Batman – O Cavaleiro das Trevas – Edição definitiva

Por Sidney Gusman
Data: 23 fevereiro, 2007

Batman - O Cavaleiro das Trevas - Edição definitivaEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Frank Miller (roteiro e desenhos), Klaus Janson (arte-final, apenas da primeira parte) e Linn Varley (cores).

Preço: R$ 95,90 (versão capa dura) e R$ 69,90 (capa cartonada)

Número de páginas: 512

Data de lançamento: Fevereiro de 2007

Sinopse: Edição compilando as minisséries Batman – O Cavaleiro das Trevas e Batman – O Cavaleiro das Trevas 2.

Em Batman – O Cavaleiro das Trevas, Bruce Wayne, aos 55 anos, está aposentado e tenta levar o que mais se aproxima de uma vida comum, mas a onda de crimes em Gotham City não deixa.

Inconformado, ele passa a impedir um crime aqui e outro ali, sempre em meio às trevas. Mas não adianta, em pouco tempo a notícia se espalha: o Batman voltou à ativa!

O problema é que os super-heróis estão há dez anos proibidos de agir em público pelo governo norte-americano. E o mundo vive sob o medo de uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética (a obra é de 1986). Agora, o Morcego terá de lidar com o problema que arrumou – e ele adora isso.

Batman – O Cavaleiro das Trevas 2 (lançado em 2002) se passa três anos depois da morte aparente do Batman, na primeira minissérie. Os Estados Unidos são governados pelo presidente Rickard, um fantoche digital de Lex Luthor. Por isso, o país vive num regime praticamente fascista.

Os antigos super-heróis permanecem afastados, impassíveis. Até que a trupe liderada pela Moça-Gato (que comanda os batboys) resgata dos seus diferentes cativeiros duas lendas do passado: Átomo e Flash.

Esse ressurgimento de aventureiros mascarados desperta velhas rixas, obrigando o Superman a se reunir com seus companheiros Capitão Marvel e Mulher-Maravilha, o que resultará numa intervenção direta nos planos do único responsável possível: Batman.

O Homem de Aço está sendo chantageado por Lex Luthor e Brainiac, que mantêm a cidade engarrafada de Kandor (o último resquício de Krypton) sob seu domínio, obrigando o herói a obedecê-lo.

Batman - O Cavaleiro das Trevas - Edição definitivaPositivo/Negativo: Analisar este álbum da Panini é quase como resenhar uma revista mix. Afinal, a qualidade das duas minisséries é tão díspar, que chega a ser covardia.

O Cavaleiro das Trevas original é para muitos (inclusive este resenhista) a melhor história do Batman em todos os tempos. Frank Miller pegou um personagem que há mais de dez anos andava sem-graça, esquecido, ridicularizado, até, e o transformou – de novo – num ícone da cultura pop.

Com um roteiro envolvente, reconduziu o Morcego às origens, deixando-o soturno, sombrio, anárquico e muito violento, sempre com o contraponto da falta de agilidade de um quase sexagenário.

Miller fez mais do que isso: ele definiu como o Batman passaria a ser a partir dali. E o fez com tanta competência que, até hoje, mais de duas décadas depois, o “modelo” do Cavaleiro das Trevas é o resgatado por ele, com apenas um pequeno retoque aqui ou ali.

Não bastasse isso, o autor “sugere” a morte de Jason Todd, o segundo Robin, três anos antes de ela ocorrer; dá um enfoque diferente à relação do herói com o Duas-Caras; retrata com muita felicidade os efeitos do tempo sobre o Arqueiro Verde e a Mulher-Gato; cria um novo parâmetro (que seria muito copiado posteriormente) para o relacionamento do Morcego com o Superman; e, principalmente, tem peito para matar o Coringa.

E tudo com uma arte ágil e uma narrativa sensacional (o recurso das televisões foi outra coisa que virou “moda” nas HQs). E tudo muito bem complementado pelas cores sóbrias, na medida certa, de Linn Varley.

Resumindo, nunca é possível dar menos do que a nota máxima para Batman – O Cavaleiro das Trevas. A não ser quando ela não é publicada sozinha…

E aí vem o problema.

O Cavaleiro das Trevas 2 é muito, mas muito inferior ao original. Para alguns, a história paga o preço de carregar o peso de um título tão emblemático, mas o buraco é mais embaixo. Ela tem falhas que vão da concepção do roteiro à cor.

Durante quase duas décadas, Miller se recusou veementemente a criar uma continuação para a minissérie original. Mas a DC o encheu tanto (inclusive seus bolsos, claro), que ele cedeu. No entanto, a impressão que passa é que o autor construiu a obra de forma tão fraca de propósito. Algo do gênero: “Ah, não queriam isso? Então, toma!”.

O roteiro é baseado num argumento pueril, tolo. Ora, quantas vezes o Superman foi chantageado por seus inimigos e jamais se rendeu? O personagem é retratado como um “pau mandado que não pensa, só obedece” – e a despeito de alguns de seus detratores acharem isso mesmo a seu respeito, ele está bem distante disso.

A sacada genial do final da primeira minissérie envolvendo o Superman e o Batman, é praticamente descartada. Uma pena.

Além disso, há alguns momentos constrangedores. É verdade que a Mulher-Maravilha é extremamente bela e sensual, mas daí a fazer um quase defunto levantar (por favor, esta referência é ao Superman), relembrar toda sua virilidade e dar uma “bimbada nas estrelas” é forçar a barra. Deprimente! E o mesmo adjetivo vale para o que Miller faz no desfecho da obra com Dick Grayson.

Para não dizer que só há coisas ruins, os retornos do Flash e do Átomo são frutos de sacadas criativas. Mas é pouco para segurar o roteiro.

Na arte, Frank Miller deixa no ar outro quê de provocação. Que traço horrendo! A minissérie poderia se chamar “No Reino dos Pés-Grandes”, devido à desproporção exagerada que adotou. Ele nunca fez algo tão feio.

Pior: nem sua sempre excelente narrativa se sobressai. A passagem das cenas é truncada e até o antigo recurso das televisões é banalizado. Em determinado momento, o autor usa Alfred E. Newman, o símbolo da revista Mad, numa das TVs. Parecia piada mesmo.

E a pá de cal é a cor de Linn Varley, que deve ter descoberto o Photoshop naquela época e resolveu “brincar”, com a anuência do marido, lógico. O resultado é triste, para dizer o mínimo. Um festival de borrões e tons berrantes, anos-luz do bom trabalho que ela executou no Cavaleiro das Trevas original.

Mas as duas minisséries foram publicadas num só volume, uma jogada muito inteligente da Panini – afinal, pouca gente compraria um encadernado de O Cavaleiro das Trevas 2 apenas. Ou seja, comercialmente, uma decisão acertadíssima.

A editora colocou no mercado, com um atraso de dois meses (a edição foi anunciada para dezembro de 2006), duas versões: uma em capa dura (com fundo prateado) e outra cartonada (vermelho). Ambas estão caprichadas graficamente e trazem extras interessantes, como esboços das artes.

Na parte editorial, há pequenos vacilos, como um “obessivo” (obsessivo) logo no prefácio de Frank Miller; e a expressão “uma satélite”, na primeira aparição da Mulher-Maravilha (as páginas não estão numeradas, o que dificulta a localização) na segunda mini. Mas, no geral, foi um bom trabalho.

Resumindo, O Cavaleiro das Trevas é uma obra para ser lembrada e relembrada sempre; O Cavaleiro das Trevas 2, é digna de esquecimento. Mas, no final das contas, não deixa de ser interessante ter as duas obras compiladas, até para facilitar as comparações.

Classificação

3,5

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