (Batman, Coringa e Gordon) que vão se trançando. Entretanto, em dado momento, a história do comissário se individualiza, passando a ser um referencial de comparação com as demais.

A narrativa é soberba, as mudanças temporais são extraordinariamente bem realizadas, o fluxo oscila, utilizando tipos de linguagem diferenciados para tratar de presente e passado. Boa parte da história remete às lembranças do homem que se tornaria um dos mais perigosos bandidos da DC Comics. E o trabalho de analise psicológica é primoroso. Assim, Moore demonstra quem foi – e é – aquele homem e quais suas alegrias, frustrações e motivações.

A interação entre a arte e o texto é de uma qualidade e sutileza ímpar. As cores são usadas como referencial emotivo. Assim, as boas lembranças são mostradas com tons claros, e as passagens tristes num alaranjado, que cumpre bem seu papel, chegando a causar desconforto no leitor.

O plot do Batman começa no Asilo Arkham, mostrando um personagem calmo, centrado, apaziguador. Em outra direção, o do Coringa se inicia com o cruel ataque a Barbara Gordon, revelando um homem brutal e insano, a imagem de um psicopata.

Vindo de direções opostas, aos poucos as duas histórias vão se misturando e algumas perguntas vão sendo expostas: quão são é um homem que se mascara para enfrentar a vida? Quantos manteriam sua sanidade após um grande trauma? E ambas servem tanto para o Batman quanto para o Coringa, mas são respondidas no storyline do comissário Gordon.

Bruce Wayne, Gordon e um jovem comediante passaram por revezes na vida. O que levou dois deles a seguir o caminho da máscara? O que fez o outro sofrer, resistir e continuar vivendo? Quem enfrentou melhor os conflitos internos?

Moore desconstrói a idéia de que boas histórias precisam ser baseadas em arquétipos mitológicos. A “realidade” é bem mais complexa. Batman não é apenas o modelo do herói, o Coringa não é somente o pícaro, a personalidade de Gordon é bem mais complexa que um mero guardião.

Próximo ao desfecho, o autor brinda o leitor com um instante de aparente lucidez do Coringa. Por um breve momento, Batman tem contato com o jovem e pouco talentoso comediante que viria a ser o vilão. E se no início as tramas dos dois caminhavam em direções opostas, no final, quando o Palhaço do Crime exibe uma ponta de sanidade, a loucura de Batman aflora.

Alan Moore faz uma genial analogia entre uma velha piada de loucos e o medo que o Coringa tem de tentar viver novamente e, mais uma vez, a vida o afrontar com a decepção. Na percepção do autor, depois da tragédia que levou sua sanidade, o personagem não suportaria uma segunda.

A intenção do Coringa era justificar suas ações, ser condescendente com seus próprios erros e demonstrar ao Batman que qualquer um pode se partir se tiver “um dia ruim”. Foi essa sua motivação ao mutilar Barbara e torturar o Comissário Gordon.

Mas apesar do “dia ruim”, Gordon, diferente de Batman e do próprio Coringa, continua firme, lutando, sentindo as dores de seus conflitos internos e mantendo a consciência de que não pode tomar o destino em suas mãos.

Em 1989, A Piada Mortal ganhou as principais premiações das HQs americanas: o Harvey Award (Melhor história, desenhista, colorista e graphic novel) e o Will Eisner Comic Industry Award (Melhor escritor, artista e graphic novel).

Se o roteiro de Moore é fabuloso, a arte de Bolland não deixa por menos. Boa parte da genialidade da obra está nos seus desenhos hiperdetalhistas, com traços finos e pleno domínio do uso de luz e sombras. Ele imprime aos personagens uma noção de expressão corporal e facial poucas vezes vistas nas HQs americanas.

Nesta segunda impressão, a Abril fez um excelente trabalho, cores belíssimas, papel de qualidade, capa cartonada, até o aroma da edição é bom, bem melhor que a primeira versão, publicada no número 5 da série Graphic Novel.

Em 2002, a Opera Graphica relançou esta história numa excelente edição preto-e-branco, capa dura, formato pocket, com uma nova e belíssima capa com uma gravura impressa em prateado.

Classificação

5,0

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