BATMAN PRETO E BRANCO

Por Ronaldo Barata
Data: 25 junho, 2009


Autores: Ted McKeever, Bruce Timm, Joe Kubert, Howard Chaykin, Archie Goodwin e José Muñoz, Walter Simonson, Jan Strnad e Richard Corben, Kent Williams, Chuck Dixon e Jorge Zaffino, Neil Gaiman e Simon Bisley, Klaus Janson, Andrew Kelfer e Liberatore, Matt Wagner, Bill Sienkiewicz, Dennis O’Neil e Teddy Kristiansen, Brian Bolland, Kevin Nowlan, Gary Gianni, Brian Stelfreeze, Katsuhiro Otomo.

Preço: R$ 49,90

Número de páginas: 240

Data de lançamento: Maio de 2008

Sinopse: Uma coletânea de 20 histórias, de diversos autores, mostrando vários pontos de vista sobre o Batman.

Luto perpétuo – Batman usa seu dom investigativo para descobrir a identidade de uma jovem assassinada.

Dúbio amor – Graças ao trabalho de uma jovem psiquiatra, o Duas-Caras se recupera e volta à sociedade.

A caçada – Seria Batman literalmente um homem-morcego?

Crimes triviais – Batman caça um assassino serial pelas ruas de Gotham.

O trompete do diabo – A história do trompete de Coley Treadwell e seu poder de evocar as criaturas das sombras.

Lenda – Num futuro dominado por uma ditadura, a lenda do Cavaleiro das Trevas ainda traz esperança.

Monstro – A realidade cruel dos becos sujos de Gotham põe Batman para lutar até mesmo contra crianças.

Olhos de meninos mortos – Ferido em uma emboscada, Batman confronta Bruce Wayne para tentar sobreviver.

A mão do criminoso – Ao lado da polícia de Gotham, Batman desvenda a identidade de um assassino da máfia.

Um mundo preto e branco – Batman e Coringa esperam para fazer o seu show e conversam sobre coisas triviais.

Boa noite, meia-noite – Alfred relembra a importância e o destino selado de Batman.

Sonhos – O Homem-Morcego ajuda pela segunda vez uma jovem, mas agora os inimigos estão em sua própria mente.

O assalto – Batman frustra alguns criminosos, ao melhor estilo noir.

Pais e filhos – Batman lutando pelo direito de um filho ter um pai.

Canção mortal – O Cavaleiro das Trevas protege uma testemunha de um assassino de aluguel em pleno Natal.

Um sujeito inocente – Um garoto acima de qualquer suspeita decide colocar seu nome na história matando o Batman.

Monstros no armário – Gotham City esconde segredos sombrios atrás de suas paredes; e o Homem-Morcego é o único a encontrá-los.

Heróis – Um garoto, filho de um grande inventor, entende o significado da palavra herói.

Abandono – Ferido, Batman começa a sentir o quanto é solitário.

A terceira máscara – Quantas identidades pode haver sob o capuz do Batman?

Positivo/Negativo: Vários artistas, diversas histórias, um só personagem. Mais do que uma homenagem, Batman Preto e Branco é uma coletânea de estilos narrativos e artes.

Ao contrário do que se vê atualmente nos quadrinhos regulares do Batman, aqui tem-se a chance de experimentar diversas possibilidades que o personagem permite. Os autores não estão presos a cronologias, megassagas e bobagens do gênero. O único compromisso é o de contar uma boa história.

Luto perpétuo – Faz muito tempo que os autores de quadrinhos esqueceram que o Cavaleiro das Trevas é um detetive e que seu intelecto é sua principal arma.

Aqui, Batman se esforça investigando a identidade de uma jovem assassinada.

A arte suja e pesada de Ted McKeever completa perfeitamente o cenário, passando o clima de morte e mistério necessários.

Dúbio amor – Bruce Timm ficou famoso ao mudar a abordagem sobre o Batman nos desenhos animados, deixando-o mais sisudo e sombrio.

Nesta HQ, ele foca suas atenções não no Batman, mas sim em Harvey Dent, o Duas-Caras.

Dent, com a ajuda de uma linda psiquiatra, Marilyn Crane, se recupera de seu trauma, realiza cirurgias de reconstrução de sua face e regressa à sociedade. Tudo seria perfeito, não fosse a irmã gêmea perversa de Marilyn.

Apesar do clichê, Bruce Timm trabalha muito bem a arte e a narrativa, deixando um clima noir e contando uma história do Batman praticamente sem o herói.

A caçada – Joe Kubert é um mestre, sem dúvida, mas aqui ele peca.

Esta é umas das histórias mais fracas da coletânea. Brincando com a ideia de um Homem-Morcego literal, um vampiro com jeitão de “Drácula justiceiro”, Kubert põe tudo a perder com o final, em que deixa em aberto se Batman seria realmente um morto-vivo ou teria sido apenas tudo um sonho.

Crimes triviais – Um assassino serial que mata as pessoas comuns por infrações banais, como ultrapassar o limite do caixa-rápido do mercado ou não recolher o cocô de seus cachorros na calçada.

A HQ de Howard Chaykin se escora na sequência narrativa marcada e repetitiva, para passar a sensação de rotina.

Enquanto Batman tenta traçar o perfil de um assassino que não tem padrões e pode, literalmente, ser qualquer um, o autor sugere, de maneira muito fraca, uma discussão sobre crime e punição.

No fim, é uma HQ graficamente bonita, mas entediante.

O trompete do diabo – É uma das HQs mais curiosas do álbum. Archie Goodwin traz uma história não sobre o Batman, mas sobre um trompetista capaz de qualquer coisa para alcançar o sucesso.

O Morcego é apenas uma “sombra” no final, representando as trevas que cobram o seu preço.

A excelente arte é do argentino José Muñoz, com traços bem soltos e manchados.

Lenda – Walter Simonson traz uma Gotham futurista e dominada por uma ditadura militar, de pessoas reprimidas e quase sem esperança, a não ser pela lenda do Batman.

Simonson é dono de um traço forte e dinâmico, repleto de recursos gráficos, bem ao estilo super-herói. Ele também traz uma ideia mais high tech do Batman, o que destoa bastante do restante das HQs.

Mesmo assim, a história não empolga.

Monstro – O leitor de Batman está acostumado a ver o herói enfrentando loucos fantasiados com planos mirabolantes. A proposta da HQ de Jan Strnad é quebrar um pouco este padrão e mostrar o Cavaleiro das Trevas enfrentando o crime como ele é de verdade, nas ruas.

Uma história legal, mas não é tão impactante para quem vive num país de terceiro mundo quanto deve ser para um norte-americano.

A arte underground de Richard Corben tem o tom perfeito para a trama.

Olhos de meninos mortos – Kent Williams é dono de um estilo gráfico alternativo, caótico e brilhante. Mas que, na verdade, é difícil de as pessoas “engolirem”. Mesmo assim, é excepcional.

Nesta HQ não é diferente. É o trabalho gráfico que sustenta uma história simplória de um Batman ferido travando uma conversa com seu alter ego enquanto tenta sobreviver.

A mão do criminoso – Uma história bastante simples, até pobre em alguns momentos, escrita por Chuck Dixon.

Batman ajuda a descobrir a identidade de um misterioso assassino a serviço da máfia.

Junto com a competente, mas trivial, arte de Jorge Zaffino acaba sendo uma história cansativa e nada memorável.

Um mundo preto e branco – Muitos podem não entender a piada que é esta história escrita por Neil Gaiman e desenhada por Simon Bisley.

Dos anos 80 pra cá, o Batman ganhou uma aura carrancuda e sombria, como se esta fosse a única maneira de lidar com o personagem. As pessoas esqueceram que um dos principais motivos do sucesso do personagem foi uma série boba e infantilóide dos anos 60 (aquela mesmo, com o Adam West).

Pois é neste ponto que os autores contam a sua piada.

Absolutamente sem levar a sério o personagem ou a si mesmos, roteirista e desenhista mostram de maneira fenomenal uma bizarra fusão entre o Batman hilário e esquisitão do seriado dos anos 60 com a imagem dark e violenta que perdura hoje.

Uma piada difícil para muitos entenderem e de gosto bem peculiar para os padrões modernos.

Boa noite, meia-noite – De maneira interessante (e meio piegas) Klaus Janson escreve e desenha uma história sobre o amor paterno de Thomas Wayne por seu filho Bruce.

Amor este que passa ao mordomo Alfred após a morte de Thomas.

Sonhos – Batman ajuda um psicólogo a tratar de uma paciente vítima de um sequestro na infância, o qual o próprio Homem-Morcego frustrou.

O roteiro de Andrew Kelfer, que trabalhou com o personagem Sombra nos anos 1980, é envolvente, porém previsível. Em conjunto com a arte clássica do italiano Liberatore, a história fica com o clima de terror psicológico perfeito.

O assaltoNoir é a palavra que impera na coletânea Batman Preto e Branco. Nesta história escrita e desenhada por Matt Wagner, esta também é a palavra-chave.

É uma HQ simples, descompromissada e bastante divertida, que explora um Batman rápido e sorrateiro, usando o medo como arma contra os assaltantes de uma mansão. Porém, o destaque vai para o excelente trabalho gráfico de Wagner e seu uso inteligente das sombras e retículas.

Pais e filhos – Outra HQ com arte marcante e alternativa, desta vez do mestre Bill Sienkiewicz.

Com uma narrativa espetacular, Sienkiewicz explora a ideia dos crimes para os quais as pessoas nunca dão valor, como o de um pai egoísta que não dá atenção para seu filho.

Apesar da grande quantidade de quadros e textos (é a história mais “cheia” de todas), a HQ é envolvente e eficiente na reflexão que se presta a fazer.

Canção mortal – Outra HQ simples, mas bem contada, que mostra que a preocupação e o senso de dever do Batman vai além de pegar os criminosos.

A arte caótica de Teddy Kristiansen casa de maneira interessante, e ao mesmo tempo bizarra, com o roteiro de Denis O’Neil.

Um sujeito inocente – Brian Bolland – famoso por seu trabalho em A Piada Mortal – escreve e desenha esta HQ que é uma das mais interessantes da coletânea.

Um cara que planeja matar o Batman apenas para fazer algo divertido e marcante na vida.

Ele, porém, é uma mera desculpa para que o autor faça uma comparação entre os absurdos que são as aventuras do Morcego com a vida real e a morte banal e sem sentido que o vigilante poderia sofrer.

O tipo de trama perfeita para o traço de Bolland.

Monstros no armário – Saindo do crime urbano quase real, Jan Strnad volta em sua segunda HQ para o álbum, agora no universo do terror de ficção científica, acompanhado do desenhista Kevin Nowlan.

Ao investigar o sumiço da filha de um figurão de Gotham, Batman acaba encontrando um cientista louco e suas bizarras criaturas.

Tanto o texto quanto a arte fazem desta HQ uma excelente obra, que lembra obras de terror vitoriano como Frankenstein e envolve o leitor do começo ao fim.

Heróis – Archie Goodwin traz as várias ideias do que são heróis, tanto os reais quanto os ficcionais.

A história tem um clima retrô e remete a conceitos mais clássicos do Batman.

A arte fica a cargo de Gary Gianni, que faz um trabalho repleto de hachuras definindo não só a luz e a sombra, como também texturizando as cenas, o que casa perfeitamente com o conceito da HQ.

Abandono – Ferido de maneira banal, entre a vida e a morte, Batman revive, em seus delírios, a morte de seus pais, que talvez seja a sequência de quadrinhos mais refeita e recontada de todos os tempos.

Em toda a coletânea, porém, somente esta história volta diretamente a este momento do personagem.

Ao contrário das outras obras, inclusive do outro roteiro do próprio O’Neil, esta é a única aventura que não é uma visão particular do Cavaleiro das Trevas: é apenas uma maneira boba de recontar a mesma coisa de sempre.

A arte competente de Brian Stelfreeze acaba injustamente relegada à pior HQ do álbum, completamente desnecessária e descabida à proposta de Batman Preto e Branco.

A terceira máscara – Para fechar a edição, a HQ de Katsuhiro Otomo, aclamado criador e diretor de Akira.

Coincidentemente (ou não) a história lembra Akira em vários aspectos. Seja na linguagem narrativa, no cenário (várias partes da HQ se passa em escombros), há diversas, mas sutis, semelhanças. O próprio antagonista é uma espécie de jovem paranormal foragido, ao melhor estilo Tetsuo.

Mas a proposta principal da HQ são as subdivisões que uma mente pode desenvolver quando se cria um ou mais alter egos e quais seriam as consequências destas divisões.

Uma HQ mediana, com um final sem-graça.

Este material, que foi publicada pela primeira vez pela Abril, em 1998, como uma minissérie em quatro partes, ganhou da Paniniuma caprichada edição em capa dura e papel de luxo.

Por se tratar de uma obra mix, interligando obras autorais que têm em comum o personagem principal, é natural que Batman Preto e Branco tenha seus altos e baixos.

Mesmo assim, é visível a superioridade da qualidade das histórias aqui contidas em comparação ao material regular do Batman.

Leitura obrigatória para fãs do Batman.

 

Classificação:

4,0

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